Sexta-feira, 29 de Junho de 2007

tempo

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Há dias participei na minha escola na discussão anual sobre um dos mais irrisórios assuntos que uma escola pode ter para debater: a escolha de um tema aglutinador para a Área de Projecto. Digo irrisório, porque qualquer controvérsia que suscite é absolutamente irrelevante. Na verdade, o que realmente importa é aquilo que os professores fazem com os alunos. E como o fazem. E como o partilham com o resto da comunidade. Todavia, a selecção de um tema aglutinador é uma ideia sempre controversa, porque, seja qual for o tema escolhido, fica-se sempre a pensar duas coisas:

1 - que é mesmo obrigatório trabalhar o tema.
2 - que não é mesmo obrigatório trabalhar o tema.

Quem sabe destas coisas compreende facilmente que as duas ideias estão erradas. O desafio de estudarmos as diversas facetas de um tema é, na minha opinião, sempre empolgante. E, ao contrário do que por aí se diz, diverte-me muito a ideia de não saber minimamente o que outra disciplina está a fazer com o tema. Apoio mesmo toda uma estimulante rivalidade intelectual sobre a forma de trabalhar criativamente um tema único. Mas isto tem a ver com a forma como muitos de nós encaram a escola - um espaço de criatividade, rigor, objectividade, disciplina, justiça e humor.

Nunca como agora tivemos a prova disso mesmo. A recente apresentação da Galeria de Área de Projecto para o ano 2006/2007 (www.ebionofre.pt) é uma primeira tentativa que revela bem o que pode resultar da conjugação de energias e criações livres em relação a um tema tão abrangente que, em boa verdade, nem se pode chamar único.

A forma como "o corpo" foi trabalhado durante o ano que agora termina demonstra como a escola pode e deve ser um lugar de experimentação estética e cultural. Um laboratório de ideias. O tema único não toma ninguém por seu refém. Antes convida. A corrida de velocidade pode ser a coisa mais maçadora do mundo por nunca modificar o seu objectivo fundamental, mas é um desafio extraordinário baixar uma centésima de segundo que seja ao tempo anteriormente registado.

O mesmo paradoxo acontece com um qualquer tema aglutinador. A sua abrangência é tanto a sua principal vantagem, como a sua principal dificuldade. A proposta de estudar para o ano lectivo seguinte o tema "O tempo" surge com este propósito. É uma paixão antiga e partilhada por muita, muita gente. O tema é clássico e foi trabalhado em todos os tempos, em todas as civilizações. Surge aqui, por isso, sem ânimos leves. Nasce com uma reflexão sobre a possibilidade de escolher um tema que todas as áreas disciplinares possam abordar de forma criativa e excitante. Literatura, artes plásticas, geografia, música, matemática, física, química, línguas e culturas estrangeiras, ambiente, formação cívica, apoio pedagógico, educação física, o tema é tão filosófico quanto concreto, permite locuções tão abrangentes como pontuais, da meteorologia aos relógios, da pintura à vida depois da morte, da gestão quotidiana do tempo aos fusos horários, do urbanismo e mobilidades à medição e cronometria, das cronologias às memórias de infância, da moda ao futuro tecnológico, da evolução ao fim da história, da ficção científica à banda desenhada, da biologia e os ritmos biológicos ao fecho das bolsas de valores, do tempo em marketing ao tempo bem passado, do ócio à clepsidra, o tempo está do nosso lado. As metáforas possíveis são mais que muitas. O tempo chegou.

José Saramago diz que já tem escolhidos todos os livros que vai ler durante o tempo que lhe resta de vida e que por isso é que não consegue sair dos livros antigos. O que fazer com o tempo que temos? Acredito com sinceridade que, sendo o tempo o maior dos adversários humanos, estudá-lo e celebrá-lo nas suas múltiplas feições é um tema do nosso tempo. E, caso ainda nos saibamos divertir com desafios destes, escolhê-lo não será, certamente, tempo perdido.
publicado por Rui Correia às 23:34
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