Sábado, 5 de Julho de 2008

limpo

Um dia, contemplava eu o Índico num momento de puro deslumbramento, de íntegra ingenuidade, quando percebi que a proximidade da presença do que é belo faz de cada um de nós o que de melhor tem para ser. É essa proximidade que sempre procuro nos meus dias, nas coisas, nos actos e nas pessoas da minha vida. E activa, vigilantemente, tento subtrair-me a tudo o que me afasta dessa incumbência existencial. Quando vacilo, e já vacilei antes, nesta determinação começo imediatamente a distanciar-me de tudo o que é bonito e a abreviar o prazo de validade da minha vida, que é só uma. Há quem chame a isto o karma, eu chamo-lhe limpeza. A idade vem trazendo-me novos instrumentos subtis, íntimos, de detectar tudo o que possa inquinar os meus dias e já não costumo ser apanhado em falso por inexperiência. Mas sei bem que nunca nos tornamos imunes nem inacessíveis à ignomínia e à detracção. Ontem foi um desses dias em que titubeei. Infringi, pois, o meu código.

Ora, porque eu merecia um valente castigo, fui ontem ver o Djavan ao Coliseu. Que espantosas duas horas. Conheci a voz do Djavan no “Alegre menina” da “Gabriela, cravo e canela”. Tem, pois, essa idade a minha veneração. Depois de anos de audição e estudo da sua música, fui vê-lo há uns anos atrás num concerto em que ele lutava heróica e infrutiferamente contra uma acústica impossível. Mas ontem tudo foi perfeito. O público, culto e afectivo, demonstrou a dívida pública que Portugal lhe tem. O Djavan é um daqueles artistas raros que consegue aliar peças finas de composição a uma atmosfera de límpida plenitude. Não é o único. Na minha vida, quatro compositores instantaneamente me reconduzem à bondade das coisas. Al Jarreau, Djavan, Ivan Lins e James Taylor. Já os vi todos ao vivo e foram-me sempre momentos incomparáveis, reparadores.

Ontem, o músico alagoano mostrou flores novas do seu último cd. Duas delas mostram um Djavan em plena forma “Pedra”, “Desandou”. Este disco representa o regresso dos metais às composições de Djavan. Absoluto domínio. Composições e harmonias difíceis de rigorosa simplicidade e síntese. Outro ponto divertido, Djavan, pai recente de 59 anos, é acompanhado por dois dos seus filhos, João e Max Viana. Nepotismo? Provavelmente, mas merecidíssimo. Músicos, ambos, de eleição. Competentíssimos e superlativos, superlativíssimos.

Enfim, saímos do Coliseu com a alma cheia e fomos imperializar umas gambas para uma cervejaria tardia, em homenagem ao “eu te devoro”. No meio de tanta felicidade, saímos e passámos pela porta dos artistas. Quem haveríamos nós de encontrar? Djavan Caetano Viana. Depois de lhe agradecer a utilidade essencial que tem nas nossas vidas, conversámos, simplesmente, de prazeres comuns: afectos, acordes e guitarras. Momento índico. Merecido.

O site do músico vale a visita. Vejam as fotos. aqui
publicado por Rui Correia às 16:27
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5 comentários:
De Co a 6 de Julho de 2008 às 11:19
DJ Avan é insuportável.
De Rui a 6 de Julho de 2008 às 02:42
DJ Avan é insuportável
De fj a 6 de Julho de 2008 às 00:36
pois, o DJ Avan é do melhor!
De Rui a 5 de Julho de 2008 às 23:23
...e um dos temas que ele cantou foi o "Djavante camarááááDjavante, Djuuuuntátua à nossa voz...
De Co a 5 de Julho de 2008 às 21:25
e eu sei de fonte limpa que, quando tu e a tua cachopa estavam para vir embora, exclamou ele: atão, djavan embora?

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