Domingo, 3 de Agosto de 2008

estimações

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O Mário Soares chamava-lhe a Cassandra dos nossos tempos. Já antes aqui confessei a minha admiração por tipos emancipados pela idade e pela impaciência como Medina Carreira ou Silva Lopes. O livro que li ontem "O dever da verdade" não é um livro; é uma conversa capaz, mesmo após o prefácio de Manuela Ferreira Leite. Tem uma condução de entrevista suficientemente apta. E depois... bem, depois… é o Medina Carreira. A conversa termina repentina e inopinadamente, mas o que por ali vai é de bradar aos céus. Maravilhosamente controverso. E estatístico. Muito e rigorosamente estatístico. Lê-se num ápice, mas magoa ler aquilo. Portugal é descorçoado de uma ponta à outra. Tem momentos de absoluta hilaridade, mesmo quando o objectivo é outro. Depois, introduz reflexões indispensáveis como a interrogação sobre a razão por que não foram os nórdicos a iniciar a revolução industrial, um tópico mais fundo do que parece; ou o reforço da ideia pela qual os países com défice são os que não progridem, que é uma ideia que muitos apostam em subestimar para falar - ambiguamente - da "obsessão pelo défice". Outro ainda é a sua virulenta oposição às "subvenções vitalícias" de seja quem for; ou a sua incredulidade face às regalias da imigração (sem pitada de teor xenófobo, entenda-se). Ou o abandono da luta sindical contra os capitalistas (por medo de "deslocalizações") e reorientação da luta contra o Estado, em exclusivo. Interessante a sua adesão ao modelo presidencialista, de eleição por seis anos, irrepetível para evitar "aspirações claudicantes a um segundo mandato". A simplificação do sistema fiscal - algo que em meu entender é incontornável, (a fiscalidade é o manual de instruções da democracia e do seu entendimento e, goste-se ou não, tudo é redistribuição da riqueza).

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Para além da educação, em que é um absoluto inepto, (sempre que abre a boca sobre o tema consegue ser absolutamente incompetente e mesmo tresvariado) são deliciosamente polémicas as suas convicções sobre a superioridade das qualificações dos cidadãos de Leste (nunca vi assegurada esta que é tida como uma verdade absoluta); a reestruturação do governo para quatro superministérios: Presidência, Finanças, Economia e Educação; a absurda referência pela qual estamos como estávamos em 1926 e inconsistência de achar que "nem tem de temer-se «um Salazar» porque os ventos da história não sopram para esse lado" (se não “sopram” é por causa do sistema democrático, mau ou bom, que ele mesmo se afadiga em fustigar).

Mas o pior de tudo é também o melhor de tudo: a sua absoluta convicção em responsabilizar. Tudo e todos têm de ser responsabilizados. De alto a baixo. Do funcionário público ao presidente. E, na sua sanha incorruptível contra os políticos, incompreensivelmente, afirma que "de tudo isto está inocente a sociedade civil".

Há uns anos aprendi uma frase num restaurante na Polónia dita pelo famoso autor polaco Stanislaw Lem: "os canibais preferem gente sem espinha". Por isso muito recomendo esta leitura, em que se ocupa uma hora excelente. Cassandra queria o cavalo de Tróia destruído. Ela avisou.
publicado por Rui Correia às 01:52
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