Quarta-feira, 27 de Agosto de 2008

sombra

A extraordinária invasão da Geórgia obriga a pensar em duas ou três coisas que dizem respeito às quatro partes de um todo. A primeira é que nada convém mais a uma Rússia frustrada do que uma América do Norte desacreditada. Neste sentido, as eleições americanas podem determinar que se siga um rumo semelhante ao que tem sido adoptado por Bush e Cheney, algo que notoriamente interessa à Rússia, porque o seu papel no mundo só ganhará com a descredibilização norte-americana. O que é o mesmo que dizer que os russos nada têm contra a manutenção dos republicanos no poder. Afinal de contas, o programa democrata é muito mais contemporizador e visa a reabilitação da política externa norte-americana. Essa probidade atiraria a Rússia para um canto diplomático ainda mais recôndito do que aquele em que se encontra.

Por outro lado, toda esta contumácia mediática acerca do advento de uma nova “guerra fria“ serve os interesses republicanos, de novo apostados numa receita onde, tal como com Bush, o medo volta a imperar. Os norte-americanos e a sua costela conservadora raramente hesitam quando têm de escolher entre um republicano e um democrata para dirigir o país em tempos de guerra. E isto é assim, apesar de, se excluirmos Lincoln, os seus melhores líderes em tempos de guerra – fria ou quente - terem sido sempre democratas (Wilson, Roosevelt, Truman, Kennedy) e muitos dos seus tempos de guerra tenham sido incendiados por velhos republicanos (Grant, Eisenhower, Nixon, Reagan).

Encrespar os ódios reprimidos de nações vizinhas contra o imperialismo russo para instalar um cinto de mísseis – defensivos, à Bush - em seu redor não pode, evidentemente, contribuir para um qualquer equilíbrio diplomático.

No meio disto, movimenta-se uma atarantada União Europeia que não faz a mais remota ideia da direcção para onde deve mover-se. O Kosovo foi, afinal de contas, um disparate redondo e maior de uma política externa errática, desencabeçada. Portugal é um dos poucos países europeus que, prudentemente, mantém a cabeça fria sobre o assunto. A dependência energética europeia obriga-a a um entorpecimento que a sua consciência histórica devia interromper. Aquilo que o desastroso Não irlandês provocou, sente-se agora nesta inépcia comunitária que paralisa uma diplomacia estratégica. Nesta mesa de discussão, a Europa, entrevadíssima, consegue saber não desempenhar lugar absolutamente nenhum.

Finalmente, assiste-se a um segundo silêncio, mas, ao contrário do europeu, um silêncio mais calculado e perseverante. Coloquemos as coisas desta forma: Sha Yexin é um dramaturgo chinês, nascido em 1939, cuja obra conheceu especial controvérsia com a peça “O impostor (Se eu fosse real) que reprovava abertamente os nepotismos e a corrupção da política chinesa. Director artístico do Teatro Popular de Shanghai até 1995, muitas foram as peças que o regime impediu que encenasse.

Nessa enorme sombra chinesa que paira sobre o que sabemos da China, são às centenas, histórias como esta que demonstram iniludivelmente como este extraordinário país vive. É um universo de outro século que se entrega a esforços acrobáticos para legitimar um sistema absolutamente improcedente. Um regime pulha, que vive de aparências, como o recente festim olímpico bem demonstrou. Um sistema que não resistirá, entregue às suas mãos, derrotado pelo seu próprio “sucesso”. Como dizia um jornalista perspicaz recentemente, a única ilação que o Partido Comunista Chinês tenciona retirar, a única lição que pretende ensinar ao seu povo com estes jogos formula-se assim: “Demo-vos este êxito e este orgulho; agora, confiem em nós para tudo o resto”.

Impassível perante as “mexeriquices” agitadas por ambientalistas, activistas dos direitos humanos e por uma opinião pública ocidental crescentemente “sinófoba”, a China constrói o seu lugar, esperando apenas por aquilo que, no domínio da diplomacia de alta competição, importa saber esperar: erros dos adversários. Invadir o Iraque, a Geórgia, ou não saber o que são e para que servem, afinal, a NATO e a União Europeia constituirão, caso estes actores não percebam que um certo mundo acabou e que outro já começou, estertores voluntários destas três entidades (EUA, Rússia e EU) que, pé ante pé, são conduzidos para onde os novos actores os querem ver sentados. Na primeira fila de um teatro, olimpicamente assistindo a um teatro de sombras chinesas.
publicado por Rui Correia às 17:42
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