Sábado, 30 de Agosto de 2008

Adamastor

Num momento em que fazem escândalo as opiniões de Allistair Darling, chanceler britânico do tesouro, segundo o qual a actual crise económica é "a mais difícil de toda uma geração", custa compreender - ou talvez nem por isso - que o país se tenha entusiasmado tão completamente com a organização de uns jogos olímpicos que produzirão uma despesa inaudita para um país que se reconhece em tão maus lençóis. Também entre nós debate idêntico nos ocupa há anos. Portugal atravessa "a mais difícil crise económica e financeira desde há trinta anos" e preparamo-nos para um investimento munificente em mais obras ligadas aos transportes para as quais não podemos garantir pagamento público.

Daqui duas ideias. Como podem os governos fustigar uma população por esta insistir em se endividar para viver acima das suas posses, por recurso ao crédito, (todos os dias ficamos a saber que os portugueses estão empenhados até às orelhas, com gráficos e quadros percentuais actualizados) quando são os próprios governos a dar o exemplo e comprar coisas para as quais sabem não ter dinheiro?

Como poderiam, porém, os governos obter capital para todas as suas "compras", sem treinar as populações para o medo do futuro, desta forma preparando-as para evitáveis contenções salariais e suspensões de direitos sociais adquiridos? Afinal, é aqui que se consegue o verdadeiro dinheiro; retirando pouco a muitos em vez de muito a poucos. Trata-se de uma extirpação que só pode justificar-se por uma conjuntura que - sofismas dos sofismas, falácia das falácias - vem "de fora" e é tenebrosa. Mas "de fora" fica exactamente onde? Se uma crise vem de fora, há-de vir "de dentro" de algum lugar.

É, por isso, sintomático ver como os políticos, a braços com obscuros trapezismos financeiros, se empenham tanto em repetir que atravessamos a mais difícil crise em muitas décadas, acreditando que, desta maneira, conseguirão escapar ao irreprimível juízo que a história fará, primeiro das suas práticas e, depois, da sua retórica.
publicado por Rui Correia às 17:16
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3 comentários:
De Co a 2 de Setembro de 2008 às 11:49
Também sempre te digo que mais vale isto do que andar no blog do fêjota a dizer bem de fadistas do jazz. Eça é que é essa.
De Rui a 1 de Setembro de 2008 às 13:08
Não sei se é assim, mas não havendo Vanessas nenhumas, sempre havia o Mouzinho de Albuquerque, as campanhas de África e a grande vitória sobre o Gungunhana, passeado pelas ruas vestido à ocidental. Alguma coisa tinha de se fazer...
De Co a 31 de Agosto de 2008 às 12:17
Ainda estamos na I República, portanto. Uns tempitos antes dela, aliás. D. Carlos saiu a caçar em Vila Viçosa. o Estado paga-lhe um conto de réis por dia. Afonso Costa bate-se à espada com um marquesito marialva qualquer. Alfredo da Silva já estuda maneira de pôr o capital de Burnay a render (para ele). Há muita dispepsia contemporânea de fome. Três em cada quatro homens não sabem ler. Seis em cada sete mulheres não sabem ler. As crianças piolham por tudo quanto é viela.
Mas, carago!, temos a Vanessa Fernandes, que é a menina da prata, e o Sócrates, que é o menino de ouro.

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