Sexta-feira, 19 de Setembro de 2008

overlap

O espectáculo televisivo "Quadratura do círculo" conheceu ontem um dos seus mais deploráveis episódios. Não é a primeira vez que sinto repulsa por estar a ver aquilo, quando há tanta caca de cão por pisar lá fora. Mas ontem foi por demais. A coisa conta-se brevemente assim: António Lobo Xavier e Pacheco Pereira a tentarem explicar por que razão duas pessoas do mesmo sexo não podem casar. Evidentemente, contrário que sou a esta posição, respeito absolutamente que se pense de forma diferente da minha, mas assuma-se uma e outra posição com argumentação exigente. Não é ocasião nem circunstância para boçalidades. Use-se fundamentação jurídica ou científica. Por exemplo, como aquela que a líder demiúrgica do PSD escolheu: o casamento entre homossexuais não permite a procriação, por isso não faz sentido deixá-los casar-se. É uma posição que ofende muita gente, como os casais inférteis que se casaram (como não têm filhos não se devia considerar que sejam realmente casados), mas é uma posição respeitável. É dita por alguém que pensa que o casamento serve para ter filhos. É tonto, é insensível, é irresponsável, mas é respeitável.

Pois aquilo que estes dois quadradinhos do círculo defendem é algo tão mais sofisticado como idiota. Para estas duas eminências parvas existe um indiscutível "overlap" entre quem defende a destituição absoluta do valor do casamento e os que advogam a sua extensão aos homossexuais. "O que é uma contradição" juntou logo o inefável Pacheco Pereira. E pronto. É apenas isto. Pelo que ali se arengou, a justificação para recusar o casamento aos homossexuais é o eles serem contra o casamento. Ou seja, para advogar a proibição do casamento tenta-se lançar a ideia que esta gente, os homossexuais, são precisamente aqueles que mais desprezam essa mesma e prestigiada (?) instituição. E é por isso que não devem casar. Significa portanto que, para estas duas luminárias, todos os homossexuais que pretendam casar-se, (partindo do princípio que há dois ou quatro que sinceramente o queiram fazer porque acreditam mesmo no casamento) não o devem fazer porque, simplesmente, todos os seus pares - os homossexuais que lutam por estender o casamento a casais do mesmo sexo - aquilo que realmente desejam é a destruição da instituição matrimonial. Ou seja, para os homossexuais, "overlapados", a melhor maneira de descredibilizar o casamento é quererem casar-se uns com os outros. Inenarrável.
Satisfeitíssimo por estar a ver posições tão coevamente medievais, António Costa despachou tudo aquilo com uma eloquente tomada de posição sobre o assunto. E ficou impecavelmente expressa. Um brilharete.

Vem isto também a talhe de foice para me referir à disciplina de voto que o PS pretendeu impor sobre este assunto. Que vergonha. Como pode um partido ter-se desviado tanto da matriz humana que lhe deu origem? "Teme-se uma rebelião dentro do PS", dizia hoje o Diário de Notícias. Uma rebelião dentro do PS é aquilo que o PS mais necessita. O que é o PS? O Fernando Ulrich dizia ontem que o importante é que o governo continue a fazer o que tem vindo a fazer. Um banqueiro socialista ou um socialismo de banqueiros. O overlap entre o PS e a direita é indisfarçável. As alternativas são deploráveis. Que futuro? O overlap entre o poder e a boçalidade parece consumado.
publicado por Rui Correia às 15:46
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2 comentários:
De Rui a 19 de Setembro de 2008 às 17:21
Eles "andem" aí... acredito sinceramente nisto. Quem vota em ti sou eu.
De man a 19 de Setembro de 2008 às 17:02
Concordo plenamente! Do príncipio ao fim. Voto em ti. Onde estão os que pensam como nós???

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