Sábado, 20 de Setembro de 2008

capas

Noite excelente a de ontem. Duas capas: a casa nova do FJ e o livro novo do Daniel apresentado na livraria K de livro, em Pombal. O novo espaço desta amável livraria é lindíssimo e está situado num cenário pombalino deslumbrante. O serão começou em sala cheia. O que lá se passou é para quem lá estava. Conto-vos, contudo, como acabou. A timidez venérea do Daniel impediu-nos de continuar uma conversa que começava a despontar. Achei muito singular que a conversa se encaminhasse tão de repente para o âmago daquilo que está ali escrito e não para o autor. Não costuma ser esse o percurso habitual.
O novo livro do Daniel Abrunheiro, "terminação do anjo" é um livro sobre a falência aparente da memória. Diz-se aparente apenas porque, sendo essa a sua provável essência, será essa também a sua inevitável realidade: ser ficcional ou ser (ficcio)nada. É aqui que permanece essa limpidez obscura da escrita do Daniel. Quem o lê sabe que isto não é nenhum oxímoro.

daniel03.jpg


Um dos seus leitores disse-lhe ali o que outro me havia dito semanas antes: que leu o livro duas vezes; que não é um livro fácil. A isto não se responde. Outro dos seus leitores acusou-o de o obrigar a recordar o que se esforça por esquecer. E que isso não se faz. E acusava-o pessoalmente. Não estava longe da verdade, mas falhava o alvo. Para lhe responder, Daniel escondeu-se, por simpatia, atrás do livro. A honestidade incólume da sua escrita não é o Daniel, homem incrivelmente falho, como todos nós, da honestidade que conseguimos saber ler, escrever e contar.
O episódio dramático de toda a memória é o momento em que é suficientemente lúcida e acordada para nos obrigar a saber que somos. "Eu sou" implica trabalhar essa verdade parturiente que, sendo natural, é também bíblica (Ecce homo), tão salvífica como dilacerante.
O "terminação de um anjo" é outro livro sobre a incomunicabilidade humana mas fá-lo pela interrogação da realidade da memória, que é algo que não lera antes. O livro é, como de costume num Daniel que, turista da sua vida real, se diverte em ser concludente, um compêndio da incerteza.

Na mesmíssima colecção - novos - onde Herberto Helder publicou o eterno "Passos em volta", a Portugália e a Sá da Costa, pela mão do editor José Antunes Ribeiro, ultimam o seu lançamento no Brasil. Estão felizes e de parabéns por esta síntese do que foi um dia o livro do Daniel, que durante meses a fio foi deitando folhas e folhas para o lixo. Sobrou este texto. Se não houvesse um prazo curto a cumprir, tê-las ia deitado todas fora, confessou; "Ainda que haja por ali uma ou duas páginas bem escritas."

daniel02.jpg


A casa do FJ é espectacular. E as pessoas que lá vivem dentro têm acabamentos de primeira.
publicado por Rui Correia às 14:45
link deste artigo | comentar | favorito
2 comentários:
De Rui a 22 de Setembro de 2008 às 09:05
"Nossa casa Deus a faça / Tão 'conchegada e tão bela / Que os anjos lhe chamem sua / de tanto gostarem dela"
De fj a 22 de Setembro de 2008 às 00:04
"Seja bem vindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também"

Comentar post

pesquisa

 

arquivo

nós

Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
31

t&d
t&d