Quarta-feira, 24 de Setembro de 2008

real

Foi com desvanecimento que recebi das mãos informadas da IS um documento subscrito por uma grande quantidade de professores de uma escola secundária de Vila Real, que, com firme e pública serenidade, se revela incapaz de proceder à aplicação de um sistema de avaliação de professores que, resumindo o que ali fundamentam, nada tem de rigoroso. Outras escolas a acompanham já neste desiderato. A minha escola fez a sua parte. Não apresentou lista para o CGT, um primeiro passo indispensável para a aplicação da reforma que o ministério viu, num belo e nono dia de Março, contradita por cem mil professores. Entrámos num impasse. Necessário. Indispensável.

Chega a ser inqualificável o que vai acontecendo em matéria de propostas para a presente avaliação de professores. Em verdade, aquilo que as escolas se preparam para aplicar, e que as mais desembaraçadas já se empenham em consumar, é um sistema que parece padecer de quase tudo o que há para padecer em matéria de avaliação. Existe muito por onde pegar. Tenho lido regularmente o que vai sendo publicado e legislado neste domínio e vou quotidianamente dissimulando um alheamento sobre esta matéria que me chega a ser aflitivo. Como digo, há muito por onde pegar, caso o queiram e muitos o têm feito de forma eloquente. Para mim, porém, a apoquentação maior resulta essencialmente do facto de se ter aceite com naturalidade que o processo possa avançar, assente sobre uma metodologia que privilegia a avaliação por pares. Isto parece-me inaudito. A ser concretizado, trata-se de um processo que isenta liminarmente uma avaliação por julgamento de qualidade. Mais claramente ainda, esta avaliação de professores não contempla qualquer distinção de qualidade entre avaliadores e avaliados. E isto revela um desnorte que ninguém parece pretender sequer abordar, quanto mais superar. Nem mesmo quem mais tem a perder com isso (vistas as coisas, acabam por ser as universidades).

Muitas vezes me foi cometida a responsabilidade de ser avaliador; de professores, de projectos, de programas, de orçamentos. Passei um ano inteiro a aplicar grelhas de observação de aulas. Por outro lado, fui avaliado montanhas de vezes. A minha carreira de aluno é muito mais longa do que a minha carreira de professor. Na minha vida já fui académica e pedagogicamente avaliado em numerosas circunstâncias. Fiz dezenas de exames e de seminários. As minhas aulas foram analisadas ao detalhe por equipas de professores. Depois disso, filmes de vídeo – em betamax – foram feitos para rever práticas, estimar dinâmicas, afinar técnicas e limpar a comunicação, corrigir ruídos didácticos e maneirismos inconvenientes. Depois disso, fui avaliado por gente crescentemente exigente e capaz; formalmente avaliado, que é disso que se trata aqui. Em todas essas ocasiões, fui avaliado porque o Estado reconhecia – e ainda reconhece - que a obtenção de diplomas académicos deve contribuir para a progressão na carreira. Sempre que me foi atribuído esse reconhecimento formal, o Estado dispôs-se a compensar-me. Pois, em nenhum desses momentos me ocorreria poder ser avaliado por quem se encontrasse em igualdade de circunstâncias comigo, fossem elas profissionais, científicas ou de outra natureza. Sempre que voluntariamente me sujeitei a um processo de avaliação, fi-lo com a convicção de me estar a submeter a uma ideia que, para mim, é tão simples como antiga: quem me avalia, tem de saber mais do que eu.

Quem me avaliou formalmente, para efeitos de progressão no contexto da minha carreira, foi sempre alguém que o fez por ter, ele próprio, superado um esforço e revelado um mérito semelhante ou, na maioria dos casos, superior ao meu. Quem me avaliou esteve sempre num patamar que, como avaliado, eu reconheci como um passo acima ou além do meu. Acima ou muito acima. Nunca me ocorreria que pudesse eu vir a avaliar alguém que estivesse academicamente para além de mim. A ideia pela qual um sistema de avaliação possa permitir que um doutorado com trinta anos seja avaliado por um bacharel com cinquenta é algo que não sei compreender. Pois é precisamente isto que está a legislar-se. A minha mãe dizia assim por vezes: "Já tem catarro a formiga". É isto que está, filosoficamente, a acontecer com esta reforma.

Compreendo que o leitor pense, por me não conhecer bem, que defendo uma estrutura rígida de avaliação, hierárquica, académica, por exames teóricos e práticos e observação de aulas por universitários que a isto se dedicam a vida toda. Têm toda a razão. É exactamente isso que defendo. Defendo isso, tanto para o ensino como para a justiça, para a saúde e para a renovação das cartas de condução. Defendo isso porque ser colonizado pelas teorias do anti-eduquês é tão nefasto como o seu oposto. E aquilo que está a nascer nas escolas é esta sorte de vigilantismo profissional que deixa que o poder seja deposto pelas circunstâncias nas mãos de pessoas que não sabem o que representa deter esse poder; vigilantes que, ou nunca mereceram esse poder, ou não o desejam, ou desejam-no pelas piores razões.

Um avaliador deve estar acima e além de um avaliado porque a avaliação serve apenas um propósito: fazer aprender; fazer com que se aprenda. Quem tem de poder ensinar é alguém que saiba mais do que o avaliado. E há maneiras de saber quem sabe mais. É para isso que existem as universidades que, na enormíssima reforma que precisam de fazer para se aproximarem das escolas, têm de se fazer escutar sobre este assunto e permanecem silentes, precisamente porque se julgam afastados da contenda. Como exemplo, veja-se o que noutros países se tem conseguido com as residências pedagógicas.

Não reconhecer que um avaliador deve estar acima e além de um avaliado, simplesmente por razão do seu esforço e mérito académico, é aceitar que a escola e a carreira de professor nada têm de académico. Isto é equívoco e perigoso. É equívoco, porque para umas coisas parecem servir os créditos e méritos académicos e para outras não. É perigoso, porque o despeito que existe contra os cientistas da educação faz-nos tremer de medo destas soluções. Julgar o todo pelas partes, porém, sempre me pareceu mau conselho. Estamos, por medos vários, a desclassificar cientificamente a carreira de professor. Medo do eduquês, medo das universidades, medo das classificações, medo da rejeição, medo da exposição, medo da autoridade, medo da arbitrariedade, medo do rigor. Medo. É por não terem estes medos, por causa da coragem, da modéstia e o brio que revelam que aplaudo os meus colegas da Escola Secundária de Vila Real.
publicado por Rui Correia às 16:47
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7 comentários:
De Paulo G. Trilho Prudencio a 25 de Setembro de 2008 às 00:26
:) o nome fica para...
De Rui a 25 de Setembro de 2008 às 00:21
... eh eh eh eu sabia... caíste que nem um patinho....
De Paulo G. Trilho Prudencio a 25 de Setembro de 2008 às 00:18
"Juntamente com outras historicamente importantes que o governo Sócrates lanço". Quais? Assim de repente :)
De Rui a 25 de Setembro de 2008 às 00:05
Obrigado, Paulo. A formação contínua é um dos pontos mais indispensáveis. é por aí que se deveria ter avançado. Essa deveria constituir a frente de batalha. Juntamente com outras historicamente importantes que o governo Sócrates lançou.
De Paulo G. Trilho Prudencio a 24 de Setembro de 2008 às 23:36
Acabei de postar isto no meu blogue e faço-o também aqui:

É mesmo isso. Acabei agora de passar pelo postal e li o real. Tenho um post escrito que será publicado dentro de dias - senão fico sem matéria e isto cansa - que tem como título: "e no princípio de tudo..." Partilho da maioria das questões que ali colocas, e ainda hoje, na escola, referi um dos principais embustes deste monstro: a credibilidade dos avaliadores e essa coisa dos titulares. E quando digo a maioria das questões, digo, apenas, o mesmo mas de outro modo: a formação contínua de professores em Portugal nunca existiu: não existe a mais ténue ligação das universidades ao que se faz todos os dias nas escolas. Por outro lado, desvalorizámos, desde sempre, o exercício de funções nas escolas: lembro-me de, ainda jovem, ser colocado numa escola e ser o delegado de grupo: tinham deixado o cargo para o último horário. Tudo isto misturado com as formações acrescidas sem rumo e sem critério, descredibilizou as 2 coisas: há gente com muito cargos exercidos que ninguém considera e há gente cheia de formações acrescidas, que se entreteve a receber o salário e a dar péssimos exemplos de profissionalismo, que também é desconsiderado. Resultado: há milhões de vozes que contestam os critérios que levou alguns a serem titulares e não ouves uma única voz em defesa dos critérios do concurso. Como ultrapassar isto? Tenho algumas ideias mas o percurso tem tanto de longo como de metas inantigíveis. Pessimismo? Sei lá. Abraço.
De Rui a 24 de Setembro de 2008 às 22:43
Tu, mais do que ninguém, sabe o que passámos em matéria de concepção, aplicação e revisão de grelhas de observação e avaliação dia a dia e análises duras e cruas das aulas de cada um de nós. Tu passaste pelo mesmo. Fico mesmo muito contente por teres passado por aqui e comentado. bjinhos
De man a 24 de Setembro de 2008 às 21:33
Como concordo! Há os do medo, os que adivinham as ideias ministeriais e avançam, quais herois...os tristes que viram a grande oportunidade da vingança ou do exercício de um poderzinho sempre tão apetecido. Eu também fui formada, criada, ensinada que a avaliação só é séria e digna se o avaliado respeitar ou pelo menos reconhecer o mérito do avaliador..o processo em que estamos a embarcar de tão ridiculo, parece uma caricatura. Será que estas reflexões não chegam à "sociedade civil"? Os grandes analistas da praça não percebem a gravidade deste processo a longo prazo? Continuaremos a hipotecar o futuro e a desmoralizar os realmente bons.

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