Domingo, 5 de Outubro de 2008

sixpack

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Nutro pelos Estados Unidos da América um fascínio vitalício. Quase toda a minha vida andou colonizada por aquela civilização, seja na sua música - expressão maior da sua cultura - o seu cinema, o seu humor, o seu empreeendedorismo e, mais tarde na minha vida, uma literatura que tem valores e nomes maiores que a Europa se vai esforçando por menorizar, (sem grande sucesso, acrescente-se). Do que conheço deste impossível país, sobretudo do que lhe conheço em primeira-mão, aquilo que sempre me seduz mais é afinal aquilo que sempre me seduz nas pessoas: a sua incólume e inadiável falibilidade. A sua inconsequência. As fundas contradições em que vive. Existe nisto uma humanidade que me atrai. Rejeito sempre que me falem dos “americanos” por não saber o que possa isso ser, tal é a dissemelhança que define a essência daquele povo. Daqueles povos, mais exactamente. Como os outros, enfim.

Sigo a sua política. Ela determina, ninguém o nega, os parâmetros por que se regem todas as outras políticas. Quase todas vogam ao sabor do vento americano. Sabemos bem o efeito que tem na conjuntura mundial ter este em vez daquele fulano na sala oval. Ninguém, por exemplo, discordará que, se Al Gore tivesse ganho as eleições na Florida, o mundo não seria hoje o que o mundo hoje é. Sigo, por isso, com a atenção costumeira, as eleições americanas para a presidência. Tenho gravado o discurso de aceitação da candidatura de Barack Obama por ser simplesmente uma pérola de escrita, pleno de inteligência e de realidade. Uma das contradições habituais em que se afunda a política americana e que, de quando em quando, lá se desvanece, regressou nestas eleições em plena força: a alegoria do cidadão comum.

A coisa explica-se rapidamente assim: num momento infame da nossa história em que a mais indigna corrupção banqueira é coberta por dinheiro rapinado aos impostos do cidadão comum, volta a ser necessário recorrer à parábola do cidadão comum e passar-lhe a mão pelo pêlo. Sobretudo para que se cale. E funciona.
É ver, pois, como os discursos republicanos se esforçam por contentar o palerma classe média dizendo que é nele que os políticos devem pensar. A nefanda mas exorcizada Sarah Palin, cuja escolha acabou com a simpatia antiga que eu nutria por John McCain, refere-se com uma veemência sexy às “Soccer moms” e aos “six pack Joes” para dizer que está do seu lado. As mães que levam os filhos aos treinos de futebol e o Zé que compra pacotes de seis latas de cerveja, pretendem-se afirmar como os alter-egos dos próprios candidatos. Ela é a soccer mom e ele o six-pack Joe, que são aqueles, justamente, que a demoníaca Washington despreza. Esta é a alegoria. Mas, no entanto, os seus discursos insistem na necessidade de uma liderança excepcionalmente capaz. Sobretudo agora. Com a crise. Geórgia, Rússia, Coreia do Norte, Iraque, Irão, China.

Entendamo-nos. A liderança é algo que impõe qualidades singulares e excepcionais. Não é para todos. O trabalho de equipa, que é o que toda a liderança contemporânea prescreve, não é para todos. Não é para o Joe. Todo o poder é elitista.

Platão dizia na sua República que, em alvenaria, em assentamento de tijolos o justo não é mais útil do que o pedreiro. E com isto não queria dizer outra coisa que não fosse outra que o povo conhece melhor: cada macaco no seu galho.
publicado por Rui Correia às 15:37
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