Segunda-feira, 6 de Outubro de 2008

grande

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Já andava há um tempo para vo-lo dizer. Comecei por escolher um ou dois passos deste livro só para vos dar a perceber que se trata de uma pérola de incisão equilibrada e culta sobre religião. Ainda escrevi dois ou três momentos mais anedóticos, intelectuais, do livro. Foram estes: que Mark Twain chamava “clorofórmio impresso” ao Novo Testamento; que Thomas Hobbes, o do Leviathan, que dominava as Sagradas Escrituras como ninguém no seu tempo, concluiu que, se Adão foi condenado à morte por pecar, a sua morte deve ter sido adiada, uma vez que ele conseguiu criar uma grande prole antes de morrer realmente. Ou ainda, sobre os ateus “Não estamos imunes à tentação da admiração, do mistério e da reverência: temos música, arte e literatura e constatamos que os dilemas éticos sérios são mais bem tratados por Shakespeare, Tolstoi, Schiller, Dostoievski e George Eliot do que nas histórias morais míticas dos livros sagrados (…) Não acreditamos no céu ou no inferno, e, no entanto, nenhuma estatística demonstrará jamais que sem essas lisonjas e ameaças cometemos mais crimes de ganância e violência do que os fiéis.” E por aí fora. Não merece a pena continuar.

O livro é pleno de importância para quem quiser reflectir com equilíbrio e higiene sobre o fenómeno religioso; trata-se de uma investigação feita por alguém seriamente enciclopédico. Para um humanista laico como eu, prosa como esta é pura água. O livro chama-se “God is not great – how religion poisons everything”. Devo dizer que hesitei muito por pensar que se trataria de um livro panfletário e excessivo. Mas depois fui lendo e vi que não. Não é. É implacável mas comedidíssimo. “Deus não é grande” é uma jóia ensaística escrito para gente ilustrada. Saiu em Outubro de 2007 em Portugal apenas a uns meses da sua primeira edição internacional. Quem espere um tratado académico sairá desapontado. Não é um livro para sempre, mas é uma obra para os dias de hoje. Isso é. E lê-se esplendidamente.

Enfim, está publicado e vale muito perder-se dois dias a ler. Para ter tempo a digerir tanta informação valiosa. Não resisto e tiro mais um exemplo ao acaso para que se perceba a importância de ler este livro da Dom Quixote da autoria de Christopher Hitchens. (Hitchens é um jornalista que acolheu Salman Rushdie em sua casa após a fatwa e fez férias com Sebastião Salgado). Aí vai. “Na minha vida recente em Washington, fui bombardeado com telefonemas obscenos e ameaçadores de muçulmanos que prometiam castigar-me e à minha família por eu não apoiar uma campanha de mentiras, ódio e violência contra a Dinamarca democrática. Mas quando a minha mulher deixou acidentalmente uma soma avultada de dinheiro no banco de trás de um táxi, o motorista sudanês teve muito trabalho e despesas para descobrir a quem pertencia e para ir até minha casa entregá-lo intacto. Quando cometi o erro grosseiro de lhe oferecer 10 por cento do dinheiro, ele deixou perfeitamente claro que não esperava nenhuma recompensa por cumprir o seu dever islâmico. Qual destas duas versões de fé será a mais confiável?”. A não perder.
publicado por Rui Correia às 18:17
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