Quarta-feira, 26 de Novembro de 2008

invisível

Tive hoje pela terceira vez na minha carreira uma aluna doente que assistiu à minha aula a partir de casa. Utilizámos desta vez o velhinho Skype que funcionou sem quaisquer sobressaltos, como lhe é costumeiro. Como tenho o hábito de disponibilizar online todos os apontamentos e apresentações electrónicas de todas as minhas aulas, a aluna disse-me no final que lhe fora muitíssimo simples seguir toda a matéria durante aqueles 90 minutos. Aliás, como não tinha requisitado um vídeo projector não pude mostrar à turma um mapa das invasões francesas que corrigisse o do livro que está completamente errado. A minha aluna saiu favorecida porque a ela pude enviar-lhe o link para esse mapa, que ela imediatamente espreitou. Ou seja, ficou hoje mais uma vez demonstrado que posso oferecer aos meus alunos um novo serviço: o de assistirem às aulas mesmo quando estão impossibilitados de sair. Importa aqui referir que a proposta de o fazer desta maneira foi minha, mas apenas depois de me ter sido explicada a intenção que a aluna manifestara à mãe de não perder a minha aula, (o que revela um interesse que deveria ser indemnizado).
Outra coisa que ficou hoje bem demonstrada é que a utilização destas coisas requer cada vez menos afazeres e tecnologia. Tudo isto se fez com a mais económica das simplicidades e demorou-me 15 minutos desde o download da aplicação para a aluna – que nunca tinha mexido com o Skype – até estarmos em plena aula. Que diferença tecnológica abissal separou esta experiência de hoje em relação aos casos semelhantes de anos anteriores.

Isto é que é importante e crucial mas não é o que me apetece agora sublinhar. O que é igualmente interessante nisto é que eu não esclareci a turma que a Isabel estava connosco a partir de casa. Ou seja, durante uns bons dez minutos apenas eu sabia que a Isabel, numa espécie de espionagem escolar, assistia remotamente à nossa aula. Nada por isso alterou o clima e o ambiente pedagógico da minha sala de aula. Tudo “business as usual”. E foi esta presença invisível da aluna que chamou a minha atenção. Até que eu explicasse, para regozijo da turma, que a sua coleguinha estava afinal connosco nenhum elemento da aula sofreu a mais pequenina variação. Estava eu, portanto, a explicar as lutas entre miguelistas e liberais quando me ocorreu que esta pode muito bem servir como estratégia de observação de aulas para efeitos de avaliação de professores. É sabido que um dos maiores problemas da observação de aulas é toda a perturbação que se gera com a presença de elementos estranhos dentro da sala (um defeito irreprimível que me impede visceralmente de encarar a observação de aulas com um elemento profissional e sóbrio de ponderação docimológica). Mas, enfim, hoje aprendi como, na prática, esse gigantesco estorvo pode ser, nestes dias que atravessamos, eliminado. Evidentemente, isto tem defeitos de monta: perde-se quase tudo o que é o clima humano da sala de aula, mas esse ambiente humano é também profundamente falsificado com a presença de gente alheia ali dentro. Nesse sentido, uma inconveniência não anula a outra mas podem ambas restringir-se. Para efeitos de validação científica da informação ministrada, esta constitui uma estratégia que, além do mais, evita a deslocação de um avaliador à sala de aula. Pode fazê-lo em sua casa. Mais: pode partilhar essa observação com colegas de disciplina, com vista a uma análise partilhada, formativa, regular e consequente, que é o que eu penso que toda a avaliação deve ser. Seria, em resumo, instruído que um avaliador sugerisse esta modalidade de observação de aulas aos seus avaliados, como um serviço semelhante àquele que eu disponibilizo agora também aos meus alunos.

PS. Dito isto, espero agora que não me tomem por um parvo chileno qualquer que considera que, para efeitos de progressão na carreira, as aulas dos avaliados devem ser filmadas para qualquer espécie de memória futura. Apenas quis, como gosto, partilhar convosco uma simplória alegria profissional. Mais uma.
publicado por Rui Correia às 14:55
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5 comentários:
De Tito de Morais a 11 de Janeiro de 2009 às 14:29
Vivam!

Hoje li isto que pode interessar aos que leram este post:
- Como utilizar o Skype na sala de aulas
http://blogdaformacao.wordpress.com/2009/01/10/como-utilizar-o-skype-na-sala-de-aulas/

Abraços

Tito
De Rui aka 852514 a 27 de Novembro de 2008 às 16:32
Obrigado Mota pelos teus comentários. Sim, a minha aluna é interessada e diligente. O "cenário" como dizes, nem chega a ser montado. Decidi colocar a minha câmara apontada para o quadro onde aqui e ali rabisco uma ou outra coisa. A ideia de colocar um video projector é-me menos atraente uma vez que isso importaria para a aula um elemento de desvio da atenção que eu não saberia como contornar. A aluna disse-me que escutou tudo com clareza e julgo que terei falado suficientemente alto para que ela não tivesse problemas em me ouvir. E não paro quieto quando dou aulas. Quanto à avaliação entende-me bem, a mim que nem acredito na observação de aulas, presumo que isto poderia constituitr uma alternativa profissional e discreta - para os alunos - de evitar a presença física de elementos estranhos à aula, cuja intrusão adultera a realidade permanente do clima didáctico que ali se vive nos outros dias. Apenas isso. Mas isso pressupõe uma condição ainda mais distante e - reconheço-o com mágoa - a distanciar-se mais ainda: a ideia pela qual toda a avaliação de aulas deve ser uma reflexão prática e partilhada com quem nos possa ajudar a corrigir ruídos didácticos, rectificar soluções menos conseguidas e reforçar pontos fortes da prática estritamente lectiva.
De josemota a 27 de Novembro de 2008 às 12:13
O 823191 sou eu LOL. Será que estou já a antecipar o projecto para a educação na próxima legislatura, caso esta equipa ou o seu espírito continuem lá pelo Monstro? Atribuir um número a cada funcionário ensinante para ser mais fácil processar os dados?
De josemota a 27 de Novembro de 2008 às 12:12
O 823191 sou eu LOL. Será que estou já a antecipar o projecto para a educação na próxima legislatura, caso esta equipa ou o seu espírito continuem lá pelo Monstro? Atribuir um número a cada funcionário ensinante para ser mais fácil processar os dados?
De 823191 a 27 de Novembro de 2008 às 12:09
Bom, em primeiro lugar tens uma aluna muito interessante e tu, como sempre, não te ensaias nada em arriscar coisas novas :-). Questão prática: como é que montas o cenário? A câmara apanha-te fixo na zona tradicional do prof. ou apanha toda a sala (prof. e alunos)? Capta o que dizes se te movimentares? Consegue captar o que dizem os alunos? Com um vídeoprojector é fantástico, porque a aluna até pode participar na aula, escrevendo comentários ou fazendo perguntas (com ligação e equipamento de boa qualidade até poderia fazê-lo oralmente). Certo que no princípio deve causar uma certa desconcentração na aula, mas com o hábito torna-se natural, penso.

Para a avaliação, mmm... por mim acho bem, mas já estou a ouvir a gritaria lol e a antecipar alguns usos mais perversos que certas pessoas logo vão achar muito interessantes :-).

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