Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

nada

Procurei, procurei e nada. Da leitura do decreto que regulamenta o regime transitório de avaliação do pessoal docente nada há que explicite mesmo que ao de leve aquela que é a mais importante dimensão de toda a avaliação: melhorar.

Na formulação dos “três pilares” deste sistema (uma avaliação interna, uma avaliação integral e uma avaliação com consequências) afirma-se com ênfase que se pretende que esta avaliação tenha consequências. As que resultam para a progressão na carreira são as mais fáceis de distinguir e vêem-se ao longe. Mas quando ali se diz que esta avaliação tem consequências “no aspecto formativo”, nem uma letra. Nada. Não há a menor preocupação em auxiliar um professor em dificuldades. Nada. Nada há de formativo neste sistema. E este sistema quase só deveria contemplar programas ou planos de sustentabilidade da qualidade do ensino.

A formação aparentemente continua a ser feita nos mesmos moldes. Aí não se mexe nada. Muda-se o mapa geográfico das competências dos centros de formação e respectivas áreas de jurisdição e nada mais. Tudo se mantém. As críticas apontadas ao sistema de nada resultaram, algumas delas que serviram de fundamento a esta reforma (os professores não são avaliados e o sistema de formação contínua de professores é descredibilizado). A acreditação das acções continuará a ser feita nos mesmos moldes, ainda que certamente com nova periferia política, requisitos administrativos e contenções orçamentais. A ofensa é tal que se chega a dizer no “guia” que apresentaram às escolas que antigamente a inexistência fazia com que todos tivessem a mesma classificação mas (e atenção que aqui é que o ultraje é completo “provavelmente uma classificação superior”. O “provavelmente” é ignóbil.

Despreza-se totalmente a democraticidade na gestão escolar. Se os instrumentos não são aprovados pelo Conselho Pedagógico então o director promulga-os.

O decreto sustenta uma mentira abjecta. Cria-se uma base de dados nacional para que os avaliados indiquem um máximo de 6 objectivos (isto para esta gente é que é “simplificar”) e os inscrevam numa base de dados centralizada. Para quê? Para que na SUA escola o SEU avaliador os possa conhecer. A descentralização funciona desta forma. Se eu quiser apresentar-te os meus objectivos em vez de falar contigo e apresentar-tos irei colocá-los online. Nada mais inútil e despesista.

Os presidentes dos Conselhos Executivos são aqui ameaçados como nunca me lembro de o terem sido. A sua avaliação é direitamente feita pelo Director regional de Educação. Compreendo agora por que andam eles tão nervositos. Vejamos de que são eles feitos. Estamos num momento revelador.

Finalmente, para responder às dificuldades várias criadas pelo próprio ME, assistimos à instituição do “grupo de recrutamento” como forma de suportar a avaliação por pessoas de diferentes áreas disciplinares e científicas. Ou seja, trata-se de mais uma forma de assegurar que os avaliados serão sempre avaliados por alguém do seu “grupo de recrutamento” e não da sua área científica. Os recursos trariam sempre esta desvantagem.
Parece haver uma plena obcecação em aplicar ex-nihilo o princípio instituído do “less and better State”. Princípio que é tão oco que chega a ser insignificante que alguém o defenda. Mas acontece é que a leitura que se faz do princípio é que é sempre o que realmente releva para a vida das pessoas.

O conceito de autonomia que é concebido pelo ministério da educação decorre do princípio da irresponsabilização da autoridade do Estado. Por um lado, assegura que ao ministério continuarão a chegar todos os dados informatizados para levar a cabo os seus projectos. Pelo outro, despeja nas escolas tudo aquilo que há de verdadeiramente instrumental e operativo para que esses dados possam ser operacionalizados. E isto é viver de princípios. Sem meios, nem fim.
publicado por Rui Correia às 14:54
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4 comentários:
De Rui a 28 de Janeiro de 2009 às 17:29
O meu braço direito anda maior: tenho um berbequim logo a seguir aos dedos. Ando a recuperar uma casa e a coisa dá-me pano para mangas, ou melhor, parafusos para berbequins. Já devo ter feito umas belas dezenas de furos. Tudo muito pouco reflexivo, é certo, mas quem me conhece sabe que gosto muitíssimo destas coisas. Sou um bricoleiro como diz um ex-aluno meu que trabalha no Bricomarché local (que às vezes parece a minha segunda casa. Terceira.)
De Fernando a 27 de Janeiro de 2009 às 22:49
Ora, gaita! Roubaram-me a piada! Ia escrever que venho aqui todos os dias e nada! Assim, amuo e já não escrevo, olha, prontos!
De Tito de Morais a 27 de Janeiro de 2009 às 22:40
"Nada" digo eu desde 13 de Janeiro! :)

Tudo bem contigo?

Abraço
Tito
De Paulo G. Trilho Prudencio a 13 de Janeiro de 2009 às 19:47
Uma boa análise feita a partir dos ângulos "esquecidos" :) [] paulo.

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