Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

premUnição

Já na minha vida testemunhei muitas vezes a sofreguidão com que as câmaras municipais procuram atrair para as suas iniciativas o maior número de crianças para lhes conferir um "ar composto". Inaugurações, espectáculos, visitas de individualidades proeminentes etc., são sempre momentos de grande ansiedade autárquica. Quando é preciso encher cadeiras ou ruas, as escolas são continuamente "convidadas" a salvar as iniciativas camarárias que, por uma razão ou outra, se prevê não virem a atrair moldura humana adequada. Encara-se as escolas, as crianças, como uma espécie de munição de reserva.

Os carnavais portugueses são um destes exemplos. Por um motivo que me é alheio as câmaras portuguesas dão muita importância ao Carnaval. Desfiles de crianças coloridas e divertidas, de mão dada com os seus educadores e professores pelas ruas da cidade são sempre um espectáculo rejuvenescedor. Popular e populoso; também os parentes das crianças aparecem para ver os seus filhos ataviados com as fantasias que ajudaram a vestir. Confesso sem grande embaraço que este conceito de corso sempre me pareceu idiota; mas confesso também que sempre que vi um destes desfiles achei sempre motivos para sorrir com gosto.

Por isso é que percebo o pânico das autoridades municipais de Paredes de Coura ao fazerem queixa à DREN, usando a associação de pais como um ariete interno: o pânico de não haver nada este ano que se visse; sem crianças na rua, de que serve o Carnaval? O célebre carnaval de Paredes de Coura(!).

Constitui este caso uma convincente ilustração do que pode vir a tornar-se o papel das associações de pais na vida das escolas. Incumbidas não apenas de eleger os dirigentes escolares, mas de contrariar mesmo, como se viu neste episódio, as decisões intrinsecamente pedagógicas dos professores, facilmente se antevê o contexto lamentável que a legislação recente sobre gestão escolar permitirá configurar, nomeadamente na irreprimível manipulação das associações de pais para, acto contínuo, conseguir uma conveniente instrumentalização das escolas.

Munição por munição, professores e pais, cumpre que estejamos todos muito atentos.
publicado por Rui Correia às 20:54
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2 comentários:
De Rui a 21 de Fevereiro de 2009 às 23:20
"era bom que pensassem em qualquer coisa que de facto divirta as crianças". Lapidar. Se alguém sabe do que fala és tu. Obrigado por comentares.
De Isabel a 21 de Fevereiro de 2009 às 14:52

E é assim em todo o lado: "A escola faz", edita-se o boletim camarário e lá aparece "A câmara fez".
Não interessa nada se os miúdos se divertem ou não.
Já me aconteceu ter pequeninos a chorar com a pergunta: "Falta muito para irmos embora?"
A partir daí deixei de dar para este peditório.
Os pais e avós, se quiserem fotografias, venham à escola e aí sim, poderão ver crianças divertidas, a saltar, a brincar, a fazerem aquilo que agora não lhes é permitido, pois são "alunos" a tempo inteiro.
Quanto à câmara,era bom que pensassem em qualquer coisa que de facto divirta as crianças, e não tão só os adultos que, de máquina em punho dão uma escapadela dos seus empregos( para isto já podem deixar o trabalho)par registarem o momento de enfado dos seus filhotes e netos.
Bjo

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