Domingo, 22 de Fevereiro de 2009

Wüstenfuchs

Rommel.jpg

Muito útil o artigo de Pedro Mexia no Público de 21 de Fevereiro sobre Erwin Rommel. Partilho com ele o fascínio pela "Wüstenfuchs" (raposa do deserto), também oriundo das muitas centenas de bonecos da segunda guerra mundial que coleccionei e que me entregaram um conhecimento minucioso daquele conflito que nenhuma escola me poderia proporcionar. Sei hoje tudo sobre uniformes e batalhões por causa das monumentais batalhas que, com os meus amigos, preenchiam dezenas de metros quadrados com tanques, rios, florestas (feitas de cones que rapinávamos numa fábrica próxima de fios têxteis). Duravam horas. Dava tanto trabalho instalar as tropas que deixávamos aquilo tudo montado enquanto íamos almoçar, para depois regressar ao trabalho, à frente de batalha. Nunca nos tiraram um único boneco. Outros tempos.
Tinha predilecção por dois tipos de batalhas: australianos contra japoneses e o oitavo exército contra o Afrika Korps. Mais tarde apaixonei-me pelos russos contra os paraquedistas alemães, mas nessa altura já sorvia livros que ainda tenho (As grandes batalhas da Segunda Guerra Mundial, de B.P. Boschesi, Ulisseia).

Quando há uns anos escrevi um livrinho para a Porto Editora sobre o século XX, voltei a estudar a segunda guerra mundial de forma mais cuidada. Rommel voltou ao meu convívio, nomeadamente para descobrir que tinha sido ele o grande organizador da muralha do Atlântico, esse projecto quimérico de fortificar toda a costa ocidental do centro europeu. Depois da derrota de El Alamein, Rommel é convocado por Hitler para elaborar a carta estratégica de defesa da Europa. A Atlantik Wall surge nessa altura, porque Rommel sabe que é por ali que os Aliados tentarão penetrar as linhas alemãs. Tudo bateu certo. Veja-se até que ponto: Rommel mandou cravar milhares de estacas de aço no solo para impedir a aterragem de planadores. Esta visão antecipadora e presciente de Rommel seduz todos os que, como eu, sentem este frívolo e infantil enamoramento pela segunda guerra mundial.

Pessoalmente, Rommel tinha um segredo só recentemente descoberto. Tinha duas famílias. Rommel havia tido uma filha secreta de uma namorada adolescente (Gertrude Pan). Quando casou, a mãe da sua primeira filha suicidou-se. Manteve este segredo durante décadas.

A figura de Rommel surge, contudo, como um nobre no meio da barbárie. As suas decisões preenchem os manuais militares. Enquanto escrevo isto, muitos são os alunos que estudam as suas ordens, velhas de 60 anos. Rommel era um militar na mais estrita acepção da palavra. Um extraordinário estratega que, depois do cerco de Tobruk, levou a que Churchill demitisse Auchinleck e entregasse o Eighth Army a Bernard Montgomery que, final e felizmente, derrotaria Rommel na segunda batalha de El Alamein. Depois disso, Montgomery passou a ter um cão chamado Rommel.

A predominância do seu carácter militar sobre o de político, que as circunstâncias lhe impunham que também fosse, obrigou-o a desprezar as ínfimas qualidades de estratega do seu Führer; germanicamente distante da aristocracia alemã que, por sua vez, lhe devolvia o desdém, Rommel nunca participou de nenhum complot contra Hitler - ao contrário do que Churchill afirmaria. Mas é impossível que desconhecesse as conspirações. Afinal, Rommel era conhecido por não obedecer a muitas ordens de Berlim, uma das quais a perseguição a judeus. O Afrika Korps não foi acusado de um único crime de guerra. Rommel foi, não obstante, acusado de conspirar contra o Führer e suicidou-se com cianeto para evitar um julgamento desonroso e previsíveis perseguições sobre a sua família.

Aquando da sua morte, Churchill declararia:

"He also deserves our respect, because, although a loyal German soldier, he came to hate Hitler and all his works, and took part in the conspiracy to rescue Germany by displacing the maniac and tyrant. For this, he paid the forfeit of his life."

Conheço muito bem o boneco de plástico caqui a que se refere Pedro Mexia na sua coluna de jornal; espreitava por uns binóculos, ininterruptamente. Rommel era isso: um visionário que encarava a guerra como um jogo de vidas e que precisava de ser sempre resolvido com inteligência e visão, rapidez e furor; um jogo restrito a militares.

Nesse sentido, Rommel tornar-se-ia um dos pais da guerra contemporânea e uma figura irresistivelmente fascinante, razão pela qual ele é o único membro do Terceiro Reich a ter um museu em sua homenagem. No Egipto, em Marsa Matrouh.
publicado por Rui Correia às 14:45
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2 comentários:
De Rui a 22 de Fevereiro de 2009 às 19:39
É... a nossa geração já não teve a oportunidade de se envenenar com bonecos de chumbo. Eu tive uns vinte ou trinta mas nada de estimulantemente tóxico. Aliás, se as minhas centenas de bonecos fossem de chumbo hoje tinha uns biceps de invejar.
De Tito de Morais a 22 de Fevereiro de 2009 às 19:04
Boas!

Há coisas que nos apaixonam... eu também sou um tolinho por coisas da WWII... que saudades daquela série documental - julgo que da BBC - que passava na RTP ao final das tardes de sábado!
E obrigado por me recordares das colecções e das batalhas dos soldadinhos... não de chumbo, mas de plástico! :)

Abraço

Tito de Morais

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