Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

pontaria

courbet002.jpg

A paginação de livros, jornais, revistas, brochuras - em papel ou online - é um ofício artesanal difícil, demorado, solitário, de gigantíssimo valor didáctico e propagandístico, subtil, a que me dedico há muitos anos e que muito me atrai pelo que tem de tão explicitamente semântico.
Compro demasiadas revistas com que procuro aprender as novas correntes neste domínio. Revistas como a Esquire, que me ensinaram quase tudo o que importa sobre romper as margens fixas do papel, mas também algumas experiências do modernismo do início do século que volatilizaram tudo o que havia a experimentar.
E vem a pintura ao encontro desta prosa para aplaudir a decisão frontal dos paginadores do Público que, na edição de hoje, impõem a obra de Courbet ao olhar do leitor em dimensões pedagógicas e generosas de duas páginas.

O que é estupendo é que se renova assim o mesmíssimo clamor original - oculto ou culto - que teve a apresentação pública deste quadro em 1866.

Veja-se aqui a forma como o reconhecidamente "púdico" Correio da Manhã integra a fotografia no seu site:

cmcourbet.jpg

Alguém andou milimetricamente a recortar uma fotografia. Este pudor é que é, por tão ignorante, sinistro. Por isso vos falo de paginação. E de semântica.

Há muito ainda por fazer, realmente. Acrescento que esta pode constituir-se numa óptima oportunidade para que o Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna repense currículos. É nisto que dá quando se menospreza as Humanidades nos planos de estudos.

Fui ver e a realidade, ajudada por uma máquina de calcular, é eloquente: o plano de estudos do Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna tem 4060 horas, sem contar com o estágio. Para os estudos culturais estritamente percebidos são reservadas 60 horas, no terceiro ano (História da Cultura Portuguesa). A cadeira é leccionada pelo professor doutor Artur Anselmo, autor da obra "Livros e mentalidades"; o senhor professor foi durante muitos anos director do Centro Helen Keller.

Catherine Breillat, cineasta e autora do livro, é uma conhecida activista feminista. Mesmo que esqueçamos a questão cultural que subjaz a isto tudo, preocupa-me sobretudo que a polícia tenha tanta falta de pontaria.

(Suspeito, cá para mim, que o mais grave disto tudo é que se um castigo exemplar forçasse os polícias a ler o público de hoje, páginas 4 e 5, eles até iam achar o tempo por bem empregue).
publicado por Rui Correia às 13:15
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