Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

estudo

Cena: Segunda-feira, redacção do Diário de Notícias.

João Marcelino: Ó Ferreira, o pessoal da edição disse-me que ainda não lhes mandaste o teu texto de opinião prámanhã.
Ferreira Fernandes: Eh, pá, tens razão, pá; esqueci-me, carago. Este fim de semana foi tramado, pá...
João Marcelino: Vá lá, despacha-te lá, rabisca aí 200 palavras.
Ferreira Fernandes: Então e queres que fale de quê?
João Marcelino: Sei lá, vai à net.

Ontem, o jornal Público contou a revolução que é haver, nas escolas secundárias, director em vez do Conselho Executivo, colectivo e vago. O jornal foi a uma escola e descreve a entrada do gabinete do novo director: "A placa na porta continua a anunciar 'Conselho Executivo', e não é por acaso." O novo director explicou esse não acaso: "A palavra 'director' tem um peso histórico que perturba as pessoas." Temos assim uma revolução que, para não perturbar, pára à porta. No ano passado, a revista brasileira Veja entrevistou a secretária de Estado da Educação de São Paulo, Maria Helena Castro (sob a alçada dela, 250 mil professores, cinco milhões de alunos). Ela fez um estudo e encontrou "um factor comum a todas as escolas de nota 10 [as melhores]": "Trata-se da presença de um director competente, com atributos de liderança semelhantes aos de qualquer chefe numa grande empresa. Sob a sua batuta, os professores trabalham estimulados e os alunos desfrutam de um clima positivo para o aprendizado. Se tais directores fossem a maioria, o ensino público não estaria tão mal das pernas. Enfim, directores assumidos na placa da porta e para lá da porta.

Jornalismo do bom, de investigação é isto. Ditada por um homem cuja "vida foi toda determinada por não deixar de ter opinião".


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E agora, algo completamente diferente, que este Ferreira Fernandes é renascentista nos seus estudos. Os sublinhados são - ai não que não são - nossos.

"Sou benfiquista e estou incomodado. Envergonho-me pelos favorecimentos ilegítimos que, esta época, o Benfica tem tido. Sendo benfiquista, não posso dizê-lo? Não importa, digo-o na mesma. Era o que faltava, prescindir do meu direito de falar sobre o futebol, quando a minha vida foi toda determinada por não deixar de ter opinião.

Sou benfiquista como podia não sê-lo. Digo-o porque, ouvindo alguns, parece que ser de um clube aconteceu-lhes como a escolha de S. Paulo, na estrada de Damasco. Comigo, não. Deus não me apareceu, apontando a águia. Eu poderia ter sido do Porto, porque meu pai o era – a herança é um motivo nobre para se ser de um clube. Poderia ter sido do Sporting, porque a maioria dos da minha terra, da geração que me formou, o era – adesão devida, julgo, ao nosso conterrâneo Peyroteo, o primeiro futebolista angolano a singrar. A melhor das explicações que conheço para se começar a ser de um clube é dada por Miguel Sousa Tavares.
Ele dá mais razões mas gosto desta: por o FC Porto ter a camisola mais bonita do Mundo. Eu tornei-me do Benfica pela mesmíssima razão: por um acaso qualquer.

Depois de me ter acontecido, por razões inexplicáveis, ser benfiquista, sucederam coisas com mais fundamento: sou do Benfica porque não sou ingrato. Adolescente nos anos 60, eu era do Benfica pela mesma razão que um garoto da cidadezinha de Hoboken, nos anos 40, era fã de Frank Sinatra ou um finlandês de hoje usa Nokia. Como não termos orgulho no nosso único produto de exportação?
Relatos chegados ao Hemisfério Sul, directamente de Berna e Amesterdão confirmaram que eu tinha escolhido o que devia.

Mais tarde a adesão ficou definitivamente firme. Não era só aquele quinteto – José Augusto, Coluna, Torres, Eusébio e Simões – que me empolgava. O Benfica não era só bom: era único e precursor. Eu explico. Sou um filho dos anos 60 e vi o meu clube ensinar à Europa o que ela só conheceria décadas depois. Nos anos 60, quase não havia negros nos clubes europeus e o Benfica sempre os teve e bons: Santana, Eusébio, Coluna, Yaúca... Mas, sobretudo, o Benfica tinha um patrão negro, Coluna. Um patrão-patrão: aquele que mandava e era respeitado pelos seus, à vista de todo o
estádio. Hoje, dir-me-ão, que banalidade. Sim, como o voto das mulheres ou não enforcar prisioneiros. Mas alguém teve de apontar o caminho: o papel coube ao meu Benfica.

Isto para dizer que o meu clube é de outro campeonato, que não dessas historietas como a do jogo do Estoril no Algarve ou aquele penálti contra o Belenenses. Com outros também há falcatruas assim? Claro que há, mas as falcatruas dos outros só me irritam, não me ofendem. Como me irritam tantos anos sem ganhar um campeonato, mas não me ofendem. Ofende-me é que alguém se tenha esquecido do que me habituou: grandeza.

Esta época, o Benfica ou ganha o campeonato ou não ganha. Se não ganha, será mais um, em onze anos, a não ganhar.
Se ganha, é para esquecer: assim não quero. Cá estarei para o ano, para sair à rua, gritando pelo meu Benfica que ganhou um campeonato, o primeiro limpamente ao fim de uma dúzia de anos."


(200) palavras para quê?
publicado por Rui Correia às 18:48
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