Sexta-feira, 6 de Março de 2009

vinhos

Uma vez um aluno meu, o Manuel, chegou à aula com as mãos escondidas. Fui ver. O pai tinha-lhe batido com uma régua e as mãos estavam manchadas de hematomas. “É o vinho, disse-me ele”. Percebi que aquele moço conseguira, de uma qualquer forma embrutecida, absolver a brutalidade ignorante e fascista de um pai malfeitor. Já aqui voltarei.

Soube hoje que a Secretaria Regional da Educação dos Açores implementou uma solução de filtragem informática abrangendo as redes informáticas das escolas públicas daquela Região Autónoma.

Aqui.

Imediatamente se gerou de novo a velhíssima discussão entre os que são contra e os a favor de soluções tecnológicas de filtragem. Censura? Profilaxia social? Disparates. De novo vejo nesta discussão o mesmo problema que sempre encontro em discussões deste teor; uma extraordinária ingenuidade que esquece que as escolas são, precisam de ser, uma extensão do mundo corrente. Como responsável há muitos anos pela introdução dos meios informáticos nas escolas seja na condição de formador, de membro do Conselho Executivo ou na condição de coordenador da rede informática de uma escola durante quase uma década, permitam-me que vos fale apenas do que sei: nenhum sistema de filtragem de informação tem quaisquer resultados permanentes ou sequer consequências particularmente meritórias.

É um preço demasiado alto a pagar por um retorno tão insignificante. E não vos falo de dinheiro. Falo-vos disto: se, para evitar que um quadro lírico de Courbet passe à frente dos olhos de uma criança de 7 anos, tenho de prescindir de viver numa escola com liberdade de movimentos, prefiro estudar Courbet. Parece-me todo este pudor uma exorbitância e é claramente viver acima das nossas posses. A escola não pode reproduzir um nervosismo embaraçado sobre coisa alguma. Uma escola quer-se segura. Capaz de dirimir estes delitos educacionais e mínimos com a maior tranquilidade. Deve ser firme na prossecução da sua missão social mas sempre sem estes nervosismos e esta tentação de varrer o lixo para debaixo de um qualquer tapete tecnológico que dê a ideia de que resolve o problema. Longe da vista, longe do coração. É muito, muito ingénuo. Frívolo. Irresponsável. As escolas não podem cobrir um cheque desta importância. É um preço demasiado alto para o magro, esquelético, irrisório benefício que daqui é possível retirar. Acredito numa escola como a minha, onde se valoriza a utilização de computadores para obter utilidades didácticas concretas.

Sempre que um aluno visita um site inadequado para a sua idade, ele fá-lo por sua conta e risco. E é isso a vida. Corre o risco de estar a perder tempo e de fazer perder tempo. Corre o risco de ser ridicularizado e repreendido por um professor, que o deve fazer, não porque o conteúdo é grosseiro, mas porque não está ali para outra coisa que não seja trabalhar.

Essa responsabilização é que precisa ser devidamente recordada. E isto é o que mais importa numa escola: demonstrar, com eloquência e equilíbrio, as vantagens que decorrem dessa responsabilidade. Antes de mais nada visitar estas páginas numa escola é algo que deve ser visto como um acto caricato. Os alunos precisam de passar por este ridículo. A firmeza decorre desta presunção de verdade: aprender traz maior liberdade. E a escola não deve servir para mais nada senão saber aprender. Chama-se a isto outra palavra antiga: autoridade. Perguntem a qualquer professor: os alunos aceitam tudo, só recusam a incoerência. Até a brutalidade aceitam, como o meu Manuelito. Nunca a incoerência. A autoridade de uma escola vive desta coerência de saber o que fazer com o que prega.

Uma escola serve para educar e educar é, antes de mais, dar o exemplo. A cidadania implica a liberdade de escolha. Fica tudo dito, pois. Escolha implica o exercício do espírito crítico. Quero viver uma escola que sabe o que fazer com a nudez, a violência, o excesso e o desvio. Lamento uma escola que viva assombrada com o advento dos fenómenos que se julga não pertencerem nem à escola nem à infância. É esta ingenuidade que encontro em alguns depoimentos que li "contra" e "a favor". Não explico nada de novo. É isso mesmo que mais aflição me faz. Voltar a recordar o óbvio. Não nos esqueçamos que o óbvio é, as mais das vezes, o essencial. Ou seja, o que não faz sentido nenhum que seja esquecido. É fundamente pernicioso para as crianças que saibam à partida que algumas partes do mundo lhes estão vedadas. Isto apenas atiça e consolida tentações e desvios à norma. A escola deve ser o espaço de reprodução consistente, segura e leve destes valores tão imprescindíveis. Tal como é imprescindível que um aluno saiba que algumas partes da sua vida estão vedadas aos outros. É, pela mesmíssima razão, fundamente nocivo que uma escola tenha câmaras de vigilância, mesmo que apenas ligadas no final do período de aulas. Não podemos educar os jovens no hábito acrítico de aceitar uma vida videovigiada. Já muitos deram para esse peditório. Essa ingenuidade não trouxe benefícios que alguém saiba reconhecer ou deles se ufanar.
publicado por Rui Correia às 20:27
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