Quarta-feira, 11 de Março de 2009

elefantíase

Não é nada frequente que os intelectuais se movimentem para impedir a construção de novos e modernos espaços de cultura. Se o fazem, pode presumir-se com segurança que alguma fundamentação sólida se impõe como irresistível. Neste caso nem sequer era uma série de museólogos armados em Scrooges das finanças. Era, aterradamente, ver dissipar-se uma enormidade milionária de dinheiro num projecto megalítico, paquidérmico, muito mais inválido do que a aplicação dessa verba num inadiável programa de requalificação da rede nacional de museus que vive num estado de convalescença crónica e que poderia agora conhecer um novo fôlego.

Muito triste, muito frustrante, portanto o veredicto de construir um novo Museu dos Coches. Já tudo se disse sobre esta deslumbrada decisão. Raquel Henriques da Silva foi a principal voz inconformada que demandava que se mantivesse o museu no actual Picadeiro Real, lugar adequado para o mais visitado museu de Portugal. Por todas as razões, nomeadamente a beleza do lugar que tanto precisa de reabilitação e aggiornamento museológico. Mas prevaleceu a tentação de construir mais uma obra de regime - absolutamente prescindível - para mais com um caderno de encargos de 31 milhões de euros. Fora as derrapagens. Tanto dinheiro. Tão necessário.

O "vandalismo de Estado" que se prefigura para a Cordoaria Nacional, local do novo museu de arqueologia e a demolição das oficinas de material de guerra, para onde irá o novo museu revelam duas coisas que o ministério da cultura não conseguiu - nem tentou, sequer - deslindar: a fundamentação museológica não colhe crédito junto dos decisores e, decididamente, as elites políticas não entendem como é indispensável dar sinais constantes, consistentes de contenção financeira e abrir mão para o diálogo com a sociedade civil.

São contínuas as humilhações que se semeiam sobre os movimentos de cidadania. Criaram-se novas fronteiras onde era necessário que se não erguessem. Decisões como estas, assim inexplicadas, inexplicáveis, fomentam a descredibilização da participação cívica. Os que defendem as suas posições tornam-se párias. Num momento histórico em que é indispensável trazer as pessoas para o político, considero que não é já tempo de considerar. Não é já tempo de escrever, de comentar que as coisas vão mal. É importante agir para que possam não ir de mal a pior.
publicado por Rui Correia às 01:03
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