Quarta-feira, 18 de Março de 2009

monobloco

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Quantas vezes será preciso repetir que, em matéria escolar, adoptar um modelo universal para todas as escolas foi chão que deu uvas, produziu erros crassos e que o nosso tempo exige que se mude de práticas? Quantas vezes até que a elite decisora e influente acredite finalmente nisto? Um modelo de integração. Um modelo de família. Um modelo de aluno. Um modelo de gestão. Um modelo de avaliação. Um modelo de colocação. Um modelo de intervenção. Um modelo de autonomização. "Um" deve ser compreendida como uma mínima palavra proibida em matéria educacional.

Quase valia a pena recensear a quantidade de vezes que pessoas com responsabilidades políticas e educativas o reafirmam. E, no entanto, esta ideia, tantas vezes confirmada na teoria e na prática, é simplesmente posta de lado. Quem tem medo desta diversidade? Os mesmos que defendem a teoria do "menos Estado e melhor Estado", são os primeiros a fugir dessa prática na primeira oportunidade que lhes surja. Simplesmente, não conseguem confiar às escolas a prerrogativa da diferença.

Desta vez foi a deputada socialista Maria do Rosário Carneiro, responsável pela subcomissão parlamentar de Igualdade de Oportunidades e Família, que afirmava, peremptória:

«O modelo (nas escolas) não pode ser único porque há problemas diferentes e comunidades diferentes (...) «Não há unanimidade no modelo de integração».

Pode argumentar-se - e logicamente - que a prova de que as escolas não são de confiança é justamente perceber que as há que atiram alunos de uma etnia específica para dentro de um contentor com ar condicionado. E que isso, mesmo contando com o ar condicionado, é intolerável. E é verdade tudo isto. Mas será que o problema está na aparente segregação dos alunos? Ou será que esta escola - agora considerada à pressa de intervenção prioritária - não precisaria, primeiro, de salas de aula suficientes para os seus alunos?

O apoio que estas escolas precisam começa na indispensabilidade de não haver contentores em educação. Confirma-se, é verdade, a existência de umas escolas que organizam mal os seus planos de integração escolar. A verdade é que estamos a dar os primeiros passos como país de imigração. Precisamos de tempo e de experiência. E há erros pelo caminho. Isto foi um erro. Mas um erro é uma tentativa. E as escolas precisam de saber fazer melhor. Saber aprender. Ao invés, o que vemos? Vemos uma DREN a defender a escola. Na realidade não o devia ter feito. Devia ter assumido, com aquela infelicidade natural de quem não tem mundos e fundos, a sua própria incapacidade em apoiar aquele projecto de forma suficiente. O que é o suficiente? Antes de tudo o mais, é dando-lhe condições materiais para a integração. Enviar para lá um contentor e exaltar os benefícios do ar condicionado é uma idiotia. Alguma sobriedade faria maravilhas a todos os envolvidos. Precisamos melhorar. E somos capazes de fazer bastante melhor do que isto. Bastaria estas palavras para que tudo se resolvesse. Mas não. A solução é dizer que tudo está bem naquele reino. Que tudo não passa de "discriminação positiva".

Quem, como eu, já organizou turmas de currículos alternativos, sabe muito bem o que significa discriminação positiva. e de como isso não é uma expressão vã. Na prática é reunir uma equipa de professores escolhidos a dedo, alunos escolhidos a dedo, equipamentos escolhidos a dedo, salas escolhidas a dedo, parceiros comunitários escolhidos a dedo e currículos pensados e ajustados, não aos interesses dos alunos, mas às suas possibilidades, entretanto diagnosticadas. A dedo. É estabelecer contactos regulares com as famílias - e não uma vez por ano - e apontar-lhes o dedo quando são negligentes ou ausentes. É proporcionar visões e exemplos de vida que questionem resignações insolentes ou demissões plácidas. E sabemos bem que não basta ser: é preciso parecer. "Integrar" um grupo de alunos num espaço físico materialmente desafectado aos espaços comuns é tão nocivo como desenhar mal um currículo integrado. O que vimos em Barcelos é uma discriminação positiva à portuguesa, em cima do joelho. Não é uma escola a pensar bem. Mas é uma escola a aprender o seu caminho. O que é preciso é apoiar o trabalho começado por aquele grupo de professores. E apoiar é dizer-lhes que, simplesmente, há coisas que não se fazem. E que devem ser corrigidas. É isso a liderança. Estar do lado dos que tentam. Por que há os outros. Os que nem tentam quaisquer projectos de integração. Sobre esses, evidentemente, nada se sabe.

"É preciso conhecer os contextos" - diz a senhora deputada. "Contextos" é sempre uma realidade plural. O que será que temos de fazer mais até que algumas cabeças poderosas deixem de pensar e agir num registo "monobloco"?
publicado por Rui Correia às 15:18
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