Quinta-feira, 26 de Março de 2009

transes

Digo-vo-lo sem tergiversação. Quando se deu a invasão do Iraque, assumi junto do meu grupo de amigos uma posição absolutamente sozinha. Não me opunha à guerra. Compreendia aqueles argumentos que toda a gente usava então – a não existência de armas químicas, a estouvada coligação internacional, a ausência de um mandato das Nações Unidas e inaceitável violação do direito internacional, as ligações americanas à Arábia Saudita, a mistificação Al-Qaeda e o engodo do 11 de Setembro e tantos, tantos mais – mas mesmo assim era-me humanamente impossível não desejar a queda e a punição exemplar de Saddam Hussein. Subestimar tantos argumentos tão válidos como os que me desafiavam não me foi fácil; mas tinha um problema insuperável. O caso dos curdos. Recordo, sem qualquer vaidade, que na altura estudei a fundo o caso, após a leitura de uma curta nota no Courrier Diplomatique. Sublevei-me mesmo numa sessão pública contra este aflitivo silêncio ocidental. Depois da invasão voltei a fazer o mesmo. Não ganhei adeptos com isso. Lembravam-me repetidamente os argumentos válidos que documentavam o meu erro, embora graciosamente consentissem os meus.
Aquilo que ia lendo, aqui e ali, mínimos artigos estrangeiros, acerca da horrível repressão sobre o povo curdo amputava qualquer réstia de comiseração que eu possuísse. Convivi mal, naturalmente, com as argumentações dos meus amigos – e tão óbvias e esclarecidas eram. Mas era-me difícil reprimir uma avidez irredutível, inconfessável e irracional de ver aquele ser humano conhecer o seu fim sucumbindo a uma morte meticulosamente medonha, historicamente desapiedada.

Acabo de ver um documentário em que se mostram finalmente as imagens vídeo dos infindáveis crimes de Saddam. (Sim, o ditador pedia gravações em vídeo aos seus oficiais para que ficasse provado que as suas ordens estavam a ser cumpridas em todo o país). São às dezenas. Não fazia ideia da existência de tantas provas explícitas. E são monstruosamente mais bárbaras do que alguma vez poderia conceber. Algumas não consegui ver. Os depoimentos na primeira pessoa são arrepiantes. Os olhos mortos dos milhares de crianças curdas gaseadas são pontos finais.

Como é sabido, todos os argumentos dos meus amigos mais próximos prevaleceram. E ainda bem. Porque os seus são melhores do que os que então defendi. Sobretudo por coibirem em mim aquilo que em cada um de nós é importantíssimo que seja coibido; a irracionalidade furiosa da piedade. Mas, sei, porque os conheço bem, que não lhes deveria ser nada fácil assistir ao que eu assisti hoje.
publicado por Rui Correia às 12:28
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