Terça-feira, 7 de Abril de 2009

recursos

Uma amiga da minha mulher é directora geral de recursos humanos de uma multinacional espanhola em Portugal. Aqui há dias foi contactada para ir para outra empresa com condições remuneratórias e profissionais bastante mais aliciantes. Foi. Quando lá chegou, percebeu logo que esta nova empresa, com actividade em 30 países do mundo, não tinha segundo as suas palavras, “cultura de recursos humanos”. Ou seja, o patrão é que entrevistava os candidatos e escolhia quem entrava ou saía dos quadros da empresa. O trabalho desta minha amiga é, portanto, o de insuflar na empresa esta metamorfose intelectual. Esta mudança mental é algo que muito retarda o desenvolvimento das empresas portuguesas, cujo empresariado está ainda acostumado a uma gestão paternalista do seu capital humano. Coisas do século passado.

Acabo de ler a Portaria nº365/2009 que regula o procedimento concursal de docentes para os TEIPs. Tenho especial interesse nisto porque acredito que é assim que as coisas irão passar-se de futuro. Como? Desta forma:

1- deixa de haver concurso nacional; os professores apresentam-se a concurso aberto pela escola;
2 - os candidatos são escolhidos por um júri; o director nomeia os membros do júri – titulares (já expliquei que o director não tem de ser titular? Adiante);
3 - o júri estuda a documentação do candidato e classifica de 0 a 100 os seguintes parâmetros:

* experiência profissional (não há aqui qualquer sujeição ao tempo de serviço),
* formação profissional (adequada à escola que abre o concurso) e – aí vamos nós:
* “perfil de competências”. Este “perfil de competências” define-se através de “apreciação curricular” ou uma entrevista. Nesta entrevista… enfim, leia-se o que lá vem que é bem esclarecedor:

Artº 5º ponto 9.

“A entrevista profissional de selecção visa avaliar, de forma objectiva e sistemática, a experiência profissional e aspectos comportamentais evidenciados durante a interacção estabelecida entre o entrevistador e o entrevistado e a sua adequação ao perfil de competências exigido para o posto de trabalho a ocupar no quadro.”

Valerá a pena traduzir? Traduzamos, então. Os titulares passam a ser também psiquiatras amadores e avaliadores de "comportamentos" e "interacções". Algum deles saberá distinguir "comportamentos" de "interacções"? Duvido. Mas também não importa. Aqui, nada de relevante importa. No fundo, transportamos para as escolas aquilo que as empresas se esforçam por abandonar. Cultura de recursos humanos para as escolas? Ná. Faz-se à antiga. Paternalismos oitocentistas. Faz-se como se faz com as outras coisas todas no universo da educação. Em cima do joelho. Sem profissionalismo. Existem SPOs na escola? E depois? Os psicólogos servem só para orientação vocacional dos alunos, mais nada.

Outro aspecto que considero interessante é o artigo 10, intitulado “Garantias de impugnação administrativa”. Ou seja, o que fazer quando não concordamos com a decisão do júri? Que garantias têm os candidatos? Um artigo que se previria desenvolvido é arrumado em sete linhas. Tunga. O primeiro ponto diz logo tudo acerca das ditas “garantias”:

“No procedimento do concurso não há lugar a reclamação.”

Dúvidas? Nenhuma. E quanto aos "recursos"?

“Das listas de classificação final e de exclusão cabe recurso, sem efeito suspensivo, a interpor em formulário electrónico no prazo de cinco dias úteis contado desde a data da respectiva publicitação, para o director-geral dos Recursos Humanos da Educação.”

Há, como vêem, possibilidade de recurso. Mas o que resulta realmente dele? Nada. Não tem efeito suspensivo. Vai direitinho para a mesa de quem? Do principal interessado em que nada disto tenha deferimento e proceda.

Tem-se debatido muito o uso da palavra "luta". Muitos de nós a recusamos por não acreditarmos no linguajar belicista. Não nos despistemos com semânticas. Estamos num momento de luta.

É este o nosso derradeiro recurso humano.

_____

ps: Já agora acabo a história da minha amiga directora. Desistiu. Voltou para a empresa anterior. Não esteve para aturar amadorismos.
publicado por Rui Correia às 15:50
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