Quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

CAPturas XVI

Como já por aqui expliquei, tornou-se-me completamente prescindível desenrolar a quantidade e qualidade dos incumprimentos de gestão que abala a vida da escola onde, com os meus colegas, teimo em continuar a ensinar. É um combate desigual, quotidiano, contra as mais inconcebíveis inépcias. Todos os dias me explicam coisas inexplicáveis.

Uma ausência obrigatória levou-me a não estar em contacto tão imediato com a realidade desta escola. Quando regressei pude perceber que aquela que, de repente, se tornou a minha mais premente perplexidade era partilhada com estupor resignado por todos os meus colegas que, como eu, exercem, ou tentam exercer, as funções de direcção de turma.

A coisa pode contar-se assim: em 1993, quando se inaugurou a escola, e durante alguns anos, utilizava-se umas folhas de papel, designados mapas de faltas, onde penosa e demoradamente se registava cada falta de cada aluno. Tiveram poucos anos de vida. Para alívio colectivo, estes mapas foram substituídos por bases de dados cuja implementação exigiu adaptação e formação antecipada e consistente. Tal como na nossa escola de então, estes mapas desapareceram depois das outras escolas todas; extinguiram-se da face da terra educativa, como dinossauros burocráticos. Tarefa tão obsoleta como fastidiosa, ocupava tempos preciosos dos professores e onerava estupidamente as finanças públicas.

Pois ao chegar à escola percebi que muitos dos meus colegas começavam a sentir necessidade de regressar a esses papéis. Perguntei. Responderam-me. Vamos entrar em Novembro e, na EBI Sto Onofre, não existe nenhum instrumento de registo de faltas de alunos. Descrente com a situação, tive oportunidade de inquirir por que razão não existe agora nenhuma forma de “tirar as faltas” aos alunos. Foi-me explicado o seguinte, se não ipsis verbis, ao menos com a maior precisão:

“Como o próprio nome indica, nós somos apenas uma comissão transitória. Estávamos à espera do resultado desta providência cautelar. Como não sabíamos se íamos continuar, decidimos que não iríamos tomar decisões definitivas sobre a aplicação informática para gestão dos alunos, comprometendo quem viesse a seguir a nós.”

A pergunta que se impunha era: “Mas, se não queriam tomar decisões, por serem transitórios, por que razão tomaram a decisão – vinculativa – de suprimir um procedimento funcional, com provas mais do que dadas e que todos operam com a maior naturalidade desde há anos, sem apresentar qualquer alternativa?”

A resposta foi: “Tem razão, mas estamos à espera que outra aplicação apareça, entretanto. Deve estar quase a chegar”.

A pergunta óbvia é: “Mas, em que ficamos? Não disse que não tomariam quaisquer decisões definitivas por serem transitórios e inutilizam a principal ferramenta de trabalho da escola? Vão comprometer quem vier a seguir a vós com essa outra aplicação?”

A resposta foi inconsequente e redonda. Nada omito. Inconsequência e redondez. Foi-me apenas dada a garantia que no próximo dia 30 de Outubro tudo se esclarecerá numa reunião convocada para o efeito.

Apresentei o meu protesto por terem inutilizado, apenas porque nunca a quiseram estudar, uma base de dados que esta escola tem em execução. Como não aprenderam a trabalhar com ela, decidem suprimi-la, talvez para não estarem na dependência de ninguém. Na dependência de quem sabe trabalhar com ela, por ter aprendido. E suprimem esta aplicação acreditando que possam fazê-lo sem apresentar alternativas. Será que, sinceramente, esta gente secretamente acreditou mesmo que era possível gerir um ano escolar inteiro, um período que fosse, sem uma base de dados para registo de faltas?

Enfim, adverti para a indispensabilidade de tempos de adaptação a novos procedimentos, manutenção e de formação. Referi a necessidade de não pulverizar os dados dos alunos por várias bases de dados para evitar duplicação de tarefas. Ficou tudo dito.

Cumpre dizer que não conheço, nunca testemunhei semelhante displicência perante tamanha irresponsabilidade. Nenhum professor pode neste momento registar ou justificar faltas de alunos. Nenhuma pauta pode ser impressa com o cômputo de faltas. Nenhuma comunicação aos encarregados de educação pode ser remetida. Está inutilizado o acesso de pais e alunos ao total de faltas dos seus educandos. Nunca nada parecido com isto aconteceu numa qualquer escola que eu conheça.

Não sei o que possam os encarregados de educação pensar disto. O seu silêncio, já não é apenas longo. Torna-se, cada dia que passa, conivente.
publicado por Rui Correia às 15:19
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