Domingo, 19 de Abril de 2009

Caldas hoje

No lançamento da campanha do nosso colega Delfim Azevedo, à Câmara Municipal, o Dr. João Serra apresentou o seguinte depoimento que logo publicou no seu blog e que aqui transcrevo, por representar tão exactamente o que eu próprio penso sobre o que, neste momento tão dramático da vida deste concelho, é preciso que seja feito, independentemente de outras considerações igualmente prementes e legítimos confortos pessoais.
É especialmente deliciosa a memória dos dias que precederam o primeiro mandato do PSD nas Caldas da Rainha, há quase um quarto de século.


"Caro Delfim Azevedo
Caros amigos
Tomo aqui a palavra, com todo o gosto, a convite, prontamente aceite, do candidato, e por motivos pessoais e políticos, que me apresso a esclarecer.

Por detrás desta cumplicidade há uma velha razão. Estávamos em 1985. Em Outubro (6) realizaram-se eleições antecipadas, convocadas pelo Presidente Ramalho Eanes que deram, alguns talvez se recordem: 30% ao PSD, 21% ao PS e 18% ao PRD. Seguiam-se-lhes eleições autárquicas, em 15 de Dezembro. A disputa da Câmara das Caldas ia ocorrer num contexto de alguma imprevisibilidade: chegara ao fim um Executivo em que o CDS tivera a maioria, conquistada pelo Eng. Paiva e Sousa e continuada pelo Coronel Monroy. O PSD preparava-se para candidatar pela primeira vez o Dr. Fernando Costa, em detrimento de candidaturas de continuidade que seriam as do Dr. Lalanda Ribeiro ou do Dr. Mesquita de Oliveira (cabeça de lista nas eleições de 1982). O PRD, animado pelos resultados das legislativas, anunciava uma candidatura com o Drs. Jorge Varanda e Vicente do Carmo, e o PS tinha convidado o Dr. Manuel Sá Lopes para encabeçar a sua lista onde surgia também o Engº José Valente, antigo vereador de uma Câmara PSD. Foi então que dois cidadãos caldenses, sem partido, escreveram uma carta ao PRD e ao PS propondo a criação de uma plataforma política comum de forma a criar uma alternativa à candidatura do PSD.

O Eng.º Delfim Azevedo era o responsável pela secção do PS das Caldas da Rainha e aceitou de imediato o repto para encetar conversações com o PRD. A primeira reunião, a que assisti, realizou-se nas instalações da Gazeta das Caldas. Esteve presente o outro subscritor da carta, o Dr. José Luís de Almeida e Silva. O Engº Delfim Azevedo pediu que um de nós mostrasse disponibilidade para integrar as listas, caso se verificasse acordo. Fui eu o voluntário de serviço.
O resultado das conversações foi nulo. O PRD não mostrou interesse na coligação e eu acabei por integrar a lista do PS para a Assembleia Municipal, na qualidade de independente. Mais uma vez o devo a insistência do Engº Delfim Azevedo. O argumento dele era que pela ausência de acordo não podia ser responsabilizado o PS que propusera que a composição da coligação tivesse por base os resultados das legislativas. Fui o 3º da lista e o PS elegeu exactamente 3 deputados municipais. Foi a minha primeira experiência nessa função.

Tal como nessa altura, há 24 anos, o Eng. Delfim Azevedo é hoje protagonista de um projecto corajoso e de risco. Estamos todos mais velhos – eu mais do que ele, porque a gente do Porto sempre tem tido mais motivos de rejuvenescimento nesta última década – o que aliás sublinha a atitude corajosa e a aceitação do risco da parte de quem certamente teria agora boas razões para se resguardar de embate tão exigente.
Refiro-me a coragem e risco políticos, evidentemente. De facto trata-se de enfrentar uma gestão autárquica instalada há exactamente 24 anos, que vai pedir um último reconhecimento eleitoral e espera que a inércia e o conformismo joguem a seu favor.

Não vou alongar-me muito mais, porque certamente os amigos e camaradas aqui presentes querem sobretudo ouvir o candidato, as suas razões e propostas.
Por isso direi apenas e sumariamente o seguinte. Que o Engº Delfim Azevedo e o PS têm de convencer o eleitorado a sair de uma confortável abstenção e de um voto resignado no PSD para uma alternativa, um nova orientação estratégica da cidade e do concelho.
Essa alternativa, mais do que a recusa do quarto de século de uma gestão muito casuística se bem que muito presente – tão presente que às vezes me pergunto se não estiolou muita iniciativa particular e empresarial, se não condicionou a inovação e a criação culturais e não nivelou por baixo alguns dos projectos diferenciados que aqui germinaram ou aqui se quiseram ancorar – tem que se afirmar pelo que propõe de novo, tanto nas formas de gestão como nas metas a atingir.

Esta candidatura parte talvez com uma expectativa moderada, em atenção à conjuntura depressiva que atravessamos, mas com um forte capital de esperança. A esperança em inverter uma tendência de um modelo de cidade gasto, incapaz de antecipar, de atrair inovação e assentar a sua projecção em dinâmicas criativas com tradução no plano do negócio e do empreendedorismo.

É isso que as gerações que têm assistido a tanta oportunidade perdida (claro que oportunidades perdidas, do ponto de vista de um certo modelo, são oportunidades ganhas de outro modelo). Mas este modelo é urbanisticamente preguiçoso, empresarialmente pouco estimulante e altamente consumidor de recursos escassos como sejam a qualidade ambiental.

O capital de esperança reside apenas nisto: esta candidatura tem de produzir o sobressalto cívico que permita acreditar na concorrência como viabilizador da alternância. A lei que impôs a limitação de mandatos é, a meu ver, justa. Tenho mesmo dificuldade em compreender como é que os constituintes se conformaram tanto tempo com a limitação de mandatos do Presidente da República, cargo de eleição directa e universal, e a possibilidade de eternização no poder de presidentes de Câmara e presidentes de Governo Regional. Mas seria desperdiçar muito tempo que a alternância tivesse que esperar o ensejo da lei, em vez de decorrer do normal exercício da escolha dos eleitores.
Para isso, esta candidatura tem de extravasar as fronteiras de um partido para ser o expoente de um movimento cívico que envolva cidadãos e associações, organizações da sociedade e pessoas que, na sua visão plural, se empenhem na definição de novas prioridades para a acção municipal e para o papel cívico dos munícipes.

Tem que ser pois uma candidatura aberta e renovadora. A modernidade caldense é em muitos aspectos uma falsa modernidade. Esta candidatura tem de ser capaz de renovar a agenda do concelho, sem perder de vista que é urgente um plano de intervenções correctoras em pontos nevrálgicos da cidade e do concelho.

Há que, por fim, ser muito claro não só sobre o que se pode fazer mas também sobre o que se deve fazer. Sobre este aspecto, sem querer antecipar o que certamente a candidatura vai discutir ou já está a discutir, gostaria de deixar duas pequenas notas. Uma é sobre a crise social: as autarquias vão ter de estar na primeira linha do combate aos efeitos mais graves da crise que ainda se não terão feito sentir totalmente. A outra é sobre a preparação para a retoma. Quando ela vier, quem estiver mais bem preparado tira enorme vantagem. Isso significa investir nas parcerias e nos projectos que permitam às Caldas estar em melhor posição para ocupar uma posição de destaque na atracção e estímulo dos factores de inovação do futuro.

Meu caro Delfim, desejo-te muito boa sorte!"

publicado por Rui Correia às 15:45
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