Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

vertebral

maos.jpg


Verifica-se agora no Agrupamento de escolas de Sto Onofre um novo momento na campanha contra este modelo de gestão e de avaliação. Já aqui estive antes.
Chamo-lhe a síndrome da escoliose ética ou do derrame vertebral. Conheço bem o lugar. Tenho mesmo fotografias do sítio. Encontramo-nos numa encruzilhada. É o momento em que os mais vorazes se alimentam do cansaço, da desinformação, do medo, do desleixo, da fadiga dos mais trabalhadores. O final de um ano lectivo é o momento perfeito para falar de exaustão a professores. Baixam as defesas. Pairam os necrófagos. Os egoísmos individuais (estes, sim, dotados de inconfessáveis objectivos individuais) não perderão uma oportunidade para devorar ingenuidades e degolar inocências.

Chegámos ao momento em que

aquele que saltou para dentro dos autocarros para ir às manifestações,
aquela que saltou outra vez para dentro dos autocarros para ir às manifestações,
aquele que acenou bandeirinhas,
aquela que gritou slogans,
aquele que verberou ministros e ministras,
aquela que ficou rouca de tanto clamar,
aquele que assinou abaixo-assinados,
aquela que aplaudiu quem disse em voz alta o que ela queria que alguém dissesse,
aquele que zombou e injuriou quem vinha tomar de “assalto” esta escola,
aquela que cantou canções de intervenção,
aquele que não faltou a nenhum encontro,
aquela que escarneceu na cara de uma legislação tão inepta que exigiu duas correcções estruturais,
aquele que deu palmadinhas nas costas de quem defendia isto e aquilo,
aquela que protestou contra os sindicatos por serem moles,
aquele que protestou contra os encarregados de educação que o não são,
aquela que comeu comidinhas em lanches de protesto,
aquele que leu decretos, sublinhou despachos e deu opiniões,
aquela que foi aos jantares de “resistentes”,
aquele que censurou e riu nervosamente na sala de professores,
aquela que afixou papéis,
aquele que apareceu no jornal com ar digno,
aquela que foi enxovalhada quando lhe tiraram o voto das mãos e o deram ao lixo,
aquele que se comoveu com o gesto público dos alunos, defendendo os seus professores,
aquela que se encantou por ver chegar gente de todo o país para dar um abraço aos professores de Sto Onofre, numa chuva de solidariedade,
aquele que falou alto para que se soubesse que,
aquela que reencaminhou emails daqueles que,
aquele que telefonou ao outro para dizer que,
aquela que “a certa altura até me saíam palavrões”,
aquele que “um dia vou-me a eles”,
aquela que aplaudiu os guinotes todos que há para aplaudir,
aquele que pediu desculpa por votar neste ou naquele,
aquela que nunca fez greve mas desta vez…,
aquele que sempre fez greve e agora mais que nunca…,
aquela que vai à próxima manifestação porque...,
aquele que não vai à manifestação porque…,
aquela que sabe que a alínea a) do artº 15 do Dec. Regulamentar 2/2008 diz expressamente: "preenchimento da ficha de auto-avaliação" e nem uma linha dedica a objectivos de nenhuma espécie,
aquele que sabe que os tribunais - os TRIBUNAIS, valha-nos Sto Onofre - PROIBIRAM todas as direcções de escolas de dizer que os professores só poderão ser avaliados se entregarem OIs,
aquela que nunca na vida se atreveria a encomendar o projecto da casa, depois de ela já estar construída, porque isso seria parvo,
aquele que nunca na vida se atreveria a pôr uma rolha numa garrafa e só depois tentar enchê-la de vinho, porque isso seria parvo,
aquela que nunca na vida se atreveria a programar metas para um ano lectivo a um mês do fim desse ano lectivo, porque isso seria parvo,
aquele que nunca na vida conseguiria compreender como alguém se lembra de tentar aprovar um plano de actividades para um ano lectivo a um mês do final desse mesmo ano lectivo, porque isso seria lectivamente parvo,

aquela que...

todos eles, todos nós, tomamos agora nas nossas mãos a decisão pública de escolhermos entre a respeitabilidade e o egoísmo, entre a magnanimidade e a conveniência, entre a honradez e o aviltamento, entre a elevação e a humilhação pública, entre ser vertical ou ser invertebrado, entre ter vergonha ou não, entre olhar os filhos nos olhos ou fazê-lo de soslaio, entre ter histórias de verdade ou entreter histórias de mentira.

A desonra é, como se sabe, um animal que ataca no escuro, em matilhas de perfídia. Agora a virtude está em quem nada mais tem a acrescentar ao que já foi dito. Porque o que se disse e o que se aplaudiu, disse-se e aplaudiu-se. Nada há de novo.

Desta vez, neste momento que é verdadeiramente solene, todas as algemas, as éticas e as morais, hão-de abrir e fechar-se com um discreto

“Não me vou eu agora prejudicar por causa de…”


Assistamos, pois, ao que decidem todas estas mãos. Cada uma destas pessoas.
publicado por Rui Correia às 20:07
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15 comentários:
De Cristina a 21 de Maio de 2009 às 09:04
Para o Delfim: gostei muito do teu texto.

Há mais vida para além do Excel!

Bjs

De Lus Filipe Redes a 20 de Maio de 2009 às 12:41
Melhor que isto, só mesmo o sermão da montanha!
É verdade! Nada mudou, a não ser o que não tem a ver com o assunto.
A decisão de não entregar objectivos individuais foi tomada colectivamente, a nível nacional e não localmente.
Por isso, sentir-me-ia um pouco corrompido se mudasse a minha posição por causa de meras contingências locais.
De Rui a 20 de Maio de 2009 às 01:58
Nada há, como sabes, de novo, Paulo. A aura conserva-se, para já, intacta. Apenas sacudo as melgas que não parecem ainda ter percebido que a luz que hoje aquece, amanhã pode queimar.
De Rui a 20 de Maio de 2009 às 00:44
Que belíssimo texto o teu, Delfim. Sei-o pleno de significado e de verdade. Ainda há pouco tempo aqui alguém dizia que o valor da vida se mede, não pelo poder, não pelo dinheiro, não pela fama, mas tão só pela quantidade de olhos cintilantes que conseguimos reunir à nossa volta. Nessa verdade me revejo e alegro-me muito pelo teu exemplo que é de humildade e de coragem, uma conduta de valor e de valores que nenhum de nós esquecerá. O teu exemplo é muito significante para esta escola e honra-nos a todos. Fico-te muito obrigado pelas tuas importantes palavras.
De Delfim marques de Azevedo a 19 de Maio de 2009 às 22:48
Este é um tempo de memória e de olhos cintilantes.
É um tempo de cantares de amigo e de orgulho no trajecto que a nossa escola trilhou. Ó Rui como muito bem sabes nem todos os olhos cintilam, riem e choram com um sorriso. É verdade, este é o tempo dos homens com memória e com o coração sempre disponível para uma boa luta, sim porque este é o tempo duma luta que vale a vida de um homem, este é o tempo em que nada ficará igual. Pois é, este é um tempo de amigos do coração ( para quem teve um enfarte esta é interessante )daqueles que quando a sua vida estiver suspensa por um fio se lembrarão destes tempos e desta escola e também destes amigos. Não importa quem fica pelo caminho, nem importa que o caminho seja cada vez mais curto e perigoso, porque este é o nosso único caminho o da nossa dignidade. Sabes que podes sempre contar. Um abraço, sempre um abraço, Delfim Azevedo
De Paulo G. Trilho Prudencio a 19 de Maio de 2009 às 19:53
Olha Rui: era bom que esta tua belíssima prosa não tivesse de ser escrita; sabemos que haverá muitas pessoas solidárias com santo onofre que ficam muito desapontadas ao ler isto; é pena, que santo onofre perca um pouco da aura que tão dificilmente construiu; mas nós sabemos que o que retratas sempre assim foi como escreves: "conheço bem o lugar; tenho fotografias do lugar."
Quero acreditar, e acredito, que há muitos professores de santo onofre que não se revêem nas tuas palavras. E isso é que sempre contou, o que conta e o que contará. [] paulop
De Rui a 19 de Maio de 2009 às 19:10
Houve quem dissesse que isto cria impressões, desapontamentos irreversíveis nas relações entre as pessoas. Será?
De Helena a 19 de Maio de 2009 às 19:05
É triste, muito triste a forma real como descreves as coisas Rui
Bjs
De Lina a 19 de Maio de 2009 às 09:18

Clap, clap, clap. STANDING OVATION.
De Rui a 18 de Maio de 2009 às 23:30
E ainda acerca dos medos e da vontade de dobrar a espinha e fazer sorrisinhos e silêncios de conveniência ... Alguém duvida que quem hoje manda amanhã está no olho da rua? E depois? Como será? Quem mandará dentro de uns meses na escola? Quem a liderará? Será, nessa altura, possível agradar a uns e a outros? Interessante pensar nisto, não é?...

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