Sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

sensual

A confirmar-se, o “inesperável” afastamento de Dalila Rodrigues da casa das histórias de Paula Rego é uma renovada verificação de como a frase atribuída a Goebbels, “quando me falam de cultura puxo logo da pistola” deve ser em Portugal virada do avesso. Chega a parecer que, em matéria de cultura, quando alguém falar em políticos deve sacar-se imediatamente da pistola.

Aparentemente não é um nome "consensual" para a Câmara de Cascais. Isto é incompreensível. Um projecto tão eminentemente pessoal, amparado quase intimamente pela pintora, gerando na sua criação um museu belíssimo e trazendo-nos, aos portugueses, um espólio ímpar que outros países disputaram e disputarão ainda, não pode ser sujeito a este ou outro tipo de perturbações. Esta é a sua casa.

Se uma pintora como Paula Rego escolhe a sua conservadora e o faz pessoalmente, para desta forma assegurar o carinho e a atenção que essa sua vida que é a sua obra merece, não pode, quem quer que seja, aparecer a considerar que o nome escolhido pela pintora não se revela “consensual”. Este nome não tem que ser “consensual”. Tem que ser sensual. E deve ser sensual apenas para uma única pessoa. O nome deve ser sensual para a pintora. Dalila é ama de Paula Rego. Entre ela e Paula Rego tem de existir uma dilecção recíproca, serena e demorada para a cultura e a sociabilização daquelas obras, daquele nome.

Neste contexto artístico, tão particular e delicado, aparecer por dá cá aquela palha (ou aquele tacho) um debate político-partidário sobre a “consensualidade” de um nome é um desaforo. Sobretudo pela indesculpável desautorização irresponsável, diria mesmo anti-patriótica, que se impõe sobre o senhorio inquestionável de Paula Rego neste projecto, em todas as matérias deste projecto exemplar.

Uma ofensa absolutamente imperdoável, cujas consequências em breve conheceremos e que prevejo lamentáveis. Foi com este tipo de pequenez que Maria João Pires, a portuguesa, perdeu o seu projecto de Belgais. Restará ainda destruir o que a Casa dos Bicos faz pelo privilégio de podermos em Portugal ter o epicentro da obra de José Saramago, o português. Uma tristeza.

Um mês. Dalila abriu esta casa há um mês. Inqualificável.
publicado por Rui Correia às 23:39
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1 comentário:
De man a 31 de Outubro de 2009 às 09:12

Também já tive a honra de passar por essa casa tão especial. Tudo me encantou. Regressei à "provincia" com a satisfação de ver criada mais uma ilha cultural de excelente qualidade e bom gosto. Bom..neste país o supremo interesse da cultura (ou de outras coisas "menores")acaba nas intrigas, nas politiquices de vão de escada... Eu proponho, do alto da minha cidadania, que essa gentinha da Câmara de Cascais vá procurar outra nacionalidade. Eu quero cá os bons e um país civilizado. (comentário no post certo..).

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