Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

cálculo

Aconteceu-me de novo esta semana. Preparei diligentemente os meus alunos para o que sabia ser uma aula de risco. Quis contar-lhes histórias de soldados. Quis, contudo, fazê-lo sem convocar estatuetas de papel, tiradas de livros, feitas de celulóide ou de plástico; quis falar-lhes da sua carne, do seu osso. De soldados vivos. Mortos. Da herança que nos legam. Do terror que os infunde. Da fraternidade imortal que repartem entre si. Das feridas que os rasgam. Da bravura que os mata e que os condecora. Da perpétua distinção que significa ser-se um dos milhões de soldados desconhecidos de tantas guerras, de tantos horrores indizíveis. Quis colocar os meus alunos na sua pele. Fi-lo com a maior convicção e persuasão. Usei arrebatados recursos retóricos, musculadas figuras de estilo para os situar não apenas no “contexto histórico”, mas num contexto humano.

Convoquei para a aula uma inspecção detalhada dos sentimentos excessivos que ocupam o corpo e o cansaço de um soldado numa guerra. Encaminhei todo o verbo disponível para gerar a desejada coloração compassiva, literária, factual, subjectiva; pus de lado, deliberadamente, o registo historiográfico. Fi-lo por achar que é isso que a história tem de ser, o relato dócil e veemente, franco e falível do que é ser-se humano. Mas se é pela emoção que a história pode compreender-se, é também daqui que ela perde a temperança. Não é dentro do discurso capaz de um professor que as coisas acontecem. É dentro de cada aluno. Algo que não se controla, nem se examina. Não se avalia, nem se calibra. Formular o exercício pode ser, e é, profissionalmente exigente, mas cumpri-lo é incomparavelmente mais rigoroso. O lado perigoso situa-se no aluno. Ele é que corre o risco maior. Para que o cumpra ele precisa de uma dose crescida de sinceridade. De inocência.

Sei por experiência própria que, por vezes, também isto se confunde e talvez por isso eu já não consiga dar uma aula sobre o Shoah sem um real tormento físico. Que nunca escondo. Nunca sei em que momento da aula chegará, mas sei que chegará. Uma formulação mais dilacerante de um episódio minúsculo desencadeia em mim uma incontrolável comoção. Choro, então. À sua frente. E, evidentemente, não o escondo por sentir que os meus alunos me são genuinamente leais. Choram, eles também, quando eu cedo. É sempre uma aula tremendamente intensa.

Mas esta semana calhou a vez a outra pessoa que não eu. Uma das minhas mais encantadoras alunas não conseguiu conter a sua emoção. Um excerto de um filme que eu escolhera para analisar com a turma tocara-a fundamente. Em Junho de 1944, no meio do caos, um soldado moribundo na praia de Omaha gritava pela mãe. Apenas isto. Foi esta perícia miudinha que a fez sucumbir a um pranto superior às suas forças. Saiu acompanhada de uma colega para que descansasse. Quando regressou, quis explicar-me a sua dor. O confronto com aquele momento do filme foi-lhe intolerável. Explicou-me que o seu irmão frequenta a Academia Militar e que isso a amedronta violentamente, pelo amor que lhe tem. Chorar foi, percebi-o com clareza, uma espécie de resgate automático da sua inocência. Aquela cena mínima, que a mais ninguém tocara, revelara-se superior à sua juvenil resistência. Esta aluna é filha de um velho amigo meu. A sua bondade é, confirmo-o, uma herança de dois esplêndidos pais. Testemunhar aquele desgosto tão puro, tão generoso, transformou uma banal aula de história numa poderosa lição de integridade.

Nada me faria trazer esta história pessoal para aqui, caso não tivesse, também esta semana, assistido a uma outra manifestação emotiva. Mas, desta vez, uma ardilosa jactância de pesar. Uma figuração que se revelou tão evidentemente calculada, mas tão eficazmente urdida e preparada, que terá chegado mesmo a persuadir alguns corações mais crédulos e generosos. Nunca pensei ter de recordar isto: procurar conquistar os corações dos outros, para benefício próprio, usando de perturbações antecipadamente preparadas, previstas, é um estupro de clemências alheias. Arrojar a comoção sobre os outros é vil e subterrâneo. Usar a emoção como astúcia não passa de uma difamação pessoal. Uma indignidade.

Cada lágrima, como me ensinou a minha aluna esta semana, é um uniforme. Um uniforme que se veste apenas por honra, por decoro, por solenidade, por ser imprescindível e obrigatório. Nunca por estratégia e lucro.

O que a minha aluna me recordou foi aquela honradez íntima que converte uma lágrima num vitorioso soldado desconhecido.
publicado por Rui Correia às 18:16
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4 comentários:
De Rui a 8 de Junho de 2009 às 01:32
Nem vale a pena tentares, A. Calado. Isto só acontece com pais extraordinários e o que a sua filha faz com a felicidade de os ter como são.
De A. Calado a 7 de Junho de 2009 às 23:34
Obrigada. Isto só acontece com um Professor muito especial.
De Fernando a 5 de Junho de 2009 às 21:58
Lindo, Rui. Lindo Rui.
De man a 5 de Junho de 2009 às 20:56
Lindo Rui.

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