Sábado, 13 de Junho de 2009

apologético

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Num dos blogues diários que visito, discute-se de vez em quando o que faz com que gostemos todos tanto de Portugal, afundados como sempre estamos no absurdo que este país infinitamente teima em nos mergulhar. Tenho para mim desde há muitos anos que uma das coisas que este país tem de mais íntimo e emocionante é esta sua descuidada higiene entre o esplêndido e o ignóbil em que todo o português se lava, quer o queira ou não; a convivência aparentemente incompatível que existe entre a saudade e as caracoletas, entre a filigrana e o courato.

O fado é, aliás, a melhor representação dessa intimidade esquizofrénica por fazer a ponte entre a poesia e a moela, entre o xaile, qual calor de mãe, e a unha crescida, qual canivete suiço. Outro conhecido fenómeno derivado é o improviso, a vocação portuguesa para o improviso, que estabelece esse luso ecumenismo entre a eficiência e a inépcia, entre o que está feito e o que já devia ter sido feito. Todos os dias encontramos razões que documentam esta quase endémica coexistência entre o estupor e o esplendor de Portugal.

Permitam que vos mostre uma das mais convincentes dessas demonstrações que se passou comigo há dias. Íamos em direcção à Lisboa, quando decidimos parar numa estação de serviço de autoestrada para trincar qualquer coisa. Como se sabe, hoje em dia há em Portugal redes de restaurantes especializados - franchises multinacionais - que asseguram uma inoxidável e asséptica assistência em viagem. Entrámos num desses restaurantes, pegámos num tabuleiro, depositámos comida celofanada em cima dele, empurrámo-lo ordeiramente nuns carris até à caixa e depois sentámo-nos. Foi nesse momento que eu reparei que, à minha frente, havia uma estante que exibia um anúncio que informava assim: “Artesanato”.

Fiquei intrigado porque não havia nas redondezas nenhuma peça de artesanato à vista. Apenas livros e revistas. Pensei: “Bem, isto antigamente devem ter vendido aqui artesanato e ficou ainda ali o anúncio”. Mas depois olhei melhor para os livros e tive de me levantar. Aquilo não eram livros como os que vemos nestes lugares, tipo Paulo Coelho ou Margaridas Rebelo Pinto ou Nicholas Sparks ou Nora Roberts. Nada disso, os títulos dos livros atiravam-me para outra dimensão inesperada.

Títulos disponíveis:

Tomo primeiro e terceiro da Corografia Portugueza e descripçam topográfica do Reino de Portugal, do Padre António Carvalho da Costa.
Hermenêutica Retórica, de Manuel Alexandre Júnior.
Comonitório & Livro apologético, de Orósio de Braga, edição bilingue.
Tertuliano Apologético, edição de José Carlos de Miranda.
Em busca das Raízes do Ocidente, volumes I e II, de Raul Miguel Rosado Fernandes.
Apríngio – uma biografia.
Didachê, de Philotheos Bryennius.
La Fontaine, contos.
Evaeave e Maria trimphante – Theatro.
Crónicas da Ordem dos Frades Menores, de Fr. Marcos de Lisboa.
Agiológico Lusitano, de Jorge Cardoso.
Agiológico Lusitano, Estudo e Índices, de Maria de Lurdes Correia Fernandes.
Santuário Mariano.
Philippica Portugueza.
Revistas da Sociedade Portuguesa de Geografia e um variado sortido de revistas científicas portuguesas.

A ideia pela qual eu encontre títulos destes à venda numa estação de serviço de auto-estrada é-me excelente. Mas nem foi isto que mais me divertiu. Nem sequer foi ver que por baixo destas prateleiras, carregadinhas de erudição exegética, estavam também à venda umas revistecas com brindes para empregaditas e cachopos. Não. O que me fez confirmar que estamos em Portugal, neste estupendo e simbiótico Portugal, foi ver a excelentíssima e lusitana colecção de filmes pornográficos que alguém escolheu para colocar precisamente por cima deste móvel, a uma distância inalcançável, ainda por cima, para um tipo como eu, que nem sou baixo.

Títulos disponíveis:

Metam as cassetes na minha padaria.
A minha noiva é uma mulher de chicote.
A minha noiva é uma mulher de chicote 3.
Cús com chantilly (sic)
Canibais sexuais.
Fim de semana lusitano – episódio Sábado.

Depois, saí dali com uma única coisa na cabeça:

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publicado por Rui Correia às 15:52
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4 comentários:
De Rui a 14 de Junho de 2009 às 13:12
Imagine agora o meu divertimento desconcertado quando contei isto a um amigo que me disse assim: "É pá esse eu gostava de comprar". E não se referia aos vídeos.
De xana a 14 de Junho de 2009 às 11:49
Muito interessante, sobretudo o cuidado de preservar as raridades… em vídeo! Pois títulos com «chantilly» podem ser difíceis de resistir, agora os calhamaços... pfff isso até podia ter um cartaz a dizer: "DÁ-SE" que nem assim os levavam!
De Rui a 13 de Junho de 2009 às 19:16
"marchar, marchar..." (no sentido de comer bem e em demasia coisas gordas, salgadas e péssimas para as paredes internas das veias, evidentemente)
De Co a 13 de Junho de 2009 às 17:44
São destes momentos que ficam para a blogostória. Linkei ao Canil, claro. Coisa rica. Somos um País imbatível. Não há paÍ(s) pá gente. Não há.

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