Sábado, 10 de Novembro de 2012

infantarias

Estava eu em plena instrução militar sobre guerra bioquímica quando nos deram a todos um kit de sobrevivência. O tenente responsável pela instrução acabara de o apresentar e de o explicar. Era coisa mesmo intensa: incluía uma seringa já cheia de um antídoto genérico que deveria ser auto injectado na coxa o mais rapidamente possível após a deflagração de projécteis tóxicos. Silêncio geral. Nada mais cool.

 

Era um saco forte transparente a embrulhar um outro saco de cor verde azeitona, que por sua vez, envolvia o kit, tudo devidamente selado e datado. Era americano, fornecido ao exército português. Através do saco transparente podia ler-se as informações de utilização, em inglês. Nunca me esqueci da primeira:

 

“1 - rip the transparent bag” – rasgue o saco transparente.

 

Vejamos: sou da infantaria. Explode um petardo químico ao meu lado. Imagino que numa situação em que acaba de explodir um petardo tóxico ao nosso lado possamos estar todos em stress. Ágil e imediatamente, pego no meu saco antiquímico. Que fazer agora? A ideia pela qual seja necessário explicar que é necessário rasgar o saco transparente que envolve o kit, é realmente qualquer coisa de... infantil. Em que situação, pergunto-me, sabendo que aquele kit pode salvar-me a vida, eu iria perder tempo a interrogar-me: "Que hei-de eu fazer com este saco que tem cá dentro tudo o que preciso para salvar a vida? Como aceder ao seu interior? É que o saco está selado e não tem aberturas. Se não tiver nas mãos o que o saco tem lá dentro, irei morrer. Por que não fizeram umas aberturas neste saco de plástico para que eu pudesse ter na minha mão o que o saco tem lá dentro?"

 

Também há aquele poema do Bertold Brecht que diz que eu sou um idiota. Sempre o tomei pessoalmente, à letra.

 

Hoje, sozinho em casa, fui experimentar aquecer uma lasanha pré-feita no forno. Fui ler as instruções para forno tradicional. “Retirar a folha que cobre a forma transparente e retirar a forma preta”. Retirei a película transparente e a forma preta onde vinha a lasanha. Fiquei com a lasanha congelada nas mãos e continuei a ler: “Em seguida, aquecer a forma preta”.

 

Invadiu-me um retemperador contentamento. Não sou o único idiota deste mundo.

 

 

 

 

publicado por Rui Correia às 15:35
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1 comentário:
De Lúcio a 16 de Novembro de 2012 às 19:23
Hilariante! Melhor que a do apreciador de bananas que nas mesmas apenas lamentava o descomunal tamanho do caroço...

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