Sexta-feira, 26 de Outubro de 2012

A chama de Schama

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Controverso mas não polémico, Simon Schama é, com possibilidade de errar, o mais conhecido historiador inglês. Contesta-se-lhe o interseccionismo histórico que lhe permite vaguear entre épocas incomparáveis e deambular entre a micro e a macro história sem o menor pudor. Há quem chame a isto irresponsabilidade metodológica e depois há aqueles que, como eu, gostam de tudo isso. Pelo que este discurso necessariamente tem de adogmático e, por isso apenas, de humanista.

 

Mas não apenas por isso. Porque o distanciamento histórico, esse mito, pressupõe a possibilidade de elaborar discursos desprovidos da tentação ideológica ou, mais incredível ainda, egocêntrica. Petulâncias de grandeza, acredito-o. Schama tenta capturar a narrativa histórica em tempo real. O ontem, aqui e agora, como se apenas isso, o presente, importasse. E creio ser essa a principal razão da minha atracção antiga por esta abordagem. Pela história, de resto.

 

Porque sempre desconfiei daquela frase, sentença mesmo, que se aprende nos bancos de escola e que nos adverte que o passado serve para explicar o presente. Tive sempre para mim que a coisa funciona ao contrário. Mais do que ser o passado a explicar o presente, é o presente que explica o passado. Nenhuma narrativa sobre o passado é possível sem a constrição produtora do que sabemos sobre o presente. Só a partir da nossa experiência é que olhamos o passado. Todo o verbo no passado é conjugado no presente. Daí se parte.

 

Daí a invulnerável falibilidade do passado. Creio que o mais que podemos almejar em matéria de conhecimento histórico é o de não defraudar o presente e depauperar tudo quanto somos presencialmente na averiguação de tudo quanto nos antecede. O documentário - resultado de um livro - "O futuro da América", que ontem passou na sempre honrosa e nem sempre maçadora rtp2, representa bem este virtuosismo narrativo entre épocas históricas e dimensões historiográficas de Simon Schama.

 

Mas a linguagem, senhores... A qualidade imaginativa e criadora da linguagem do historiador é um prazer absoluto. A rendição à comoção desdramatizada, avessa ao pathos mas com o humor e a gravidade solene que devem ter-se quando falamos de coisas realmente sérias da vida. Perspicácia vivaz e documentação criteriosa tornam este trabalho um exercício de limpeza metodológica e de indesmentível serventia intelectual. Um prazer acessível a todos.

publicado por Rui Correia às 11:47
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