Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2012

Petição

Acabo de sair de uma assembleia popular que, sei com completa segurança, foi convocada com a maior lisura e preparo apartidário. Pediram-me que "limpasse" um texto para uma petição colectiva. O texto que recebera - 30 minutos antes da reunião - era tão incendiário que a única coisa que lhe pude fazer foi inculcar-lhe um dramático e insuficiente tonedown, depois de ter protestado - por escrito - contra aquela redacção.

 

Imagine-se, pois, o meu estado de espírito quando me pediram que a lesse em público.

 

Como se impunha, a coisa ficou bem melhor depois de confirmada a necessidade de ser ainda mais "limpa" a petição. Juntei um grupo de amigos médicos e tudo se fez da melhor forma.

 

Mas algo do que mais me impressionou nesta assembleia popular foi a extraordinária incapacidade que as pessoas têm para se ouvir umas às outras. Uns acham que aquilo é tudo gente doida, outros habitam complexos prisionais de perseguição político-partidária, outros acham que este e aquele nunca deveriam ter sido permitidos falar, outros ladram indignidades vindas de uma profunda ignorância prosélita, outros ficam calados à espera de recato confortável para melhor condenar tudo quanto se faz, sobretudo se não for feito por si, ainda que não façam nada mais do que isso mesmo.

 

No meio de uma iniciativa destas surgem, porém, luzes que iluminam tudo o mais. Apreciei especialmente todas as - pouquíssimas - pessoas que se esforçaram por garantir que nenhuma tónica partidária macularia a intenção estritamente cívica da indignação. Apreciei especialmente o facto de esta censura ter vindo de um homem do teatro e de uma militante do partido socialista.

 

Saí de alma cheia, porque devo - todos devemos, creio -  apenas guardar o que vale a pena guardar e ignorar tudo o mais. Estou muito contente com o resultado, que é verdadeiramente o que importa. Uma petição que me honro de ter ajudado a escrever e que permite lutar com sensatez por uma ambição que é justa e que, ainda antes da convocação desta assembleia, me levara a distribuir centenas de panfletos na rua, ocasião privilegiada em que pude conversar com tantos concidadãos na rua.

 

Temos razão. Precisamos de nos saber ouvir. É isso que mais falta faz hoje em dia.

 

A petição é esta:

 

Ex.ma Senhora Presidente da Assembleia da República

 

Para defesa dos direitos dos cidadãos, no âmbito dos cuidados de saúde, apresenta-se a seguinte petição colectiva, nos termos previsto na Constituição e na Lei nº 43/90, de 10 de Agosto, alterada pela Lei nº 6/93 de 1 de Março e pela Lei nº 15/2003 de 4 de Junho e pela Lei nº 45/07, de 24 de Agosto.

 

Pretende o Governo reestruturar as unidades hospitalares do Oeste (CHON e Centro Hospitalar de Torres Vedras), retirando ao Hospital Distrital das Caldas da Rainha especialidades médicas e cirúrgicas, integrando-o numa nova entidade, designada Centro Hospitalar do Oeste.

 

A população dos concelhos da actual área de influência do CHON não pode permitir que tal aconteça.

 

Não se concebe nem se compreende, sobre tudo o mais, a transferência de serviços clínicos, deslocados do Hospital das Caldas da Rainha para o Hospital de Torres Vedras, quando este se encontra situado na proximidade (a 15 minutos de distância), na área de influência do novo Hospital de Loures e, no futuro, do novo Hospital de Vila Franca de Xira.

 

Não é admissível desdenhar o longo histórico de uma unidade médica que é considerada de referência para todos os profissionais que ali trabalham e trabalharam.

 

Retirar às populações abrangidas pelo CHON (229 mil habitantes, de acordo com a portaria 83/2009 de 23 de Janeiro) cuidados de saúde que custaram muitos anos a consolidar e legitimar é algo que não pode ser aceite, especialmente porque contraria as reiteradas expectativas criadas por inúmeras e recorrentes promessas dos governantes ao longo dos anos.

 

Os subscritores peticionam colectivamente, atentos os indicadores de saúde e a racionalização lógica dos cuidados de saúde:

 

A manutenção de uma Urgência médica-cirúrgica nas Caldas da Rainha.

A manutenção das valências existentes no Hospital Distrital das Caldas da Rainha, nomeadamente as necessárias ao funcionamento da Urgência médico-cirúrgica.

A manutenção das Valências que se articulam com a actividade termal, mormente a reumatologia, a medicina física e de reabilitação e otorrinolaringologia.

A manutenção do conselho de Administração do Centro Hospitalar do Oeste, nas instalações das Caldas da Rainha.

 

Este é um imperativo de todos pela sustentabilidade do futuro da região, sob o ponto de vista socio-económico e em particular dos cuidados de saúde hospitalares. Temos de merecer o respeito dos nossos filhos.

 

Os subscritores da petição

 

Precisamos de nos saber ouvir. Ter humildade. Resultarão coisas melhores sempre que assim se aja. Foi uma boa noite. Dia 24 vamos abraçar o hospital. Vai ser um gesto bom. Para todos. Mesmo os que...

publicado por Rui Correia às 01:51
link deste artigo | comentar | favorito

pesquisa

 

arquivo

nós

Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
31

t&d
t&d