Domingo, 22 de Janeiro de 2012

Memória


 

Em Novembro de 2005, o dia 27 de Janeiro foi proclamado pelas Nações Unidas “Dia Internacional de Comemoração em Memória das Vítimas do Holocausto”. Sessenta e sete anos depois da libertação dos campos de extermínio e de concentração nazi, os alunos e professores do 9º ano de escolaridade da escola básica integrada de Sto Onofre associam-se a essa comemoração.

 

Judeus, prisioneiros de guerra, homossexuais, prisioneiros políticos, testemunhas de Jeová, deficientes físicos e mentais, entre 1942 e 1945 o Estado nazi colocou toda a sua máquina burocrática ao serviço de uma industrialização da morte dos chamados “indesejáveis”. Mesmo nos momentos em que a guerra se revelou impossível de vencer, a obstinação de executar milhares de pessoas nunca foi suspensa. Mesmo na fuga, nas terríveis “marchas da morte” (entre Outubro de 1944 e Abril de 1945) foram executadas centenas de pessoas incapazes de dar mais um passo por fome, cansaço ou doença.

 

Nada nos prepara para as imagens que nos ficam da vida nestes campos de prisioneiros. Muitas das fotografias, filmagens, todos os milhares de testemunhos que hoje possuímos, devidamente preservados para sempre, revelam-nos uma única conclusão: o homem nazi reinventara o inferno na terra.

 

Fuzilamentos, enforcamentos, exaustão, injecção letal, fome, tifo ou câmaras de gás pertenciam ao quotidiano bárbaro destes homens, mulheres e crianças.

 

Com risco da sua própria vida, num lugar de selvagem atrocidade, desenhar ou pintar eram razões mais do que suficientes para a execução ali mesmo no lugar. Mesmo assim, pequenos desenhos continuaram a ser feitos por mãos trémulas, às escondidas, em papéis roubados aqui e ali, com pequenos lápis de carvão surripiados, ou com carvão e penas de aves.

 

De tudo o que poderia ser invocado para recordar a imponente máquina de execução nazi, decidimos escolher um pequeno desenho, encontrado em Auschwitz, feito num cartão, clandestinamente em 1943 por Mieczyslaw Koscielniak, um estudante de pintura. Decidimos ampliar, engrandecer, magnificar, não apenas um desenho, mas um gesto.

 

É um esboço muito rápido, registando uma situação frequente em Auschwitz, o transporte de cadáveres. Mas é muito mais do que isso.

 

Num mundo onde desenhar se transforma num acto de heroísmo e de resistência, quisemos com este gesto significar que, de tudo o que pode ser dito sobre o horror nazi, o mais fundamental é lembrar aquele momento solitário de um prisioneiro que sabe que arrisca a sua vida apenas por desenhar.

 

E que, visto do céu, todo o gigantesco campo de extermínio (Vernichtungslager) Auschwitz é minúsculo quando comparado com a vontade humana, furtiva e imortal, de traçar um pequeno desenho.

 

E que, apesar de todos os horrores, de todas as atrocidades cometidas nesse lugar, é apenas de um diminuto e corajoso desenho, de uma semente de humanidade, que os jovens e os professores falarão, recordarão e homenagearão sessenta e sete anos depois.

publicado por Rui Correia às 13:54
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1 comentário:
De fj a 23 de Janeiro de 2012 às 12:43
e depois, por coincidência, há isto:
http://mercadoengenheirosilva.blogspot.com/2012/01/sketchbook-from-auschwitz.html

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