Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2011

absentismo violento

Tem vindo a tornar-se claro que a nova direcção do partido socialista não consegue definir a identidade reformista que a elegeu. Não sendo militante socialista mas próximo que estou de muitos militantes socialistas das Caldas da Rainha, é perceptível que está quebrado o momentum de esperança que foi confiado, ainda por cima, a um dos amigos desta concelhia, desta federação. Crescentemente, vejo assumirem-se posições de frontal divergência perante a improcedência e mesmo a irrelevância das posições assumidas pelo secretário geral. Sendo esta uma concelhia que tradicionalmente privilegia a franja mais esquerdista do PS, este desconforto é patente.

 

Recordo um parágrafo fundamental proferido por António José Seguro, no momento em que vencera as eleições para Secretário Geral do Partido: "A vitória de hoje é a vitória do PS. Trata-se de uma escolha clara e inequívoca para iniciar o novo ciclo, um ciclo de mudança, no interior do PS e em Portugal. (...) Estou aqui para somar, para unir, assumindo por inteiro toda a história e todo o património do PS. Assumo os momentos felizes e menos felizes da nossa história, na certeza de que o futuro será melhor se aprendermos com os erros do passado."

 

Numa frase: esperava-se uma viragem determinada à esquerda.

 

Esperava-se uma assunção dos erros clamorosos e uma assunção das vitórias do passado. Esperava-se um ressurgimento do ideário do socialismo democrático, da verve republicana e da veemência ética: o retorno à escola pública e à afirmação das autonomias e à emancipação dos modelos de gestão, à defesa estrénua do sistema nacional de saúde, a uma acção social humanizadora e pragmaticamente solidária, à regionalização, à premência da cultura como factor de riqueza e emprego, à eficiência e simplificação do ordenamento administrativo, ao investimento na rede energética renovável, ao reforço da equidade e da inovação nos transportes públicos, a afirmação de um sistema de regulação da gestão pública, da responsabilização por gestão danosa e rigor penalizador, radical, perante a iniquidade fiscal.

 

Esperava-se uma reacção patriótica perante um orçamento geral do Estado, cuja orientação de voto é publicitada antes de qualquer negociação. Esperava-se um acolhimento de uma opinião pública indignada que precisa de um socialismo responsável e que tenha a coragem de cortar a eito. Um socialismo corajoso e solitário. Ao invés, temos uma sucessão errática de abstenções violentas.

 

Em época de incertezas há que saber comunicar com clareza. Comunicacionalmente, não se compreende o que é uma abstenção violenta. Mas não é impossível saber por que razão a abstenção foi violenta. Foi violenta para os militantes socialistas que a não compreendem, nem no modo nem no tempo. Aquela abstenção violenta-nos a todos.

 

Muitíssimo bem nas críticas dirigidas à intenção sancionatória e prisional do eixo Berlim-Paris, o Secretário Geral do PS teve o seu melhor momento até hoje quando condenou as lideranças dos restantes países do Euro que parecem letárgicas, num coma silente, perante o descalabro dos seus interesses nacionais, reféns de um directório que nem sequer finge não existir e que torna o presidente do Conselho Europeu um títere, um estafeta.

 

O caminho é esse. Mas é curto.

 

Mais: Portugal, não obstante, continua a existir e não se compreende que, no preciso momento em que se impunha que a nova direcção do PS se fizesse afirmar com novas caras, novas eloquências e novas empatias, aquilo que vemos é uma descaracterização identitária do novo PS, e uma constante presença de antigos ministros de Sócrates que se não furtam a comentar, mediática e diariamente, o que fazem os seus actuais sucessores. Desta forma, por mais críticos que queiram ser, aquilo que vemos é uma continuidade de um anterior PS que, sendo pretérito, continua activo e presente. É um absurdo que os ex-ministros de Sócrates sejam, mediaticamente, a face visível do "novo PS". Tal estratégia apenas impõe uma suicidária colagem do PS (velho ou novo, torna-se irrelevante) às opções iníquas e invertebradas que este governo PSD-CDS vem tomando.

 

A melhor coisa que o PS pode fazer é apresentar novos discursos, novas adesões, novas agendas, novas caras e novos méritos. Sair à rua e apear-se. Descer avenidas e empunhar os novos cartazes, consubstanciar um novo arco do poder. Estar junto das pessoas. Confiar-lhes a mão nem que fosse para uma salvífica palmatória.

 

A pior coisa que o PS pode fazer hoje é continuar a dar visibilidade a ex-governantes que todos identificamos com um passado, com uma herança de crise e de desemprego, cuja responsabilidade a direita se esforça por assacar em exclusivo ao Partido Socialista.

 

Ex-governantes que, reconhecidamente, não fazem mais do que acentuar junto do eleitorado o pior dos passados que António José Seguro, ao invés de "assumir" deveria "ultrapassar". Que é, afinal, aquilo que quem o elegeu dele mais esperava.

publicado por Rui Correia às 13:33
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