Terça-feira, 22 de Novembro de 2011

O parque dos escondidos

Multiplicam-se até à estafa nas diversas subculturas mediáticas, impressas ou telemáticas, que hoje amamentam todo o tipo de frustrações, esperanças e cinismos, os relatos de corrupção e de violação da equidade democrática. Inimputáveis, forjadas e apócrifas na esmagadora maioria dos casos, todas estas denúncias constituem normalmente uma violação grosseira dos valores civilizacionais mais importantes da carta dos direitos humanos, nomeadamente, o de se crer inocente alguém que não seja condenado por quem de Direito.

 

Nas redes telemáticas, perante a incrível proliferação de tribunas, já todas se anulam na voracidade da delação improcedente, aumentando o grau de frustração de todos. Mesmo dos próprios delatores que percebem que da sua acção resulta uma mão cheia de nada. Não conheço um único processo judicial que se tenha iniciado com denúncias em redes sociais e que tenha sido procedente em matéria de corrupção. Há mais de vinte anos que habito o esférico universo das redes sociais. Durante anos fui residente diário, muito antes ainda de lhes ser dada essa designação. Conheço-lhes bem as manias, as possibilidades e o que possuem de anestésico para a acção política livre e responsabilizada.

 

Condenar longe dos tribunais este ou aquele e assim imolar na praça pública quem ao longe nos parece culpado é um acto de vandalismo cívico e não de arrojo. Não é verdadeiramente uma denúncia, porque não é feita em nome próprio aos órgãos competentes. É, meramente, é a fruição soez da inimputabilidade anónima. É ouvir falar das coisas, não as avaliar ou documentar, nem sequer cruzar qualquer informação, nem querer saber por que razão alguém a lançou para reprodução em cadeia e relançá-la na opinião pública sem mais contemplações. Trata-se de uma deplorável forma de vigilantismo confortável, preguiçoso e inimputável que ofende os valores essenciais de uma democracia capaz. Naturalmente, todo este afã delator vem sempre agasalhado de indignações várias e empertigados dedos indicadores.

 

O resultado prático deste abuso é o oposto do que se pretende. O resultado é a trivialização da denúncia das práticas corruptivas. O constante bombardeamento de verdades encharcadas de mentiras, este ensopado de meros erros casuais com enormíssimos erros judiciais impede-nos de conhecer o que quer que seja. Misturando tudo num caldo inextrincável de informação desconexa, tudo se há-de engolir sem se distinguir o paladar da verdade. É de manipulação mediática que falamos. A verdade mais fundamentada, quase sempre ausente destas correntes denunciantes, mistura-se com a falsidade soez e interessada, insondável nos seus desígnios originais. O resultado é não distinguir uma de outra, que é o epítome de toda a difamação. Sobretudo, trata-se do sequestro do direito à inocência.

 

Importa encontrar o fio de uma meada tão prolixa. Não parece estar a ser fácil suster a abstinência de denunciar quem legitime a justificadíssima frustração que todos sentimos e devemos sentir perante a usurpação grosseira da equidade. A equidade tem de constituir o Norte magnético de um cidadão. Não é aceitável a um cidadão e menos ainda a um político que ignore esta pulsão que hoje se testemunha nas redes mediáticas informais e nas ruas. Existe uma enorme propensão para a delação pública, infundamentada, mesmo que isso represente enveredar por práticas antidemocráticas de acusação improcedente, tudo, evidentemente, em nome da democracia. Fazer da opinião pública, velada e anónima, o púlpito sumário de condenação.

 

O célebre Speaker’s Corner de Hyde Park nascera no século XIX para que alguém que quisesse denunciar outrem o pudesse fazer, dando a cara e fazendo-o em liberdade, sem o risco de ser preso por isso. Diga-se que tal alforria nem sempre era garantida. A polícia tinha ordens para ser tolerante, até ao momento em que alguém usasse palavrões. Actualmente, as redes sociais são uma espécie de Hyde Park invertido: um hide parque - o parque dos escondidos. O lugar onde tudo se diz, mas no quentinho anonimato da irresponsabilização, onde tudo o que releva não passa de citação de um imprescrutável outrem.

 

Por cá as tribunas públicas procuram encontrar o seu lugar. Não parecem estar a ter grande sucesso. Não apenas são habitadas por meia dúzia de pessoas, como as coisas que por lá se dizem não tem qualquer validade prossecutória ou judicial. É conhecido desde que existem comunidades: toda a sociedade precisa das suas válvulas de escape. Não se minimize a importância dos fenómenos de massas e perceba-se a sua relevância para escoar frustrações estúpidas ou explosões sociais exorbitantes. São, também, fenómenos altamente vocacionados para a anestesia colectiva. São instrumentais para o propósito de desviar atenções. Evasão do real, no melhor e no pior sentido.

 

Cada uma destas denúncias só ocorre porque existe um desprestígio e uma desconfiança colectiva nos poderes judiciais. A morosidade kafkiana e a frieza processual que exalta a plutocracia na justiça, fazem crer que a inocência compra-se. E isso é ultrajante para um democrata.

 

É aqui que os partidos políticos devem fazer incidir a sua atenção e o seu desempenho social. Um partido político é um clube de pessoas que se encontram próximas na sua visão do que deve ser a forma de governo de uma comunidade. Deve ser, antes de mais uma escola de política. E deve abrir-se à comunidade para debater política. Por todo o lado, os partidos devem criar assembleias informais, tertúlias, de discussão de ideias. Abertas a todos, sem convite. À semelhança dos clubes políticos setecentistas. Clubes onde quem não sabia ler ouvia os que sabiam, para depois saberem melhor aquilo que dizem.

 

Um partido, todo o partido tem essa responsabilidade. Fazer com que as pessoas saibam melhor aquilo que dizem. Que tenham mais cuidado com aquilo que dizem. Isso é que é a liberdade. Isso é que é a política. Práticas de responsabilização individual. Pôr as pessoas a pensar, a discutir. E praticamente hoje não existe esse exercício de discussão política, pública e livre.

 

Sem lugar para ocupar, surgem, neste espaço vazio, as marchas de “indignados”, operações comunicacionalmente silentes, face à pulverização de mensagens e de razões para a indignação que as motivam. A manipulação destas demonstrações populares de milhares de pessoas tem sido notória. Os media conservadores esforçam-se por dar uma certa percepção do que é este movimento. As televisões esforçam-se por apenas dar a conhecer as posições folclóricas, extravagantes e mesmo absurdas de alguns dos manifestantes. Coisas como “acabar com toda a classe política”, “retirar todo o dinheiro dos bancos” ou “Nós somos os 99%” são expressões muito conhecidas e que servem um propósito de depreciar os manifestantes. (Por exemplo, nisto dos 99% basta ver quem são os accionistas das empresas para se perceber que um deles é o nosso vizinho do lado, alguém que nem sequer usa fraque, cartola e charuto). Afinal, quanto mais extremistas forem os indignados, os ocupantes, mais intolerantes seremos todos com esta gente. E, no entanto, quando nos juntamos a estas manifestações vemos por ali muita gente que sabe, precisa e serenamente, por que razão ali está. O movimento occupy é bastante sólido nos seus fundamentos e deve ser muito bem pensado e acolhido pelos partidos políticos. Especialmente os que se encontram no arco do poder.

 

Cada vez mais se ouve, de novo, as pessoas a dizer que “aqui não falamos de política”. Pois, é não só preciso falar de política, mas é indispensável fazer política. O objectivo das assembleias, das tertúlias políticas não pode ser o de arranjar mais militantes para o partido. O objectivo dessas discussões de ideias é o de permitir que haja lugares na cidade, na aldeia, onde as ideias sejam acolhidas na sua multiplicidade e na sua disparidade. Tertúlias que se não convertam em comícios. Onde cada um saiba conter-se no tempo de prelecção que lhe é facultado. Onde não haja convidados especiais. Onde todos vão por seu livre arbítrio, em liberdade.

 

Reuniões que saibam conter-se na sua dimensão reflexiva. Mas que sirvam para alguma coisa.

 

Que se elaborem textos relatores que sejam remetidos a todas as forças políticas no poder local, partidário, regional, nacional.

Que se traduzam esses textos.

Que se constituam comissões de relatores para entregar em mão algumas conclusões operativas, nomeadamente no que diz respeito à organização dos partidos e às posições tomadas por todos os partidos.

Que se publiquem cadernos de pedagogia política. Acessíveis na linguagem e na sofisticação.

Que se distribuam panfletos pelas ruas, pelas associações, pelas feiras.

Que se agite politicamente a comunidade.

Que se imponham os exemplos de gente que se não vende.

Que se ocupem os lugares institucionais de participação política, como as assembleias de freguesia e municipais.

Que se desocupe o conforto do lar ou da luz eléctrica de um computador e se ocupe o desconforto do debate político.

Que se não distinga civismo de política. O conceito de cidadania tem servido de porto a todos quantos temem ser políticos. Não é um porto. É um beco sem saída. Entregar um prato de sopa a um mendigo é fazer política. Não existe cidadania sem política. É um eufemismo pusilânime. Chegou-se ao ponto de ser prestigiante estar fora da política para fazer… cidadania.

 

Em todo o caso, não nos distraiamos: a única forma de acabar com a crise nacional e internacional, financeira e tudo, é vencendo eleições locais. Distinguir onde se encontram os entraves ao progresso e à democracia e combatê-los activa e pessoalmente in loco, in persona, in momentum. Se isso não passar pelos partidos, passa pelas ruas. A vantagem disto é, historicamente, nenhuma.

publicado por Rui Correia às 17:07
link deste artigo | comentar | favorito
4 comentários:
De Cão a 28 de Novembro de 2011 às 11:57
Queres brincar às escondidas, queres?
Agora que o "senhor" Vara (só o escrever o nome provoca-me asco) está a ser ouvido no processo dos robalos que isto vos estimule a memória.




Dr. PINTO MONTEIRO, olhe para BERARDO & capitalismo xico-esperto

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

8:08 Quinta feira, 22 de setembro de 2011








O dr. PINTO MONTEIRO, esse homem fatal e atento, acha que há indícios de crime nas contas da Madeira.
Pois claro, dr. PINTO MONTEIRO.

E, já agora, outra perguntinha: se há indícios de crime na Madeira, não existe nada nas conta do BCP/CGD/BERARDO/VARA?

A CGD - o banco estatal português (isto é, meu e seu) e que deveria usar as escassas poupanças dos portugueses no fomento da nossa produção - gastou centenas de milhões de euros para financiar investidores privados para que estes tivessem a possibilidade de fazer uma OPA silenciosa sobre outro banco, o BCP.

Um único indivíduo, um senhor que se veste à zorro, obteve da CGD uns míseros 360 milhões de euros para comprar quase 5% do BCP. E sabe o que é notável? Este zorro da África do Sul, o JOHNNY BERARDO, deu como garantia à CGD as próprias acções que comprou. Não é um esquema notável?
Se as coisas corressem bem, o JOHNNY vendia as acções e metia o lucro no seu bolso, sem nunca arriscar um cêntimo do seu próprio dinheiro. Se tudo corresse mal, quem se lixava era a própria CGD e os contribuintes (eu e V. Exa.). Parece que a realidade optou pela segunda hipótese. Consequências deste capitalismo xico esperto? Ainda não vi nada.

Mas sabe uma coisa, meu caro Procurador? O esquema não acaba aqui. Uma vez dentro do BCP, BERARDO foi fundamental para a OPA agressiva ao BCP feita pela CGD.

E sabe quem foi para direcção do BCP? Pois, já adivinhou: os administradores da CGD que deram a BERARDO os 360 milhões, SANTOS FERREIRA e o omnipresente ARMANDO VARA.
Agora diga-me uma coisa: em todas as nossas leis, as mais perfeitas do mundo e arredores, não existirá uma alínea que justifique uma investigação a este caso?
De Cão a 28 de Novembro de 2011 às 11:58
Isto, naturalmente, não é meu: apareceu-me no correio. Mas.
De Rui a 28 de Novembro de 2011 às 14:18
Força, força camarada Asco. Também recebi, entre três mil outros. Também o tenho. Ao asco, que isso não é exclusivo - infelizmente, de ninguém.
De Rui a 28 de Novembro de 2011 às 14:20
Mas.

Comentar post

pesquisa

 

arquivo

nós

Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
31

t&d
t&d