Quinta-feira, 20 de Outubro de 2011

A casa dos segredos da avaliação de professores

A coisa funciona assim. Um professor é avaliado, com aulas observadas, registos de desempenho devidamente documentados, em respeito integral com as disposições legais para a avaliação de professores. O professor relator entrega-se, como lhe compete, à escrupulosa avaliação do docente. Findo todo o processo de dois anos, decide atribuir-lhe, imagine-se, 8. Ou 9. Ou mesmo 10. Escolhamos o caso mais revelador: 10. O avaliando tem 10. O avaliador entrega, como lhe compete, o resultado da sua avaliação à comissão de avaliação.

 

E então o disparate começa a ficar mesmo perturbador.

Quando esta reúne para ratificar a decisão do relator, é imediatamente obrigada a alterar as informações fornecidas por quem avaliou, apenas porque, informaticamente, não pode lançar mais "excelentes". Ou seja, um professor que teve nota 10, verá a sua avaliação modificada para um valor fictício, apenas para que não surja a menção "excelente", mas sim a menção "bom", para desta forma se poder respeitar o cômputo autorizado de quotas de 5%.

 

E, de repente, alguém diz que o problema está na aplicação informática. Pois é. Não está. Nenhuma aplicação informática se faz a si mesma. Preside-lhe um algoritmo que é estabelecido não pelo informático, mas pelo gestor ministerial. Não se pode aceitar que uma comissão aceite alterar artificialmente e sem critério a nota de 10 para 7,9, sem saber explicar por que razão essa nota, e não outra qualquer, passa a ser o registo oficial do desempenho de um docente, que tem deste modo uma classificação que nenhum avaliador alguma vez lhe atribuiu.

 

Concretizando, esta prática é nada menos do que fraudulenta e significa que um professor que teve uma avaliação de "excelente" observada no terreno, nem sequer pode ter no seu registo o resultado da sua avaliação real. Passa a ter 7,9 em vez de 10, apenas porque a aplicação informática não aceita a informação que realmente corresponde à avaliação concreta e verdadeira que lhe foi atribuída por quem a lei exige que seja o seu avaliador durante dois anos de desempenho. Pelo contrário, exige-se à comissão de avaliação que modifique conscientemente os valores fornecidos pelo avaliador, dados que, simplesmente, deixam de existir. O seu trabalho e o do avaliando são completamente improcedentes. São alterados sem autorização e sem nenhum critério que não seja o de existir um aplicação informática que não permite que haja avaliados com informação quantitativa de 10 e qualitativa de "bom".

 

Trata-se, pois, de algo de estratosférico. 

 

Mais. Não satisfeita com este falseamento consciente das classificações dos avaliadores e com a improcedência completa do trabalho dos relatores e avaliandos, surge a estapafúrdia questão das quotas. 5% de "excelentes" por grupos de avaliados, que muitas vezes há-de corresponder a grupos disciplinares. Isto significa que, em grupos que tenham 3 professores, 5% de 3 equivalha a 0,15. Como a lei exige que se arredonde este valor à unidade mais próxima, o resultado é simples de ver: nenhum professor desse grupo alguma vez poderá ascender à classificação de "excelente". Faça ou seja ele o que fizer ou fôr. Nunca terá ou será "excelente" aquele professor que pertença a um grupo disciplinar com reduzido número de docentes.

 

Mais. Num grupo como o de evt onde existe, e bem, o sistema de par pedagógico, será possível para os seus docentes atingir a menção de "excelente", simplesmente porque têm o dobro de professores daquela outra disciplina que, tendo o mesmo número de horas que evt tem, apenas conta com metade dos docentes para a leccionar.

 

Mais. Em escolas cujo número de alunos esteja a descer, as necessidades de docentes vão também reduzir, o que faz com que o número de professores necessário reduza também, o que provoca a diminuição de possibilidades de atingir a menção de excelente.

 

Mais. A reforma curricular que venha a diminuir o número de horas semanais a uma qualquer disciplina concorre abertamente para impedir objectivamente que os professores dessa disciplina, por serem em menor número face à redução de necessidades, possam atingir a menção de "excelente" e assim obter a desejada bonificação de um ano.

 

Ou seja, uma coisa é ignorar que os professores andam embrulhados com uma avaliação de desempenho que não tem efeitos rigorosamente nenhuns numa carreira que já congelou e não virá tão cedo a descongelar, tornando risíveis e nada menos do que isso todos os esforços ou voluntarismos de qualquer professor para corrigir ou para melhorar o que quer que seja dentro da sala de aula. Outra coisa diferente é perceber que o próprio sistema de avaliação impede que um professor, por melhor que seja, por mais que faça, consiga, ao menos ver no seu registo a verdadeira avaliação que lhe for atribuída pelo seu avaliador.

 

O mais certo é que depois de toda a sua "excelência", acabe por ver os seus colegas da comissão de avaliação a modificar-lhe, alpacamente, por razão nenhuma, as classificações que obteve no processo que atravessou ao longo de dois anos.

 

 

Fica a interrogação maior:

 

O que pensará o mais negligente dos professores de tudo isto? Como se apaga aquele sorriso que ele transporta todos os dias, sempre que pensa em avaliação, consciente de que a lei lhe confere tamanho grau de amnistia?

publicado por Rui Correia às 12:50
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9 comentários:
De Filomena Branco a 20 de Outubro de 2011 às 19:03
Está excelente, Rui! Penso, contudo, que este e outros casos idênticos deviam ser publicamente denunciados. Só assim poderemos, de uma vez por todas, e sem margens para equívocos, desmarcarar este estapafúrdio e disparatado modelo de avaliação e contribuir para resgatar a imagem do professor, calando, de uma vez por todas, aqueles que ainda ousam dizer que o que os professores não querem é ser avaliados.
De Mané a 20 de Outubro de 2011 às 22:43
Que reflexões pertinentes. Vou levar para divulgar.
De Sandra Amaral a 20 de Outubro de 2011 às 23:11
Como sempre... 5 estrelas! Hoje sentiu-se a humilhação e revolta de muitos, muitos e bons professores da nossa escola. Isto não pode ficar assim!!!
De Isabel a 21 de Outubro de 2011 às 07:40
Rui, isto é de facto um modelo que nada avalia, mas é-o desde o início e há gente que só agora deu conta disso.
De facto a CCAD não tem culpa de nada disto, como muito bem dizes. Só tenho um reparo, que nada retira ao conteúdo do teu post. É que as quotas não têm a ver com grupos disciplinares:

8 — As percentagens máximas previstas no presente despacho aplicam- -se, em cada agrupamento de escolas ou escola não agrupada, a cada um dos universos identificados nas quatro alíneas seguintes:
a) Docentes contratados;
b) Docentes integrados na carreira, incluindo os docentes em período probatório e os docentes avaliados através de ponderação curricular;
c) Relatores;
d) Docentes avaliados pelo director do agrupamento de escolas ou escola não agrupada ou pelo presidente da comissão administrativa provisória:
i) Coordenadores de estabelecimento; ii) Coordenador de departamento curricular; iii) Director de centro novas oportunidades, nos casos em que essa fun-
ção não seja exercida pelo director do agrupamento ou escola não agrupada; iv) Coordenador de centro novas oportunidades.
De Rui a 21 de Outubro de 2011 às 21:34
Isabel, infelizmente, tens razão, que uma coisa é o que a legislação, falha como esta é, indica que se faça. Outra coisa inteiramente diferente é o que anda a ser feito em várias escolas. O que aqui deixo é uma súmula de preocupações sobre "zelos" vários que estão neste momento em curso em muitas regiões do país, numa desordem nunca antes vista e que conduz a perplexidades ilícitas e indecorosas que conduzem a conclusões como as que aqui retiro. E outras que não me atrevo ainda a contar porque preciso apenas de conhecer um ou outro detalhe que me está a ser contado tim tim por tim tim e que é de bradar aos céus, envolvendo directores e vertigens de pequeno, podre poder.
De ricalvaro a 21 de Outubro de 2011 às 15:11
Rui, foi e é triste ver, pessoas, tratadas como simples numeros. Custa imenso ver colegas, que nós sabemos serem excelentes, que fazem um trabalho optimo, serem e terem a mesma classificação que outros menos excelentes. Qual a motivação para continuar a desenvolver um bom trabalho? Será que vale mesmo pedir aulas assistidas? Se pedirmos, tenhamos a esperança que seja num grupo grande. Este sistema não presta.
Abraço
Ricardo
De Lúcio a 21 de Outubro de 2011 às 17:39
Bem-vindo à Lusitânia, onde até a aritmética se subordina ao legislador.
De José B. Lança a 22 de Outubro de 2011 às 16:51
Excelente título e informação actualizada ao pormenor.
Parabéns.
De Nuno Tonelo a 24 de Outubro de 2011 às 08:35
O outro lado do problema é o facto de a ausência dessas cotas dar origem aos 83% de bons e muito bons no caso dos professores, 97%de bons e muito bons no caso dos juízes e magistrados e ao facto de uma pessoa que eu conheço que ao avaliar um subordinado na função publica com um 9.2 ter sido alvo de inquérito pois o “usual era o 9.9 ou o 9.8 e não fazer sentido irem agora mudar o que era tácito nos serviços”. Ainda foi ouvir em sede de inquérito que devia ter calma e fazer menos ondas ou o melhor seria voltar ás Estradas de Portugal que era o seu lugar de origem.

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