Sábado, 9 de Julho de 2011

Barretes

No final dos anos oitenta, eu e o fj reuníamo-nos em sua casa para chorar a rir com um programa de rádio, religiosamente seguido. Musonautas. A cultura musical do radialista Jorge Lima Barreto parecia-nos infinita. Mas a forma escolhida para no-la dar a conhecer era hilariante. O fj dava-lhe a devida importância. Eu nem por isso, confesso. Morri a rir vezes sem conta por causa da enorme atenção e cuidado com que lhe escutava os textos. Creio que nenhum autor de rádio me mereceu tanta atenção. Claro que no processo fui conhecendo coisas. Essa é que é essa. Mas confesso que o que me atraía ao Jorge Lima Barreto era aquele hermetismo inválido, snob e ininteligível da sua linguagem. Um filtro convicto para separar trigos e joios, certamente. Talvez por isso me merecesse o maior desdém. Um dia, combinámos eu e o fj, ir de propósito à fonoteca de Lisboa ouvir o homem que tantas noites hilariantes nos tinha proporcionado.

 

O evento não desiludiu.

 

Uma plateia horrivelmente homogénea, com jazzistas e mentecaptos intelecto puristas como eu e o fj que, se nos apetecesse também saberíamos ser, sentámo-nos a escutar a vedeta da noite e, soubemo-lo então, a última das predilecções de Jorge Lima Barreto: brain music.

 

(Num canto da sala o José Duarte dormia a sono solto)

 

Estivemos uns bons vinte minutos a escutar música feita a partir de uns sensores colados ao crânio de quatro ou cinco pessoas, sensores esses que activavam processadores de som que reagiam às mais ínfimas variações energéticas registadas. O resultado era aquele que se imagina. Uma soma desconexa de impulsos sonoros congregados numa “peça” indispensavelmente irrepetível.

 

No final havia espaço para o debate.

 

Estive para não dizer nada, como aliás quase todos os que ali estavam – uma boa parte absolutamente embriagados com a prédica. Por admiração e por educação, lembro-me distintamente do que lhe perguntei. Perguntei-lhe que valor passa a ter, tendo em conta a dignidade que se pretenia atribuir à “brain music”, a distinção da música como discurso artístico e como mester técnico. E repeti-lhe a mesma questão mas de outra forma. Como se enaltece o valor técnico de um músico, aceite que seja a propriedade artística destas despesas sonoras?  E voltei a repetir-lhe a mesma questão de mais uma forma. Se eu puser cinco pessoas em macas num palco, cada uma delas ligada intravenosamente com sensores de glóbulos brancos e ligar todas essas variações individuais a processadores de som, como posso eu, sendo uma delas, transformar-me num virtuoso?

 

A resposta de JLB foi tão inteligente como esperta como inútil. Alvorou ao assunto, reiterando o que ali o trazia: a indispensabilidade de esticar as gradações da tolerância ao que se designa por arte musical. Um exercício, reconheceu, intrinsecamente político e bastante menos de cariz musicológico.

 

Foi este o exercício que JLB perseguiu a sua vida toda e que, diga-se, justifica uma vida inteira. Deixa marcas incontroláveis na abertura de espírito dos seus admiradores. Enfiámos, todos, o barrete, sim. Ficam marcas, mesmo naqueles que, como eu e o fj, adorávamos convocar o JLB para chorar a rir. Uma vida inteira, cultíssima, que se justifica, sim, por mais curta que seja e por mais estúpida que seja a razão da sua injusta paragem.

publicado por Rui Correia às 23:06
link deste artigo | comentar | favorito
2 comentários:
De fj a 9 de Julho de 2011 às 23:33
o que eu já hoje o recordei! só não me lembrava já da tua pergunta, da resposta dele, e do josé duarte num canto a dormir.

ficou-me para sempre uma expressão dele que gosto de usar para encostar intelectuais à parede: “o jazz leucoderme”.
De Rui a 13 de Julho de 2011 às 00:50
É compreensível que, na ocasião, tu próprio tenhas atravessado o mesmíssimo anestesiamento do José Duarte. Eu é que sinto (como li hoje numa porta) um "avivamento de fé" quando ouço discursos como os do grandinorme JLB. Todo eu desperto. Leucodermices.

Comentar post

pesquisa

 

arquivo

nós

Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
31

t&d
t&d