Terça-feira, 5 de Julho de 2011

Amante

 

Falar sobre a importância da história na formação de um cidadão encerra em si mesma uma excentricidade tola. A história embebe de tal modo toda a existência e todo o quotidiano de toda a pessoa que nenhuma opinião é formulável sem que, por um lado, ou se atenda ao contexto que a situa, ou, por outro, se atenda ao contexto que situa o significado dessa mesma opinião.

 

Nos últimos anos, as diversas reformas curriculares preteriram esta disciplina. Diminuiram-lhe a relevância e deceparam-lhe toda a possibilidade de cumprir um longo e válido programa curricular. Ao escutar o actual ministro da educação a referir-se ao exemplo de Bento de Jesus Caraça e a ressalvar o valor da história como o cimento que está embutido na palavra conhecimento, fico à espera de saber se essa valorização da história passará, como o economês vocifera, por agregá-la a outra disciplina, como a geografia, e dessa forma confirmar a tendência de desdém pelo nosso passado que, com fundo pesar testemunhámos nos últimos anos.

 

Uma pergunta apenas pode dar o mote deste desprezo continuado. Lembram-se quando estudávamos história de Portugal no ensino básico e o secundário a privilegiava?

 

A história é uma amante escarnecida. Servimo-nos, ledos, para quando dela precisamos mas não leva anel no dedo, não é a nossa legítima. Diga-se e arengue-se o que se quiser. Use-se a história para ornamentar os feriados nacionais e efemérides patrióticas e eleitorais. Fale-se o que se quiser sobre o valor do passado para o presente e o futuro e venais banalidades.

 

Se não dermos tempo à história para que a história se aprenda, nunca faremos mais nada a não ser condenarmo-nos a repetir sempre a mesma história.

publicado por Rui Correia às 01:08
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3 comentários:
De luisa Pedro a 5 de Julho de 2011 às 13:15
Grande Rui! Grande texto!
Tens de te fazer ouvir, além do Blog.
Por mim, faço o que posso, passo o blog aos amigos e espero com isso? Nada. Só que despertem! Consciências? ou talvez não. Parabéns!
De Redes a 5 de Julho de 2011 às 15:58
É um belo texto, sem dúvida.
Acho também que a história é um campo demasiado amplo para poder ser anexado, fundido ou desprezado. A história não necessita da geografia porque a sua substância integra o espaço e o tempo. Na verdade, integra tudo o que é humano. O que é específico dela é a narrativa, o fio de um discurso que se faz de factos e assume, com nos ensinou Braudel, velocidades diferentes, consoante o aspeto da sociedade humana que é objeto: desde a história "estrutural", económica e social, à história dos factos políticos, institucional, das mentalidades, etc.
Não podemos esquecer o erro que foi a sua substituição no 1º ciclo por essa coisa abstrusa que se chama "Estudo do meio".
Penso que a ideia de Nuno Crato é a de uma simplificação do currículo, com menos disciplinas, mas não se trata nunca de tirar a história do mundo no 3º ciclo do ensino básico.
O "National Curriculum" inglês tentou diminuir o número de disciplinas e manteve as mesmas desde o jardim de infância até ao final da escolaridade básica.
A grande mudança é a recusa da especialização em árvore que caracteriza o nosso programa, em que o estudo do meio se especializa primeiro em história e geografia, por um lado, e ciências da natureza, por outro, no 2º ciclo, e em que estas se subdividem, depois, no 3º ciclo.
Pois uma das "foundation subjects" é "history" do 1º ao 9º ano, junto com inglês, matemática, geografia, ciência e outras. Só há especialização progressiva nos próprios conteúdos da disciplina e não na sua delimitação. Não há geologia, físico-química, biologia no currículo básico, mas estes conteúdos aparecem no interior da disciplina "science".
História, um saber incontornável!
De Cláudia a 6 de Julho de 2011 às 21:12
Se permite, sr. Rui se estas fossem as sua melhores preces estaria transformado o Destino em um corno.
Se bem ou, mau que a autofagia de uma cultura transparece com antecedência pela indisposição dos seus em seguir adiante.
Sintomas de quem deveria defender a pátria.

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