Terça-feira, 5 de Julho de 2011

Ajudas de custo

 

Custou, mas foi. Demorou anos até conseguir transformar uma escola afastada dos percursos educacionais tradicionais da cidade numa predilecção de todos. Criou-se um novo ponto focal educativo na cidade. Uma zona residencial carenciada tornava-se agora o lugar onde todos queriam fazer dirigir os seus filhos. Se necessário fosse, mentia-se na morada para que eles ali pudessem ter matrícula. Curiosamente, a forma de o conseguir foi integrando todos numa cultura de escola rigorosa, tolerante e ávida de aprender.

 

Estávamos no princípio da integração de jovens com deficiência no ensino regular. Fomos os primeiros a dizer que era um privilégio e uma oportunidade recebê-los. Uma responsabilidade. Aprendemos muito com isso.

 

Fomos os primeiros a criar uma variedade flexível e pragmática de construir currículos adaptados a jovens com dificuldades tão variegadas como concretas que a lei persistia em negligenciar. Aprendemos muito com isso.

 

Fomos os primeiros a receber, num momento em que Portugal se havia convertido em país de imigração, jovens de 25 nacionalidades em simultâneo. Aprendemos muito com isso.

 

Fomos os primeiros a ter no primeiro ciclo inglês, educação para as artes e educação física num projecto de articulação entre ciclos que esteve sempre literalmente dez anos à frente do país, que haveria de copiar este exemplo. Aprendemos muito com isso.

 

Fomos a escola com mais teses académicas dedicadas ao exemplo que fomos criando. Escola, alunos, professores, todos recebemos prémios em barda. Fomos muitas outras coisas.

 

Fomos, sobretudo felizes.

 

Ver esta mesma escola a constituir-se num enclave de jovens abandonados pelas famílias e pela própria escola. Ver as pessoas a mentir para que os seus filhos aqui não fiquem. Ver a população escolar a mirrar, a mirrar, ano após ano, sem que nada se faça para contrariar esta tendência. Ver esta mesma escola a constituir-se num enclave capital de desleixo, perante o silêncio colaborante de quem devia nunca resignar-se. Ver esta mesma escola a constituir-se num exemplo de constante desculpabilização e negligência, perante a placidez dos órgãos e das entidades que têm o dever institucional da indignação. Ver todos os dias alguém que reprime solitariamente a sua frustração atrás de lágrimas muitas, escondidas. Ouvir todos os dias algo que nunca se deveria ter passado. Saber todos os dias que ninguém se revê em nenhum dos seus dias.

 

E a escola lá prossegue o seu calvário. Só as paredes não caem, tudo colado com cuspo.

 

Como se testemunha isso, impavidamente? Como podemos nós dizer que esta não é a nossa escola, se nela vivemos todos os dias? Que tecto é aceitável para a nossa colectiva complacência? Mas, ao mesmo tempo, como se eleva tudo isto de novo? Que Sísifo se convoca para dar cobro a tanta esperança? Quem se atreveria a suportar novamente um encargo que, sabemo-lo hoje, pode ser depois tão ignara e torpemente desmantelado e escalavrado? Que ambição temos? Que projecto? Para quanto tempo? Um ano? Dois anos? Nada?

 

Como se pode restaurar a confiança numa escola que a desbaratou, ignorante e descarada, apenas para que este ou aquele escrevessem uma linha num currículo que ninguém vai ler, ou para que este ou aquele cumprissem um conveniente tempo de serviço, ou para que este ou aquele pudessem ver garantido um poleiro qualquer, ou para que este ou aquele pudessem finalmente sentir-se serpentear nesse vórtice onanista de poder avaliar os seus próprios colegas. Tanto de mal para tão pouco de nada.

 

Qual o limite de tanta indulgência dorida? Qual o propósito de tanta indignação? O que temos nós a ver com tudo isto. O que queremos ter nós a ver com tudo isto? 

 

A resposta, como habitualmente, a melhor e mais eloquente resposta, encontramo-la numa qualquer janela com vista para o recreio.

 

Primeiro custou, mas foi. Agora, custa, mas é.

Uma escola destas merece mais do que ajudas de cuspo.

publicado por Rui Correia às 00:09
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2 comentários:
De luisa Pedro a 5 de Julho de 2011 às 13:45
Fiquei de rastos!
Quando leio algo que me esmurra o estômago, fico não só sem ar, mas literalmente morta!
E esta escola são muitas escolas! São, a escola do meu filho, tantas vezes "ajudada a cuspo".
Parabéns! E obrigada.



De Mena a 10 de Julho de 2011 às 16:24
Genial!
Adoro ler-te!
Bj

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