Segunda-feira, 20 de Junho de 2011

desinfecção

 

Ao primeiro relance não me desagrada o nome do Nuno Crato como ministro da educação. Não é uma surpresa. Algumas semanas antes, havia-me sido asseverado o nome dele por um militante informado do CDS. O Paulo Guinote também o havia já sugerido. Nuno Crato sabe do que fala. Não me filio em muitas das suas ideias – congruentes, reconheça-se - sobre o ensino, que assentam num pendor aferidor que considero exagerado e que não é estrategicamente estruturante.

 

Mas tem ideias. Nunca se esquivou a publicá-las. São contestáveis. Mas desta vez temos alguém que as tem. O que para mim pessoalmente é um alívio enorme. Sejam elas controversas como sustentáveis. Creio, infelizmente, que o novo ministro não tem um apreço especial pela liberdade de ensinar, que associa quase proselitamente ao que chama o “romantismo do eduquês”. Ridiculariza a área de projecto, por exemplo, que é o último espaço de liberdade que alunos e professores dispunham para os seus próprios projectos.

 

Mas considero que poderá ser o perfil desejável para desarrumar, limpar e voltar a arrumar a casa, se souber perceber a dimensão da tarefa que tem entre mãos: pulverizar muitas ideias tontas por que hoje nos regemos. Aquelas que ele mesmo vem pulverizando, de há anos.

 

Assim de repente, se o Nuno Crato fizesse o que vem defendendo ao longo dos anos, os próximos tempos seriam assim:

  • Cada escola escolhe o seu modelo de gestão, sem abdicar da presença de um director.
  • A rede escolar “draconiza-se” ao limite, com mais encerramentos de escolas e reforço da vaga modernizadora dos equipamentos escolares. Parque escolar goes on.
  • A retenção de alunos praticamente se extingue, mercê do que Nuno Crato pensa ser a inutilidade pedagógica da repetição de anos lectivos.
  • O absentismo constituirá um importante factor de decisão do futuro escolar de um aluno.
  • A punição de um aluno incumpridor será simplificada e com maiores implicações no seu registo escolar.
  • Estruturas de apoio – curricular - a alunos com capacidades especiais (positivas e negativas) serão criadas.
  • Integração de alunos com deficiência no regime normal será sujeita a reavaliação.
  • Cada escola pode definir com maior desembaraço áreas curriculares adaptadas ao seu contexto escolar.
  • Todas as disciplinas são sujeitas a exames nacionais obrigando os professores a cumprir integralmente os seus programas.
  • Avaliação de professores é integralmente reformulada com a qualificação de uma classe externa de relatores pedagógicos a responsabilizar-se pelas observações de aulas e verificação de factores de desempenho profissional.
  • Todos os currículos disciplinares serão reformados, simplificados e com objectivos mensuráveis e verificáveis de aprendizagem.
  • Metas de aprendizagem quantificáveis e concretizadoras acabam com os perfis e competências.
  • Emagrecimento e desparasitação dos serviços do Ministério da Educação.
  • Reforço das práticas de estatística educativa.

 

É indispensável desinfectar este ministério, mas mais ainda, desparasitar o próprio sistema de ensino que está completamente inoperante e obstruído com tanto lixo. Tanto desperdício. Tanto resíduo. E, para mais, irreciclável.

 

Seria óptimo que Nuno Crato percebesse que existe lixo que é tão tóxico e indestrutível que não pode ser destruído. Precisa de ser tratado e confinado para sempre em locais de difícil acesso, tais como túneis escavados a quilómetros abaixo do solo.

 

Sabemos bem que muitas das ideias do novo ministro não se enquadram na visão esclerótica de uma direita populista. Vejamos quem ganha.

 

Sabemos bem que este é o ministério que melhor sabe como reduzir um ministro à sua insignificância. Vejamos quem ganha.

publicado por Rui Correia às 15:06
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