Sábado, 4 de Junho de 2011

homo electus - cockpit

 

As eleições são um facto domingueiro.

 

O facto infeliz de o meu avião partir justamente na madrugada no dia das eleições impede-me de votar. Sou, portanto, um abstencionista forçado, mesmo depois de ter lido tudo o que há para ler sobre o voto antecipado.

 

Em boa verdade, não creio que esteja assim tanta coisa em jogo, como muitos pretendem. Na realidade, quase todas as futuras decisões relevantes para Portugal deixaram de poder ser tomadas por portugueses.

 

A responsabilidade desta vergonha não foi exclusiva deste ou dos sucessivos governos que não souberam colocar em marcha um conjunto de reformas essenciais para a saúde do país. A responsabilidade foi, em meu entender, de cada um de nós, os eleitores. E tem uma data: 8 de Novembro de 1998. Regionalizar e racionalizar o mapa 'circunscricional' do país deveriam ter sido as prioridades estratégicas do volksgeist nacional, mas o volk recusou tudo isto em referendo por medos e fantasmas (geists) ancestrais. Falava-se de caciquismo e despesismo. Veja-se no que resultaram esses receios, esses atavismos. Confira-se a factura do centralismo.

 

Historicamente incapaz de reformas por poderosa inércia, o país conta agora com a humilhante ingerência estrangeira para fazer o que sozinhos não conseguimos fazer. Por isso me rio com as frases macho alfa que os actuais dirigentes de quase todos os partidos proferem, como quem realmente crê na sua intrínseca relevância.

 

Nestas eleições, quando consideramos os putativos candidatos a primeiro-ministro, o panorama é confrangedor. Somos eleitores à rasca.

 

Friamente, aquilo que temos entre mãos é um primeiro-ministro incapaz de reconhecer, patrioticamente, como aqui ao lado em Espanha, que se constituiu como parte do problema. Um primeiro-ministro prolificamente descredibilizado e furiosamente esquadrinhado por uma opinião pública ávida de insulto e uma comunidade colectiva tão incapaz de exigir como de assumir responsabilidades cívicas elementares (metade não vota, está tudo endividado até às gengivas, todos fogem ao fisco e ainda ontem se soube que meio milhão de portugueses não entregou a declaração de irs).

 

Temos um candidato a primeiro-ministro, fleumático e incauto, que acredita sinceramente ter-se tornado líder do seu próprio partido. Um homem que, sem profissão nem história pessoal de relevo (ainda há pouquíssimos anos queria ser uma espécie de Carlos Quintas), é alguém que representa o perfil perfeito do tipo de estadista que, na actual conjuntura financeira, o país menos precisa (não tem existência internacional, quando isso é indispensável. Não tem qualquer experiência governativa, quando uma profunda reforma institucional se impõe. É uma figura de terceira linha numa altura em que precisamos de quem domine, não apenas o seu partido, mas todo um governo de coligação, em regime de copilotagem).

 

Num panorama assim, força e liderança são buzzwords inúteis. Tretas. Ao país não lhe falta força. Falta trabalho. O país não precisa de dirigentes. Precisa de direcção. Não precisa de liderança. Precisa de autoridade, que é assim a modos que o mesmo que liderança, mas com as mangas arregaçadas.

 

Autoridade é credibilidade de exemplo em primeiro lugar. Nesse âmbito, por razões diversas, nenhum de nós tem escolha. A melhor prova deste drama é que se chega a falar seriamente do dirigente do CDS para chefe de governo. Sem rir. É por isso mesmo que é imprescindível votar ou, no meu caso, de ler tudo sobre voto antecipado.

 

Já me enganei muitas vezes antes, (espero que mais vezes do que as que me hei-de enganar), mas creio que o voto em branco há-de conhecer crescimento. E, como de costume, ninguém lhe vai dar a importância que tem. Creio que a abstenção vai descer. Os dias estão bonitos e existe um sentimento de urgência que trará gente às urnas.

 

Mas isto nunca se sabe.

 

O país segue e subtrai com lusa indiferença, que é aquele conhecido desmazelo resmungão que porá a governar Portugal alguém em quem Portugal não confia. Alguém sem autoridade.

 

Quando digo que Portugal precisa de autoridade quero com isso dizer que Portugal precisa de uma política de autor:

 

  • Uma aposta no projecto europeu.
  • Uma aposta na lusofonia.
  • Uma aposta obsessiva no mar como recurso energético, turístico e piscatório.
  • Uma aposta nos direitos de cidadania e intervenção cívica.
  • Uma aposta na natalidade.
  • Uma aposta na exportação.
  • Uma aposta na ciência como factor de identidade nacional.
  • Uma aposta obsessiva na extensão digital do acesso à informação.
  • Uma aposta na cultura como indústria.
  • Uma aposta na eficiência da burocracia.
  • Uma aposta na fiscalidade.
  • Uma aposta na intransigência ética para detentores dos cargos públicos.

 

E depois das últimas trovoadas que deitaram por terra três frágeis plantas de estufa, começar, Sísifos, tudo de novo, scilicet:

 

  • Decretar a bancarrota da justiça. Por insustentabilidade administrativa.
  • Decretar a bancarrota do municipalismo. Por insustentabilidade financeira.
  • Decretar a bancarrota da educação. Por insustentabilidade técnica.

 

Precisamos de gente com autoridade para fazer estas coisas e a anunciá-las nos seus programas. O que nos calha é um país entretido a sebastianizar-se, ao mesmo tempo que gosta de se ouvir dizer que não aceita cá sebastiões nenhuns.

 

Resumindo, num país que precisa urgentemente de levantar voo já no Domingo, o que é que temos em matéria de autoridade para o fazer descolar a quatro mãos?

 

Um dirigente que grita, já rouco, que o seu partido está unido. Outro que arenga, roufenho, que o seu partido está unido.

 

O que mais nos deve angustiar é que nenhum teria de dizer isso caso algum deles tivesse razão.

 

 

publicado por Rui Correia às 10:14
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5 comentários:
De mané a 4 de Junho de 2011 às 23:02
Fabuloso texto! Eu, como não vou voar, sou uma eleitora à RASCA! Mesmo! Bj Rui e boa viagem p onde fores
De Rui a 5 de Junho de 2011 às 01:39
Obrigado, Mané. Voar ou votar, eis a questão.
De Isabel a 5 de Junho de 2011 às 22:07
Estou a beber uma cervejinha, comemorando o "enterro" do pinóquio. Nunca pensei comemorar....... com uma vitória do PSD.
Que tal isso por aí?
Bjo
De Rui Correia a 5 de Junho de 2011 às 23:06
Nunca, como sabes, me encontrarás a festejar uma derrota da esquerda. Bjinhos
De Rui Correia a 5 de Junho de 2011 às 23:11
Mas sempre te digo que o nariz do Federer tambem não é assim tão grande.

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