Sexta-feira, 27 de Maio de 2011

Ti Marceneiro

 

Mão amiga emprestou-me uma revista portuguesa de música onde, entre muitas coisas, se incluem crónicas de concertos. Interessado, fui ler uma dessas crónicas para saber o que geralmente queremos saber em críticas de concertos: o que é que lá aconteceu.

 

Para quem quisesse saber como correu o concerto de Luís Lopes e Jean-Luc Guionnet na Culturgest, de acordo com o cronista, o que por lá se passou foi isto:

 

"Mais parecia um jogo de xadrez às avessas durante o qual, por vezes, se ouvia o sucumbir do vento."

 

"O discurso a dois que nos foi dado a ouvir era tão estranho como tudo o que se possa já ter imaginado. O resultado consistiu numa infinidade de pontos de partida, num vendaval de ideias sonoras e céus azuis, onde por vezes também havia silêncios e nuvens. Ao abrigo do "feedback" da guitarra de Lopes havia espasmos de luz que nos impediam de manter os olhos abertos. A música ganhou cores imaginárias e o tempo perdia indício. A tendência era para a tirania do ruído. Nestes pântanos varriam-se subitamente todas as partituras do universo e regeneravam-se todas as ideias do absurdo".

 

"Aconteceu um bailado de gnomos e astros à volta do baloiço do quintal, onde se cruzavam tranquilamente o concreto e o abstrato. De abismo em abismo, entrou-se num território de incertezas, com o perfume perverso da história a corroer-nos o espírito por inteiro. Ouviram-se fantasmas de heróis do passado - Dolphy, Ayler, Kirk, Cherry, Sharrock, Snakefinger, Bailey - como uma procissão de bonecos animados a sacudir a naftalina".

 

"Parecia um exorcismo ao contrário. Havia brisas de melodias que se transformavam em solidão."

 

E depois o autor conclui com algo que nos permite saber mais em concreto o que aconteceu:

 

"No meio disto, alguns foram abandonando a sala, impossibilitados de suportar a embriaguez oferecida. Ou simplesmente desiludidos por não terem encontrado os 'rendilhados texturais' e as 'parasitagens da electricidade' que lhes prometeram. Talvez a vertigem do óbvio seja um dos piores males da humanidade".

 

Adivinhando a possibilidade de haver quem pudesse pensar que este possa ser um texto pouco claro, o autor fecha a questão assim:

 

"A verdade é que o Luís e o Jean-Luc nos fizeram sonhar e qualquer outra coisa que se pudesse aqui dizer soaria a supérfluo e superficial".

 

 

 

 

(suspiro)

 

 

 

 

O meu amigo Valentim gosta de recordar uma das mais célebres frases do Alfredo Marceneiro sempre que encontrava um destes tipos:

 

"Ouve lá... estás a armar-te em saliente?"

 

Está e chama-se Paulo Chagas.

publicado por Rui Correia às 12:38
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4 comentários:
De Fernando Nabais a 28 de Maio de 2011 às 13:44
Um exorcismo ao contrário acontece quando é o diabo que que quer tirar Jesus do padre. Não pecebes nada, pá! Deixa falar o Chagas mas é!
De luisa pedro a 28 de Maio de 2011 às 16:45
Vai lá vai!

Não percebi se foi bom ou mau, mas percebi que andou por ali alguma embriagues dos que abandonaram a sala! E não só...

De fj a 29 de Maio de 2011 às 22:15
cambada de incultos. até eu compreendo isto. muitas vezes também eu tive abandonar a sala - ou outras divisões da casa - impossibilitado de suportar a embriaguez oferecida (oferecida às vezes, outras vezes paga do meu próprio bolso).
De Rui a 29 de Maio de 2011 às 23:02
Aquilo que me diverte mesmo é ler todo o texto do tipo mas negando tudo o que ele diz. Vai dar tudo ao mesmo. E tens razão, claro, fj. Eu próprio me sinto muitas vezes um parasita da electricidade. Nomeadamente quando carrego num interruptor. Agora lá que gostava de ao menos uma vez na vida ver um rendilhado textural, lá isso gostava. Até parece que estou a ver. Dois tipos numa sala de ensaio e uma dizer para o outro em pose Iron Maiden: 'Ora topa-me aqui este rendilhado textural, hein? Ó parasita da electricidade...'

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