Quarta-feira, 18 de Maio de 2011

Forcas

Tenho assistido ao regresso da palavra "forte" à espuma dos dias políticos que atravessamos. Precisamos - arengam-no-lo todos os dias - de um governo forte, de uma maioria forte, de um regime forte, de uma democracia forte, de um sistema forte, de um euro forte, de uma oposição forte, de um presidente forte, de um Estado forte, de uma liderança forte e por aí afora.

 

Ainda ontem me interrogava com uns amigos sobre a capacidade que temos de fazer tábua rasa das coisas que já aprendemos antes. E até mesmo das que aprendemos antes com despesas humanas irrecuperáveis. Reconheçamos que essa coisa latina da "tabula rasa" constitui algo de comprovadamente indispensável na vida humana. Os ingleses chamam-lhe "clean slate". Mas qualquer pessoa que tenha mais de 15 anos de idade sabe bem que fazer tábua rasa do que quer que seja é uma impossibilidade material. Somos, todos somos, somatórios avulsos de vida. E a esse somatório gostamos nós de chamar cultura.

 

Quase sempre, quem fala de força em política pertence a um de dois tipos de pessoas: ou se trata de alguém que precisa que o vejam brandir um aríete fálico de testosterona política ou alguém com uma rústica limitação de parque vocabular.

 

Rever esta necessidade de designar por "forte" um governo, uma maioria, um Estado, um sistema, um presidente, enfim, isto ou aquilo, é ignorar, sem contemplações, aquilo a que nos conduziu, em diversos momentos da história da brutalidade humana, esse mesmo discurso de 'força'. Até porque, cada vez mais, aquilo que precisamos não é de força, mas de capacidade de realização.

 

Numa palavra, trabalho.

 

Não precisamos de um governo forte. Precisamos de um governo estável que, aliás, para o ser, nunca tem de ser maioritário, se tiver pela frente uma oposição responsável e patriótica. Precisamos de um presidente moderador, que saiba, com trabalho, gerir o equilíbrio entre as correntes de opinião e as imprescindibilidades patrióticas. Precisamos de um Estado, uma constituição e um sistema que resultem coerentes entre si, como produtos de um trabalho pericial, minuciosamente técnico e doutrinal. Precisamos de um euro e de uma Europa sustentáveis que é algo que apenas se consegue com uma visão culta, empreendedora e, sobretudo, laboral. Trabalho.

 

Quando alguém fala de "força", aquilo que ambiciona mesmo é de garantia, de previsibilidade para o futuro. Isso chama-se estabilidade. Num mundo por essência imprevisível, de nada adianta tentar forçar o futuro. Importa, isso sim, tentar conhecê-lo com moderação, equilíbrio e pensamento, tudo sinónimos dessa coisa musculada e criadora que é o trabalho.
publicado por Rui Correia às 09:57
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