Domingo, 8 de Maio de 2011

limpinho

Acabo de ler o programa do PSD para a educação. Tem uma enorme qualidade: não deixa margem para dúvidas. Para os mais incautos que se aventuram nessa espécie de desespero que é o de achar que a direita haveria de ser mais democratizante do que a esquerda aí vai disto:

 

O texto está prenhe de eduquês purinho – agora com laivos de coloquialidade correio da manhã - e de acusações já conhecidas:

 

“O PSD assume a Educação como serviço público universal e estabelece como missão para a Escola da próxima legislatura a substituição do facilitismo pelo esforço, do laxismo pelo trabalho, o totalitarismo pedagógico pelo rigor científico, a indisciplina pela disciplina. Porque o que está em jogo é a nossa sobrevivência como sociedade autónoma.”

 

Quanto à gestão escolar é claro como água:

 

“nova carreira profissionalizada de Director Escolar” e “A selecção do Director deve ocorrer por via de concurso promovido pelo Conselho Geral”.

 

Sobre isto mais nada. Ou seja, está, de novo, aberta a porta justiniana para que o director possa não ser professor.

 

Quanto à politização dos órgãos escolares, restam também pouquíssimas dúvidas:

 

“No modelo de gestão das escolas deve ver-se reforçada a participação das autarquias e da sociedade civil na sua gestão estratégica, pela via do aumento da capacidade de intervenção nos Conselhos Gerais, através de um maior peso nas quotas de representação;”

 

Sobre escolha de escolas, mais do mesmo, (até já, escola pública):

 

“iniciativas de liberdade de escolha às famílias em relação à oferta disponível, independentemente da natureza pública ou privada do estabelecimento de ensino;”

 

Sobre administração escolar, voltamos atrás aí uns bons 30 anos. Para os nostálgicos do software único a nível nacional – que tão bons resultados deu – aí fica uma luz de esperança, devidamente eduquesada:

 

“Deve ser iniciado o desenvolvimento de um sistema informático para o processo digital do aluno, que o acompanhará ao longo da vida, e em todos os níveis e sistemas de ensino, para a melhoria da eficiência da gestão dos processos de matrícula e de transferência de alunos, garantido elevado rigor e transparência numa base local e nacional”

 

E depois, sempre a bandeirola manif a dar a dar, para atrair as mosquinhas ao mel eleitoral:

 

“Proceder a uma intensa e radical desburocratização das práticas e dos processos administrativos aplicados à gestão da Educação. A vida dos docentes está hoje submersa por papéis, processos, reuniões e práticas administrativas sem sentido, inúteis, ineficazes e burocráticas;”

 

Sobre exames, viva Tommaso di Lampedusa, vamos agora, (desta vez é que também é), mudar tudo para ficar tudo na mesma:

 

“Avaliação do Final do Ciclo: deve ser generalizada a avaliação nacional no final de cada ciclo: testes nacionais com incidência na avaliação final para o 4.º e 6.º ano, por conversão das actuais provas de aferição; exames nacionais para o 9.º, 11.º e 12.º ano, já existentes, com revisão do peso na avaliação final;”

 

E quanto a essa coisa maléfica e perversa de pôr uns colegas a avaliar outros, o que importa é que os colegas venham de outras escolas. Ou seja, para o PSD a avaliação não deve ser inter-pares. Deve ser extra-pares:

 

“Assim, o PSD reafirma o compromisso de concretizar um regime de avaliação exigente, rigoroso e consequente, num quadro de correspondência bem definida entre autonomia e responsabilidade, sem que estes princípios conduzam a cargas desmedidas de procedimentos administrativos. No que concerne à classificação do desempenho, pretende-se a inclusão de uma componente externa preponderante, removendo da cultura organizacional das escolas os malefícios e perversidades da classificação inter-pares.”

 

Além disso, o PSD acha que aquilo que os DTs precisam é de formação. Formação compulsória sobre liderança e disciplina:

 

“um Programa de Formação para os recursos humanos visando: A aquisição de novas competências de gestão comportamental e de conflitos em sala de aula e na escola; a gestão personalizada e capacitação de alunos em risco de insucesso e abandono escolar, com prioridade para os Directores, Coordenadores de Directores de Turma e Directores de Turma”

 

E essa coisa horrível, horrível, horrível dos amontoados de escolas não é para continuar, é para consolidar. Autonomia, também, mas devagarzinho, que há diferenças inolvidáveis entre progresso, progressão e progressismo.

 

“Consolidação do Processo de Agrupamento de escolas, privilegiando a verticalização pedagógica e organizacional de todos os níveis de ensino, bem como a progressiva autonomia da sua organização e funcionamento;”

 

E também convém que as Cartas educativas sejam agora completamente diferentes, ao menos na sua designação. Aparentemente, só na sua designação. Mudar. Porquê? Porque sim. Por causa do nome do meu livro. Mudar para deixar marca. Porquê? Calem-se lá com perguntas.

 

“Lançamento dos Planos de Desenvolvimento Educativo Municipais, em substituição das Cartas Educativas, visando a articulação das estratégias de desenvolvimento económico, social e cultural dos Municípios e comunidades locais, com o desenvolvimento educativo das suas populações;”

 

E o desporto escolar? Isso é bom mazé para tirar os miúdos da droga:

 

“Maior focalização do Desporto Escolar em objectivos de inclusão social.”

 

Alea jacta est. Agora é votar meus senhores, é só votar. (Quem deve estar mesmo contente é o Santana Castilho).

publicado por Rui Correia às 17:11
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4 comentários:
De Lúcio a 8 de Maio de 2011 às 21:48
Sim, está lá tudo para embrulhar convenientemente a vulgaridade: do "facilitismo" à "contratualização", da "submersão por papéis" à "verticalização", etc.
É uma banalidade portuguesa com certeza, é com certeza uma banalidade portuguesa.
De Daniel Amorim a 9 de Maio de 2011 às 02:42
Boas Rui! (espero que não leves a mal!)

Já tinha lido a tua opinião numa caixa de comentários da Educação do meu umbigo.

Passo por aqui, para te felicitar pelo texto: sublime!


De Isabel X a 9 de Maio de 2011 às 16:23
Felicito-te, Rui, por este post que considero muito bem construído e contendo informação útil e esclarecedora. Na verdade, por desespero, muitos podem pensar que é preferível o PSD quando, afinal, o seu programa é bem revelador das intenções que tem (e não apenas para a educação).
- Isabel X -
De mané a 9 de Maio de 2011 às 21:52
Como diz um anterior comentador: Sublime! Texto excelente! Enviei o link aos meus amigos, espero q n te importes. Merece ser lido! Bj

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