Quarta-feira, 23 de Março de 2011

Remissão impossível

 

Contado, ninguém acredita. A minha mãe pede-me que vá com ela a Fátima. Ela sabe o que eu penso sobre o assunto, mas sabe também que, se mo pede, vou com ela de bom grado. Na verdade, creio que nem suspeita da minha esquizofrénica relação com as igrejas. Considero-as todas um exercício oligárquico de poder irracional sobre os mais desgraçados. Nutro uma incontrolável indiferença calvinista por quase toda a arte religiosa,(se excluirmos a música). Ao mesmo tempo, porém, nenhum outro lugar público me transmite tanta calma como as igrejas. Em Coimbra, passei centenas de horas na Sé Velha a estudar, por ser ali que, no mundo todo, melhor se sente a serenidade temperada da chuva, como do sol.

 

É este o sentimento que transporto comigo quando entro em Fátima. Ao subir aquele formidável santuário, a minha mãe guia-me até à lotada capelinha das aparições, onde dezenas de pessoas silenciam ladainhas do rosário e ouvem o sermão do pároco. Emocionada, a minha mãe presta contas íntimas com a vida. Eu fico cá atrás, parado a observar todo este ritual que quase nada me diz,  mas é-me óbvio perceber a dor e a catarse que aquele recinto produz.  Exorto-me, pois, ao silêncio. Chora-se muito por trás de óculos de marca. Deixo-me envolver nos dramas que eu mesmo fantasio.

 

Pois estou eu neste fingimento pessoano quando reparo, de repente, na camisola do homem que está à minha frente. Escrita em letras garrafais nas suas costas, leio a seguinte frase:

 

"Mother fucking moutaineer".

"Mother fucking moutaineer" (até acho que há para ali um erro qualquer, não há? não se escreve "mountaineer"?)

 

Enfim...

 

Como vos disse, contado, ninguém acredita. Por isso, decido-me tirar uma fotografia. Várias.

 

 

Note-se que a minha pulsão pela iconoclastia não é pequena. Mas também não esperava tamanho incentivo. Não consigo deixar de pensar que aquele homem decidiu, como a minha mãe decidira, ir a Fátima nesse dia. E, ao ter de decidir, nessa manhã, o que iria levar vestido, achou que, de todas as camisolas que tem, aquela seria a melhor camisola para levar ao santuário da mãe de Jesus Cristo. Aquela sim, aquela é que está bem. E, pelo que me é dado perceber, apenas eu reparo na insolência têxtil daquele tipo. É a mim, ao menos prosélito de todos quantos entraram naquele dia, naquele lugar, que a camisola parece incomodar.

 

Ficarei sempre boquiaberto com a impertinência descarada destes católicos postiços e descuidados que conheci a vida inteira. Já pensei em tudo o que possa absolver o tipo. De nada adianta. Creio que nem o faz por mal. Apenas faz e é e pronto.

 

Chamo a isto a "Remissão impossível". Que diabo. Bem sei que o Livro diz que Cristo teve de subir a uma montanha para proferir um sermão, mas também não creio que isso tenha feito dele um montanheiro incestuoso.

publicado por Rui Correia às 12:54
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8 comentários:
De Maria a 23 de Março de 2011 às 13:32

Ofereceram-lhe a camisola e ele não sabe Inglês?

(Vá lá... podia ser...)

:))
De Rui a 23 de Março de 2011 às 13:41
Claro. É isso mesmo. Obrigado, Maria, como imagina preciso de um qualquer argumento que retire surrealismo - ou descaramento - a tudo isto.
De Cláudia a 23 de Março de 2011 às 19:05
Se me permite Sr. Rui, este indivíduo é resultado de uma cultura da liberdade de expressão irresponssável, aos princípios para com a sociedade independente da crença.
Trajando um suéter canadense, descreve o evento de música o - History of GMF - Grand Mother's Funck. (alterado)
Todavia vítima do modismo e desinformação pela falta de compromisso, coerente com a má formação ou, até opção de uma boa formação (vai saber-se?). Aí, veículo da insatisfação da plenitude humana. Convenhamos para quem sabe o que o amor...
Ou, talvez, seja uma boa pessoa, e nunca importou-se com o que lhe aquece, apenas, vai vivendo e passeando pelo mundo, para conhecer outros lugares.
E no sinal dos tempos, o recado.
De Isabel a 24 de Março de 2011 às 23:57
Confesso que ao começar a ler este post estava à espera de tudo menos deste final. Queria parar de rir e não conseguia. Não consigo parar.
De Mané a 25 de Março de 2011 às 21:48
Fabuloso, este teu post! É incrivel que também, por causa da minha mãe, estive em Fátima me senti como tu. Foste às lojinhas de recuerdos? Experiência de cariz surreal. Bem-haja amigo!
De Rui a 25 de Março de 2011 às 22:13
Claro que sim. Sabes lá a dificuldade que existe hoje em dia em tentar encontrar uma caneca da Jacinta e do Francisco Marto? (e provavelmente achas que estou a brincar...)
Mas sempre te digo que esta saga de Fátima tem ainda uma ou duas continuações, que aquele dia foi, enfim... Igual aos dias que se passam em Fátima.
De Lúcio a 26 de Março de 2011 às 01:56
Ou - mera hipótese - o puritanismo não é um dos traços distintivos dos devotos do Santuário de Fátima (que não tem pároco, já agora); Lutero e Calvino terão tocado almas muito mais sofisticadas.
De Redes a 9 de Abril de 2011 às 00:54
Excelente!
Façamos de conta que ele sabia a que mãe se referia.

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