Terça-feira, 1 de Março de 2011

vagas

 

No preciso dia em que um dos nossos melhores decide apresentar os papéis para a sua reforma, juntando-se à vaga de gente saturada, eis que me mandam por mail a seguinte crónica de Manuel António Pina.

 

'Quem pode, foge. Muitos sujeitam-se a perder 40% do vencimento. Fogem para a liberdade. Deixam para trás a loucura e o inferno em que se transformaram as escolas. Em algumas escolas, os conselhos executivos ficaram reduzidos a uma pessoa. Há escolas em que se reformaram antecipadamente o PCE e o vice-presidente. Outras em que já não há docentes para leccionar nos CEFs. Nos grupos de recrutamento de Educação Tecnológica, a debandada tem sido geral, havendo já enormes dificuldades em conseguir substitutos nas cíclicas. O mesmo acontece com o grupo de recrutamento de Contabilidade e Economia. Há centenas de professores de Contabilidade e de Economia que optaram por reformas antecipadas, com penalizações de 40% porque preferem ir trabalhar como profissionais liberais ou em empresas de consultadoria. Só não sai quem não pode. Ou porque não consegue suportar os cortes no vencimento ou porque não tem a idade mínima exigida.

 

Conheço pessoalmente dois professores do ensino secundário, com doutoramento, que optaram pela reforma antecipada com penalizações de 30% e 35%. Um deles, com 53 anos de idade e 33 anos de serviço, no 10º escalão, saiu com uma reforma de 1500 euros. O outro, com 58 anos de idade e 35 anos de serviço saiu com 1900 euros. E por que razão saíram? Não aguentam mais a humilhação de serem avaliados por colegas mais novos e com menos habilitações académicas. Não aguentam a quantidade de papelada, reuniões e burocracia. Não conseguem dispor de tempo para ensinar. Fogem porque não aceitam o novo paradigma de escola e professor e não aceitam ser prestadores de cuidados sociais e funcionários administrativos.


'Se não ficasse na história da educação em Portugal como autora do lamentável 'pastiche' de Woody Allen 'Para acabar de vez com o ensino', a actual ministra teria lugar garantido aí e no Guinness por ter causado a maior debandada de que há memória de professores das escolas portuguesas. Segundo o JN de ontem, centenas de professores estão a pedir todos os meses a passagem à reforma, mesmo com enormes penalizações salariais, e esse número tem vindo a mais que duplicar de ano para ano.

Os professores falam de 'desmotivação', de 'frustração', de 'saturação', de 'desconsideração cada vez maior relativamente à profissão', de 'se sentirem a mais' em escolas de cujo léxico desapareceram, como do próprio Estatuto da Carreira Docente, palavras como ensinar e aprender. Algo, convenhamos, um pouco diferente da 'escola de sucesso', do 'passa agora de ano e paga depois', dos milagres estatísticos e dos passarinhos a chilrear sobre que discorrem a ministra e os secretários de Estado sr. Feliz e sr. Contente. Que futuro é possível esperar de uma escola (e de um país) onde os professores se sentem a mais?'

 

Manuel António Pina

publicado por Rui Correia às 22:29
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2 comentários:
De Cláudia Tomazi - Brasil a 2 de Março de 2011 às 14:42
Se me permite Sr. Rui, penso que a educação tenha estes sintomas por aqui no Brasil...

Na humanidade são intrincados os maiores desafios ao homem lançado, e positivaram avanços da civilidade que por sua vez, trotando no poder, historicamente mantém distanciada ainda, a socialização e que permanece na inocência de questões que em simultâneo avançaram e revestem em potencial o não amadurecimento da gestão educacional.
“A democratização do ensino ainda, não entrou na sala de aula”.
No entanto, a educação toma estes dois caminhos distintos quanto a relação que ao longo da história as duras penas transitava como heróica, hoje tencionada, tem por dedicação a causa da humanização do saber.
“A falta do reconhecimento pela educação é um paradigma de sua origem”.
Este abalo do ensino é um triste resultado que acontece quando homem sutilmente deixa-se envolver sem o viés metodológico no conhecimento galopante, e não consegue deter a circunstância de sua evolução, que em duas décadas deu um salto significativo para a dinâmica do indivíduo, quanto a formação e a habilidade de lidar com esta, exigindo dos professores esforços continuados, e que colidem com a finalidade do dito social. Contrapartida a vocação é firmada mesmo na falta do reconhecimento ou impotência dos que abraçam esforços e acreditam no florescer da consciência humana. O professores de hoje são, duas vezes, vítimas deste encilhamento sociológico em que se tornou a máquina do estado.

O ensino a grosso modo torna-se na atualidade, quase um animal desenfreado, sem que possa deter em rédeas firmes o seu avanço inconseqüente...

De anix a 5 de Março de 2011 às 21:03
Temo o pior para a educação. Quem pode, sai e continuará a sair. Eu, incluo-me na debandada geral. Estou a fazer os possíveis, porque me sinto a mais, porque tenho de lutar muito para prestar um serviço à comunidade, porque os alunos não têm tempo para brincar, ler, conversar, porque as escolas são fábricas onde se entra, se trabalha e se sai, sem direito a um espaço de socialização. Tudo é intenso.
Tenho 16 anos de actividade no ensino e sou recém-chegada ao 3.º escalão. Atrás de mim encontram-se os recém-chegados ao ensino, é justo, pois.
Temo que os futuros relatórios da OCDE não nos coloquem no topo da lista enquanto professores que mantêm uma boa relação com os seus alunos. Sim porque são eles que nos defendem, porque sabem que trabalhos com eles e para eles...mais ninguém quer saber.
Agora somos todos despesa para o estado que importa reduzir a todo o custo.

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