Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2011

 

 

Eu bem sei que temos andado todos a ler coisas de outras escolas referentes à avaliação de professores que não lembram ao menino Jesus. E rimo-nos porque, lá está, é coisa que fica lá longe, noutras terras. Longe.

 

Hoje mostraram-me uma definição de parâmetros, indicadores e descritores que serão aplicados numa escola da nossa cidade. Eu bem sei que entre os que visitam este site encontra-se muita gente que sabe muitíssimo de didáctica. Peço-lhes que acreditem que não acrescento nem retiro uma única vírgula, letra ou acento à transcrição que vou fazer.

 

Eu que passei um ano inteiro a observar aulas e a afinar grelhas de observação, digo-vos com toda a propriedade que jamais vi entrar dentro de uma escola um documento tão estúpido ou cientificamente excêntrico como este.

 

Isto já nem é fazer de conta. Chamar a isto amadorismo ou empirismo é ofender um e outro. O que isto é, é diletantismo.

 

O português em que é redigido o documento é lamentável e só por si revela a incompetência grosseira de quem o produziu, mas isso nem é o mais importante.

 

O que dali releva é que nada nem ninguém alguma vez poderá ter razão. Ninguém pode suportar qualquer fundamento científico. Por muito que se odeie as ciências da educação elas bem se esforçam por serem científicas, ao menos minimamente. Usando descritores como estes ninguém poderá nunca defender uma classificação mas também nunca a poderá refutar. Rigorosamente nada do que aqui se propõe que seja verificável o é. Nada. Por isso o ónus recairá sobre avaliador e avaliado do mesmíssimo modo. Ninguém terá nunca razão nenhuma para defender o que quer que seja.

 

Deixo-vos a sós com algumas pérolas e avaliem vocês se algum asilo na vossa zona aceitaria os mamíferos que escreveram isto. Não sei se me fiz entender.

 

O contexto é este: como relatores, vocês vão observar aulas dos vossos colegas e depois atribuem-lhes classificações, referentes aos seguintes descritores. Ou seja têm de saber fundamentar as vossas decisões. Têm de saber explicar como chegaram a cada uma destas conclusões. Lembrem-se que o recurso do avaliado é sempre possível. Mas como é possível argumentar contra ou a favor disto?

 

Aí vai:

  • Perfeita noção do tempo
  • Estratégia adequada, incluindo casos particulares (sic)
  • Tempo bom, mas não perfeito
  • Tempo razoável
  • Não tem estratégias
  • Dúvidas na linguagem (sic)
  • Não articula com a matéria anterior, mas integra na aula (sic)
  • Desvia-se da planificação
  • Em função da situação da aula altera as estratégias com sucesso em relação a 2/3 dos alunos
  • Em função da situação da aula altera as estratégias com sucesso em relação a 50% dos alunos
  • Em função da situação da aula tenta alterar as estratégias com sucesso mas não consegue (sic)
  • Não há tempos mortos, tem solução para 2/3 dos diferentes ritmos dos alunos (sic)
  • Não há tempos mortos, tem solução para 50% dos diferentes ritmos dos alunos (sic)
  • Utiliza todos os meios disponíveis com criatividade, de forma variável e propondo alternativas
  • Utiliza alguns dos meios disponíveis (mais de 3) com criatividade e de forma variável não propõe alternativas (sic)
  • Desenvolveu a aula numa sequência lógica imprimindo ritmo no desenvolvimento dos trabalhos, motivando 2/3 dos alunos, com grande entusiasmo (sic)
  • Desenvolveu a aula numa sequência lógica imprimindo ritmo no desenvolvimento dos trabalhos, motivando 50% dos alunos, com grande entusiasmo
  • Desenvolveu a aula numa sequência lógica imprimindo ritmo no desenvolvimento dos trabalhos, sendo pouco motivadores (sic)
  • 50% não é fomentada a criatividade nem a autonomia (sic)

 

Há palavras para isto, mas este é um blog decoroso. Tudo isto calunia quem nisto se envolve e é estarrecedor.

 

Peço-vos, por favor. Alguém que não seja professor que comente isto. Alguém de fora nos diga o que pensa destes “descritores” com os quais uns professores irão ser distinguidos dos outros.

 

E o mundo inteiro que havia a dizer sobre a inclinação ideológica e a extrema incerteza pedagógica da maioria destes descritores, que é o que mais importa?...

 

Só há um descritor para isto: indescritível.

publicado por Rui Correia às 22:58
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15 comentários:
De Zoca Perdigão a 22 de Fevereiro de 2011 às 14:20
Ensandeceram.
De Paulo Marques a 22 de Fevereiro de 2011 às 14:56
Não é preciso ser professor para saber que os últimos 10 anos de políticas de educação vão ter terríveis repercursões nos próximos 50.
É o que temos, e o Egipto aqui tão perto. O problema é que nós gostamos dos nossos ditadores.
De Carlos Alberto a 22 de Fevereiro de 2011 às 18:22
Este blog não devia brincar com quem o visita.

Alguma vez isso seria possível? Em algum país do Mundo seria aceitável esses descritores?

Gostei especialmente do terceiro :

TEMPO BOM MAS NÃO PERFEITO!
Aquelas 3 ou 4 nuvens ali do lado norte estão com má cara.

Já agora que eu de educação nada percebo:
Quem é que avalia os 'inventores" desses descritores?
Será a ex-betinha do PC?
De ... a 23 de Fevereiro de 2011 às 01:10
O tempo está a ser afectado pela frente oclusa.
Só pode. É tanta a trovoada!
De João Serra a 23 de Fevereiro de 2011 às 22:06
Acho estes critérios muito estranhos. De qualquer modo, são da responsabilidade da escola que os aprovou e do respectivo conselho pedagógico. Esta não é uma situação generalizada. Pode haver muito disparate, mas este é seguramente localizado.
De Rui a 24 de Fevereiro de 2011 às 23:41
Adoraria concordar consigo, mas não consigo. Isto está mesmo como parece, caro João.
De João Serra a 25 de Fevereiro de 2011 às 12:06
Por motivos profissionais, conheço o que se vai passando em escolas um pouco por todo o país e sei que, embora com muitas dúvidas e alguns disparates à mistura, esta situação não é igual em todas as escolas.
Aqui, em concreto, não está em causa uma escola em particular? Esta situação é replicada noutras escolas? Existe uma orientação do ME (DGRHE ou DRE's) neste sentido?
A informação disponibilizada é pouca e não permite uma análise adequada, mas, em geral, muito do que se faz decorre de má aplicação local. Este parece ser um exemplo, mas também é verdade que há outros melhor conseguidos.
O sistema é perfeito? Longe disso, mas a aplicação ainda o desvirtua mais.
De Rui Correia a 28 de Fevereiro de 2011 às 02:37
Bem sei que um texto destes pode sempre parecer fruto de um arrivismo corporativo. Engano. É, aliás, para contrariar essa presunção que o publiquei. Trata-se de um documento oficialmente aprovado e em aplicação corrente, em seguimento diligente de instruções ministeriais que o contextualizam e o sancionam. Expu-lo para que, justamente, olhares mais distantes da vida quotidiana das escolas, como o seu, nos digam se estaremos nós a ensandecer ou se existe vida para além das salas de professores que vivem dias de absoluto transe. Se o "sistema é perfeito"? João. Ninguém, dos mais contestatários ao mais equilibrado dos professores, pede, conhece ou sequer fantasia com o que quer que o João designe por "sistema perfeito". Pede-se, ao menos, um que nos não faça rir desalmadamente, por tão grosseiramente inexequível. É apenas de elementar viabilidade, aquilo de que falamos.
De João Serra a 28 de Fevereiro de 2011 às 12:38
Houve (há...) momentos em que a contestação ao modelo de avaliação de desempenho assumiu claramente (pelo menos por alguns sectores) algo semelhante a corporativismo. Essa reacção é tanto mais estranha por vir de "avaliadores profissionais" - a função de avaliação é uma constante na actividade docente.
Obviamente, não é possível trabalhar correctamente com instrumentos inadequados e isso ficou claramente demonstrado aos mais diversos níveis (embora muita da mensagem que tenha ficado é a de que os professores não querem é ser avaliados - eradamente, mas as coisas são o que são e as imagens são as que ficam).
A situação que aqui foi exposta é, claramente, inadequada num contexto de avaliação - séria ou menos séria. Não duvido que tenha havido boa vontade ou pelo menos boa fé na elaboração dos parâmetros que estão enunciados. No entanto, o resultado final é completamente disparatado - por mais que se densifiquem as explicações sobre o modo de aplicação destes descritores.
A questão é que foram aprovados... que diligências foram feitas para impugnar as decisões dos órgãos escolares sobre esta matéria? Seja por via hierárquica, ou por via contenciosa. É que esta situação não resiste a uma análise séria... não basta denunciar publicamente (embora sem indicar expressamente a escola ou escolas onde isto se aplica), é necessário ir mais além.
E este ponto é tanto mais importante, quanto se queira mudar a convicção de que os docentes querem ser mesmo avaliados - só que bem avaliados. Fazer barulho não chega, é só essa a minha convicção. E este caso tem mais do que fundamentos para ser "deitado abaixo"...
De Rui a 2 de Março de 2011 às 23:19
Subscrevo quase tudo. E apenas digo "quase" porque sempre que mostro um software de avaliação e observação de aulas demonstra-se com a maior simplicidade que é possível, sim senhor, avaliar os desempenhos dos professores com propósitos formativos e descritores ponderados, técnicos verificáveis, quantificáveis e com lugar à inerente subjectividade que sempre subjaz a qualquer avaliação. Não é, entretanto, de todo verdade que os professores não queiram ser avaliados. Mas acrescento um argumento reversível: nunca se deve dar ouvidos a quem generaliza. Mas "as coisas", como bem recorda o João, são o que são, pois.
De João Serra a 3 de Março de 2011 às 10:23
Existe, pelo menos, um "mas"... sim, é possível fazer ADD com base em ferramentas informáticas, mas... é um contrasenso pretender que uma ADD tenha propósitos meramente formativos. Uma ADD inconsequente, meramente formativa, para apoio à melhoria de desempenhos futuros, vale o que vale. Já se viu isso com o modelo que vigorou até à era "MLR", toda a gente tinha satisfaz e mesmo que não tivesse era relativamente indiferente. Só quando se percebe que um mau desempenho (e leia-se aqui um desinteresse pela profissão) tem consequências no que se ganha ou deixa de ganhar é que se fazem contas à vida.
É preferível um mau sistema do que nenhum sistema? É uma boa pergunta, para a qual não tenho resposta, mas tendo a acreditar que só com algum sistema é que se consegue chegar a algum lado. Por mais que custe.
O que custa também é perceber que a proposta ao que existe passa invariavelmente pela ADD formativa. Custa, sobretudo porque vejo os miudos nas escolas (os meus filhos, os colegas) bem e mal avaliados, com consequências: chumbam ou passam de ano. Essa é uma situação incontornável, existem consequências para essa avaliação. O sistema é bom ou mau? Depende, é o que existe e varia com o professor que o aplica. Agora extrapole-se para a ADD docente...
De Manuel a 24 de Fevereiro de 2011 às 15:02
Os descritores não merecem ser comentados, porque não são comentáveis. Aquilo é um chorrilho de asneiras.
Diz no seu post que "Por muito que se odeie (talvez quisesse dizer "odeiem", não é?) as ciências da educação elas bem se esforçam por serem científicas, ao menos minimamente." Desde logo, as pessoas que criaram aqueles descritores, membros de um qualquer Conselho Pedagógico, forma "formadas" no âmbito dessas "Ciências da Educação". É bom não esquecer isto.
Verdadeiramente, não sei o que mais me espanta, se aqueles "descritores" (só a palavra arrepia), se a sua afirmação atrás citada. Meu Deus! Uma disciplina ou é ciência ou não é... Essa de uma suposta ciência ou ciências procurarem ser minimamente científicas é de bradar aos céus. O que os "cientistas da educação" têm feito não tem sido mais do que quantificarem opiniões, através de grelhas, matrizes e quejandos, nada mais. A partir daqui vale tudo...
De Rui a 24 de Fevereiro de 2011 às 23:40
Percebo a sua indignação, mas também a de outras pessoas que nunca hão-de merecer o que de forma injustamente unânime, ou quase, se diz sobre as ciências da educação. Muitíssimo científicas, asseguro-lhe.
De luisa Pedro a 25 de Fevereiro de 2011 às 12:32
Numa 6ª feira, com um sol absolutamente fantástico sobre esta, sempre atarefada mas não menos extraordinária, cidade de Lisboa, depois de horas de números, acertos , conferências e reuniões, dei-me um momento para ler... algo diverso do mundo! E eis-me completamente fascinada por este artigo! É sempre muito entusiasmante saber, com que linhas ou quadrados se apura a competência, ou falta dela, dos professores dos nossos filhos. Confesso! Fiquei aturdida com tamanha descrição e tão extenso disparate. Fui educada e educo o meu filho no respeito pela figura do Professor! Escrevo-o em maiúscula por entender ser um dos pilares da sociedade em que vivemos, e fico triste... profundamente triste, por perceber como são destratados os nossos profissionais da Educação. Podem e devem aferir-se competências, mas não nestes moldes. Estes parâmetros são, e é só a minha opinião, contrariamente às cartas de amor, absolutamente Ridículos !
De Rui Correia a 28 de Fevereiro de 2011 às 02:46
Noutro blog de autor descconhecido onde este texto tem sido devidamente comentado, houve quem questionasse a apresentação de descritores sem o seu enquadramento nos respectivos indicadores. Perceba-se, de vez, que, em matéria de mensurabilidade, nada ou quase, importa em matéria de contextualização. Estes descritores pretendem-se como expressões objectivadoras de quantificações, de 1 a 10. Entendamo-nos: a ideia é garantir que estas realidades sejam observáveis e mensuráveis em tempo real de observação de aulas. Os descritores são o que tem de haver de mais concretizador e objectivamente documentável e quantificável, para apoiar o observador, o avaliador, no momento da assistência à aula. Gostaria de ver alguém a argumentar, de forma objectiva que um professor "Desenvolveu a aula numa sequência lógica imprimindo ritmo no desenvolvimento dos trabalhos, motivando 2/3 dos alunos, com grande entusiasmo". Mas também gostava de ver esse professor a argumentar o oposto. Que conversa digna de assistir essa seria.

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