Sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2011

nódoa

 

Um comentador textualmente educadíssimo que, por graça, frequenta este blog chamou-me a atenção porque eu cometi a impudência de escrever “uma soprano” em vez de escrever “um soprano”. [silêncio] Para alguém como eu que reverencia a majestade da escrita e a majestade da ópera, tal afronta é de lesa majestades; duas em uma; champô e amaciador. Mas mais do que o erro ortográfico-técnico, não consigo deixar de luzir por saber que estou menos sozinho do que por vezes julgo. Ainda há quem, como eu, se assanhe com os erros de português, arranhados como todos estamos por tantas unhas cacofónicas e cacográficas.

 

Acontece que não deixo passar um erro ortográfico às pessoas que estimo. Mas só a essas. Porque sabem quem sou. Aponto-lhes os erros, ou porque mo pediram que o fizesse sempre ou porque não consigo ver os meus amigos a passar vexames. É por bem-querer. Um erro ortográfico é uma nódoa. É uma gaivota acasacada de crude. E eles bem sabem que eu quero que me corrijam a mim para que eu não repita vergonhas como aquela que passei quando recentemente escrevi "rebuliço" com O. E conservo a memória dessas correcções – de todas elas – como tatuagens. Mas atenção: como estes meus esmerados amigos sabem que eu prezo a língua portuguesa como se faz numa devoção, procuram fazê-lo com elegante circunspecção para que eu não me magoe. E isso é que o meu comentador não soube fazer. Preferiu expor-me com estafa sardónica, a soprar numa vuvuzela. E eu – que podia eu fazer? - engoli em seco, dizendo-lhe, embezerrado, que não sabia que não se podia escrever “uma soprano”. [Tanto Roland de Candé que eu li, e um 18 a história da música na faculdade para isto].

 

Concluo: abespinhemo-nos, sim, em defesa do bem escrever e do bem falar. Mas, por bem-querer e por nada mais. Sejamos, pois, meiguinhos.

Uma coisa eu já fico a saber: até no melhor soprano cai a nódoa.

publicado por Rui Correia às 17:53
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9 comentários:
De José Mota a 18 de Fevereiro de 2011 às 18:54
Mais a mais quando não tem razão, porque se pode muito bem dizer "uma soprano", como pode ver-se no Priberam

soprano
s. 2 gén.
1. Mús. A mais aguda voz humana.
2. Tiple.
3. Cantor ou cantora que tem voz de tiple.

ou na Infopédia (Porto Editora)

nome masculino
MÚSICA tom de voz mais agudo de mulher ou de rapaz muito novo, tiple
nome 2 géneros
MÚSICA pessoa que tem essa voz

ou no dicionário da Texto Editora

soprano
substantivo de dois géneros
a voz mais aguda de mulher ou de rapaz impúbere;






De Rui Correia a 18 de Fevereiro de 2011 às 21:18
A sério? Ó. Assim não tem piada. Sabes que eu parto sempre do princípio que sou eu que não sei algo que devia saber. Ainda hoje aprendi uma palavra nova: flecha (aplicada a lajes).
De Lúcio a 19 de Fevereiro de 2011 às 01:52
Também não exagere, caro Rui. De resto, tanta sapiência deveria dar-lhe créditos suficientes para se manter sereno. Em todo o caso, evite convocar o historiador para lhe assegurar a correcta gramática, se não é vê-lo a marcar consulta a um médico especialista em tonsilas faríngeas para ter segurança na grafia do termo "otorrinolaringologia". Para não incorrermos em falaciosos apelos à autoridade, deixemos, pois, cada macaco no seu galho. E eu já recolhi ao meu, posto que parece de bom tom a cedência quanto ao género ao uso que dele as gentes fazem. O povo é quem mais ordena, bolas - sobretudo quando acoitado nas legendas dessas publicações especializadas que o brindam com as últimas voltas capilares do "melhor futebolista da Madeira"! Com tão sagrado mandato, desembainhemos, então, as espadas e de cruz nas vestes, façamos com que gramáticos, linguistas, filólogos e demais membros dessa legião capitulem ante "a" modelo, "a" manequim, "a" bebé e declarem as charcutarias deste país, onde impera "a" fatal grama, fonte do mais avisado saber.
Quanto ao mais, não se abespinhe por tão pouco; nem sequer por insistir em chamar "ortográfico" a um erro que será (ok, seria, não se zangue) meramente morfológico.

Sinceros cumprimentos.
De Rui Correia a 19 de Fevereiro de 2011 às 14:24
Acto falhado, caro Lúcio, acto falhado. Quis pôr-se em bicos de pés e não se equilibrou em pontas. Permita-me que lhe diga que se me atribui sapiência, é porque não conhece muita gente ou sai pouco à rua. Aprecio toda a mordacidade desde que leal e culta. Eça e Wilde a mais, talvez. Wit. A outra não serve para nada. Não é de bom tom admitir que é de bom tom admitir o erro. Isto não vai lá com palavreado rebuscado. Quando erramos há que comer e calar. Isso é que é sapiência. Errar é apenas uma coisa que é. Não tem nada de mais. Queria zurzir-me, primeiro com a "soprano" e agora com a "sapiência". Correu-lhe a coisa mal. Não é o primeiro. Fica para a próxima. Com os erros que eu cometo, e já percebi que gosta de os garimpar, não lhe há-de faltar oportunidade. Continue de olho na gamela.
De Lúcio a 19 de Fevereiro de 2011 às 15:22
Talvez quisesse dizer "frustrado", que "falhado" tem uma conotação bem diferente. Ainda assim, é discutível se foi um intento frustrado (ok, "falhado" -o post é seu). Questões de semântica, talvez. Em todo o caso, a semântica é para si irrelevante, posto que mobiliza todos os seus militantes sentidos apenas na caça aos erros ortográficos, lesão suprema (para si, não para mim) da língua que prezamos. E não fosse o Rui do género de pessoas que, se atingida no peito, sem descompostura, mostra o dedo onde o estilhaço fez um arranhão de somenos. Honra lhe seja, caro Rui: é de gente assim que precisamos; dos outros (mesquinhos e cagarolas) não reza a História. Os académicos (já vi que os reverencia, ainda que não desdenhe os ensinamentos do vulgo) chamam a tal atitude argumentativa que se detém no irrelevante enquanto se esquece o essencial, "ignoratio elenchi". Mas os literatos não têm de molestar a arte e inibir a sua veia criativa com a submissão a quesitos de rigor tão pequenos. E o Rui é, sem ironia, um excelente artista.

Bom sábado.
De Rui a 19 de Fevereiro de 2011 às 16:17
Façamos assim: reconheço que, por vezes, cumpre apontar o dedo aos arranhões para que não nos detenhamos em dores mais fundas. Cuidei que soubesse já - parece ter idade e testa suficientes para isso - que é do essencial que mais nos ocupamos, quando nos detalhes nos detemos. Um óptimo Sábado e, de novo, obrigado por comentar e por aqui usar do seu tempo para se divertir comigo.
De Rui a 19 de Fevereiro de 2011 às 16:20
..e, quanto à semântica, ela cantava divinamente.
De Lúcio a 20 de Fevereiro de 2011 às 21:35
Portanto, bem melhor que "a" contralto.

Boa semana.
De Cláudia Tomazi - Brasil a 21 de Fevereiro de 2011 às 12:21
Nódoa

Não li tudo que podia.
Não conheço outros lugares.
Nem descrevo muitos amores.
Mas, saí tanto de mim para o mundo que o achei de pequeno espaço.
E, se não fosse teu ciúme à lapidar...
Serias perfeito em que, defeito?
Diamante assim pequeno, ingênuo e fiel.
Não, rios sem ponte.
Não, veios sem fonte.
Nem espaços vazios.

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