Terça-feira, 25 de Janeiro de 2011

liça

 

 

O meu amigo Fernando, irmão de alma, escreve-me muito zangado, não comigo que nunca lhe fiz mal nenhum, mas com a esquerda atarantada do partido socialista. Precisou de precisar melhor a questão da "culpa" daquilo que eu prefiro designar por "trespasse" da esquerda democrática. Devo dizer que não uso nunca a palavra "culpa". Só por distracção grande. Como muita gente, também eu já há muitos anos me disciplinei a substituí-la sempre pela palavra responsabilidade ou coisa quejanda. Há sempre uma melhor palavra. Dizia-me assim o Fernando num comentário que eu, com a permissão que lhe pedi e me deu, quero constituir em artigo.

 

"Ainda pensei mandar-te isto em off, mas fica aqui mesmo em show-off, que isto de andar à porrada tem muito mais piada em público e adoro que me batas. Penso que é muito importante olhar para o futuro da esquerda, mas, para isso, não é menos importante virarmo-nos para o passado, porque a História, como sabes muito bem, é a mestra da vida.

 

A grande questão é: quem é que tem vindo a matar a esquerda? Há culpas a dividir por todos, à esquerda? Pois há, mas isso não implica que haja alguns mais culpados do que outros. Eu sei que tu sabes que eu sei que o PCP vive agarrado aos restos do muro de Berlim, o que torna difícil (mas não impossível) encontrar alguns pontos de contacto. Eu sei que tu sabes que eu sei que o Bloco é, muitas vezes, mais giro do que consequente e que tem um certo hábito de se dedicar a coreografias modernaças um bocado irritantes. Mas o que dizer do PS? De modo simplista, temos um PSO (Partido Socialista na Oposição) e um PSP (Partido Socialista no Poder). O primeiro é de esquerda e encontra, mesmo que incomodado, convergências à esquerda; o segundo é de direita, digo eu. Podemos discordar neste segundo ponto. Mas vamos imaginar que não discordamos. A pergunta a fazer é: se o PS governa à direita, o que deverá fazer a oposição de esquerda? Olhar para o ideário ou para a prática?

 

Se um governo, por exemplo, destrói sistematicamente (ia a dizer metodicamente, mas não sei se), e com o contributo do PSD e o apoio do capitalismo, o Estado Social, como poderá responder a isto a esquerda, por muito folclórica ou urbanoqueque que seja? Se um governo ataca até à ruína as paredes-mestras da Escola Pública, tornando-o ainda mais injusta e mais reprodutora das igualdades do que já era, como terá de reagir a esquerda?

 

Quer isto dizer que o PS tinha a obrigação de desligar o cérebro e anuir a qualquer disparate que venha da esquerda? É claro que não, mas não será estranho que um partido que se grita de esquerda se sinta mais à vontade a negociar à direita, como reconheceu, implicitamente, o Sócrates com a história do tango?

 

O PS vendeu todos os seus ideais em nome do poder e entregou-se a uma figura medíocre que parece um homem decidido, mas é apenas obstinado e, sobretudo, muito pragmático no que respeita ao necessário para manter o poder. Nada nestas eleições me fez feliz, por muito que possa significar o desejado fim de Sócrates (e, mesmo assim, duvido).

 

Não fico feliz quando vejo que a maioria dos votantes se identifica com outra figura absolutamente medíocre, independentemente de ser de direita, porque o problema de Cavaco é que não é, por exemplo, nenhum Laborinho Lúcio, só para referir um homem tão desconhecido das massas.

 

Não fico feliz, quando vejo um homem como Alegre que, quanto a mim, se perdeu num projecto que se transformou em algo mais ligado a uma ambição pessoal do que à generosidade de tentar unir a esquerda, como há cinco anos. Mas, por muito pessoal que seja uma candidatura presidencial, não havemos nós de reparar nas companhias? Como foi possível o Bloco apoiar um candidato que chegou a criticar o governo, para depois se calar? Não estou a dizer que o Alegre devia passar o tempo a opor-se ao governo, estou só a dizer que, por uma questão de consciência, isso deveria ter acontecido, na maior parte dos casos, tendo em conta, lá está, que os ideais de Alegre estão no PSO e não no PSP. Fico com a impressão de que o Bloco quis apoiar um candidato, mas quando lá chegou, já era outro. Resultado: houve gente do Bloco que se recusou a votar Alegre.

 

O apoio do PS a Alegre foi, por outro lado, um beijo de Judas, que o poeta aceitou. Ora, quem recebe beijos de Judas, como sabes, arrisca-se a acabar crucificado. Não sei se Sócrates se vai enforcar, arrependido, mas cheira-me que não. Acho que vai gastar como lhe der mais jeito os trinta dinheiros. Pondo de lado tanta alegoria bíblica, não seria de esperar que muita esquerda, eventualmente séria, se visse obrigada a fugir da companhia de Sócrates? O prejuízo foi de Alegre, claro.

 

Também é claro que não há comparação entre a elegância de Alegre na hora da derrota e deselegância que se esperaria desse Cavaco chamado Sócrates e a verdade é que o senhor primeiro-ministro não deve ter ficado especialmente incomodado e voltou a correr para o gabinete. Neste preciso momento, o governo está a “negociar” com os parceiros sociais novas formas baratas de despedir, sempre do lado dos patrões e nunca do lado dos trabalhadores, com o argumento de que é preciso pormo-nos a par do que se faz lá fora, mesmo sabendo que os ordenados e o resto da legislação laboral continuarão a ser diferentes.

 

Quero eu dizer que, só por ser de esquerda, devemos agir com um reflexo condicionado e começar a rosnar à simples audição de palavras como “patrões” ou “capitalismo” ou “bancos” ou “lucros”? Não numa esquerda séria, evidentemente, mas ser de esquerda não será tentar equilibrar a sociedade em favor dos desfavorecidos? Sendo assim, Helena André e Valter Lemos são de esquerda?

 

Já escrevi esta tralha toda e nem chego a perceber se discordei de ti ou não. Sei que, com atitudes diferentes, andamos basicamente ao mesmo, um mais comodista e cínico e o outro muito mais activo e generoso (tu és o outro, claro).

 

Quem tramou a esquerda? Foi a esquerda, claro, mas se fizermos um gráfico, não será que a culpa está sobretudo naquele partido que se afastou de si próprio? Isto das culpas serve para quê? Para ajustar contas? É o que menos me interessa e volto ao princípio: aprender com a História e emendar. As sondagens para as legislativas (que valem o que valem, lá diz a frase maravilhosa) indicam que o PS, o BE e o PCP têm maioria absoluta. É claro que também indicam que o PS, o PSD e o CDS têm maioria absoluta. E agora?"

 

Ao que o Fernando diz, somo eu o seguinte:

 

Fernando, espero que esta que te escrevo te vá encontrar bem de saúde. Nós por cá todos bem.

 

Dizes que

 

"O primeiro [PS] é de esquerda e encontra, mesmo que incomodado, convergências à esquerda; o segundo é de direita, digo eu. Podemos discordar neste segundo ponto"

 

Não, não podemos. Eu concordo.

 

Dizes que

 

"Se um governo ataca até à ruína as paredes-mestras da Escola Pública, tornando-o ainda mais injusta e mais reprodutora das desigualdades do que já era, como terá de reagir a esquerda?"

 

Aqui a coisa demora mais.

 

Em primeiro lugar, a escola pública não é um vector de esquerda. Mas é um vector da esquerda. O terramoto que se abate sobre a dita escola pública é, em muitos casos, um terramoto que tu e eu sempre soubemos indispensável. Só quem nada sabe sobre a sala de professores, esse humaníssimo Olimpo, é que pode dizer que a escola pública não precisa de um safanão. O que estamos sempre de acordo é nisto: a escola pública precisa de profissionalismo. E não de safanões. Sobretudo de safanões que derrubem justamente o profissionalismo que já existe. O que vejo é que ninguém investe coisa nenhuma naquilo que, simplesmente, se designa por profissionalismo.

 

Compara os níveis de absentismo dos professores antes e depois destes safanões todos e diz-me que a escola pública reproduzia igualdades. Fala-me sobre a necessidade de avaliação dos professores e diz-me se a coisa, como estava, era admissível ou sustentável? Será preciso explicar alguma coisa sobre a insuportável inépcia, inércia, de Conselhos Executivos que geriam as escolas como se estivéssemos no século XIX? Preciso eu de te explicar por que razão algumas, muitíssimas, bibliotecas escolares do país estavam populadas pelos mais bem pagos e sedativos professores da escola, nenhum deles fazendo a mais remota ideia do que raio é ou deve ser uma biblioteca? E que para ali, ombro com ombro, fossem despejados os professores reconhecida e embaraçosamente mais incompetentes, como se a biblioteca, ou os apoios, ou a educação especial fossem assim uma espécie de terra de ninguém onde tudo era irresponsabilizável? E por aí fora. Vê até onde chega a pataratice: anda tudo muito indignado com o facto de as escolas estarem a usar os seus alunos para reivindicarem interesses privados (e com toda a razão) e estas mesmas pessoas condenam o sistema de aulas de substituição, corrente hoje nas escolas públicas, com tudo o que tem de controverso (na maior parte dos casos por falta de brio e zelo).

 

Não preciso de te dizer aquilo que sabes que penso sobre as reformas que nos foram impostas. Mas digo. São, na sua esmagadora maioria execráveis. Incompetentes e burras. Arrogantes e surdas. Inconsequentes e impraticáveis. Insensatas e inúteis. Nada disso nos deve fazer esquecer que serão, muito mais tarde do que deveriam ser, todas elas, indispensáveis. E que será tão necessário como dispendioso abatê-las de novo com o propósito pragmático de as retomar, mal morram de exaustão, que é aquilo a que estão condenadas.

 

Em segundo lugar, perguntas o que devia a esquerda fazer? Aquilo que a esquerda tem de fazer é-me desconhecido. Agora aquilo que o único partido não revolucionário de esquerda deste país tem de fazer é de reencontrar-se com a sua matriz. Guterres planeou essa necessidade bem cedo.Não se trata de fazer o seu Concílio de Trento. É um renascimento inteiro onde o homem se inteire na sua dimensão solidária e ecológica.

  

Já não se aguenta tanto diagnóstico acerca do que está mal. Nasce-me um tédio puro quando ouço alguém dizer que é preciso um "novo paradigma" ou que "este sistema faliu" ou que o problema está no "sistema de partidos do século XIX". Tudo isto é tão inerte, quanto falso e inconsequente. E todas estas inteligências podem dizer-se de outra maneira: "Não faço ideia de como havemos sair disto".

 

De uma coisa eu sei. Sair disto só se faz de uma maneira. Uma só. Faz-se participando. Indo a jogo. Não tenho nenhum cartão de partido, como bem sabes. Nunca serei outra coisa que não socialista. Já não mudo. E asseguro-te que sou mais socialista que muitos militantes, também já o percebi. Mas não vejo num partido uma estrutura que só me interessa se fizer tudo o que eu diga e concretize tudo quanto pense. A história explica a quem tente perceber que uma matriz não se devolve com pessoas que a relembrem, faz-se com pessoas que a pratiquem, que assim tornem impossível que os outros dela possam esquecer-se. Pelo exemplo. Mas o exemplo só se faz por dentro. É uma conversão íntima. Não se faz por pública evangelização. Faz-se por sacrifício pessoal. Com penas várias sobre a vidinha. A vidinha. Essa vidinha que tantos condenam desde que se refiram à vidinha dos outros.

 

É por causa da vidinha que quase tantos se distanciam da política e se indignam com estarrecimento virginal perante a inundação da corrupção e outros males. A vidinha, pouco mais.

 

Discordo abertamente com quase tudo o que foi feito em matéria de educação. Mas digo-te que os eixos de intervenção para uma melhoria da escola pública passam exactamente por onde todas estas reformas, (ou quase todas, que algumas há que não lembrariam ao diabo), pretendem caminhar: estruturas materiais, responsabilização, racionalização de recursos e reforma curricular.

 

Nenhuma delas se concretiza sem autonomia efectiva. E esse é o erro clamoroso deste governo em matéria de educação. Não há investimento absolutamente nenhum em matéria de autonomia. E é por aqui que tudo deveria ter começado. É por aqui que tudo recomeçará um dia.

 

Dizes que

 

"O PS vendeu todos os seus ideais em nome do poder e entregou-se a uma figura medíocre que parece um homem decidido, mas é apenas obstinado"

 

Referes-te ao tal PS de direita, certo? O PSP. (É que de vez em quando dá jeito conceber o PS como um partido dividido, outras vezes mete-se tudo no mesmo saco, consoante as ventanias).

 

Aquilo que hoje se verifica é uma dissensão no interior do partido socialista. E é esse o grande erro cometido por Sócrates. O apoio a Soares criara essa dissensão. E depois o apoio a Alegre aprofundou ainda mais essa divisão.

 

Reparaste? O Almeida Santos dizia que "os erros pagam-se". Não se percebeu bem a que erros ele se referiu. Os de hoje ou os de ontem. Mas, se o percebo bem, parece-me que sabe muito bem do que fala e que a sentença não é tão inócua como deseja parecer. 

 

De tudo isto resulta um partido socialista quebra(nta)do. Mas aquilo que mais te irritou foi o saberes que é em alturas destas que o povo de esquerda - como lhe chama Alegre - deve erguer-se. E não o fez. Alegre representa o que designas por PSO. A sua eleição poderia representar a tal conversão íntima que o partido socialista precisa de operar. E fá-lo-á. Entretanto, temos um PS congelado. Mas começará a descongelar mal lhe cheire a perda de poder. Tenho ouvido falar de um aquecimento global.

 

Neste momento torna-se claro que Sócrates - decidido ou obstinado - concebeu uma solução, uma estratégia, para o partido socialista. A sua decisão de apoiar Alegre implicou um vexame ao partido socialista. E isto é iniludível. A estratégia de Sócrates já fez com que o partido socialista perdesse demasiadas coisas. Aí vão três: legislativas 2009 (45% para 36,5%), europeias 2009 (44,5% para 26,8%), presidenciais 2011 (Soares 14,3%, Alegre 19,7%). Guterres saiu de moto proprio por causa de um vexame assim. Estamos num pântano. Quem conduz os destinos de um partido acabará ser responsabilizado. E sê-lo-á. Nenhum partido perdoa perdulários. Em política, por menor que seja o mérito do vencedor, só conta quem vence.

 

Dizes que

 

"não será que a culpa está sobretudo naquele partido que se afastou de si próprio?"

 

Claro que sim. Mas desde quando é que isso não acontece na história dos partidos? Que perplexidade é essa? Repito. Aquilo que há a fazer não é insistir num diagnóstico que, há anos, se encontra devidamente clarificado. O que importa é responder a isto: "O que vais tu fazer para o fazeres aproximar de si próprio?". Que tens tu, cada um de nós, a fazer de concreto acerca disto?

 

Há muita coisa para fazer. Lembro-me de três.

 

Um, "Não jogo" - ou seja, não faço nada.

Dois, "Passo" - resmungo entre dentes (cafés, esplanadas, blogs, jornais, conferências, entrevistas...).

Três, "Vou a jogo" - exponho-me e comprometo-me com uma campanha qualquer por essa "recalibração".

 

Mas isso de ir a jogo dá trabalho; obriga-me a sair à noite e obriga a que as pessoas saibam todas o que penso; impõe-me riscos vários, o risco de não me darem valor, o risco de me riscarem da sua lista de amiguismos, o risco de compromisso, que é coisa a que não estou sujeito quando me calo ou quando passo e não vou a jogo. E outros riscos bem mundanos que me fecham portas. A mim e aos meus.

 

Nos cafés, esplanadas, blogs, jornais, conferências, entrevistas apenas a minha opinião prevalece, apenas a minha opinião conta. A coisa corre-me sempre bem nesse cantinho meu. Resmungar para um público, em ambiente controlado, produz um molho viçoso de monólogos, ansiosos de tempo de antena.

 

Se for a jogo, aí terei de lidar com as outras pessoas e isso é uma maçada. Posso mesmo ser forçado a tomar decisões. O que me obriga a ter de lidar com consensos. E os consensos são um aborrecimento porque, tipicamente, me obrigam a abandonar algumas das coisas que defendo.

 

É muito janota ser coerente comigo mesmo (e nem digo que isso seja fácil uma vez que nem sempre o é, a não ser que passe o tempo a citar-me e a encontrar sinónimos do que já disse antes). Chama-se a isso cumprir o calendário do meu umbigo.

 

Difícil mesmo é ser coerente com os demais. Pouco ou nada de importante se faz sem gente empreendedora na companhia de outra gente empreendedora. E o civismo - na sua percepção antiga que hoje chamam cidadania - implica esse empreendimento desmedido que é o de pugnar com invulnerável honestidade - por afirmação de exemplo -  por aquilo que julgamos melhor. E isso não se faz sentado. Estar num lugar onde a corrupção é viável e, por tua causa, deixa de ser. Na companhia - desejável ou indesejada - dos outros e não sobre os outros. Activismo, portanto. Apeado.

 

Isso é que, a meu ver, é a política. Aquilo que a esquerda e a direita precisam, para que consigam recalibrar a eficiência da política que vêm dissipando, é de pessoas apeadas. Pessoas de exemplo. De mais pessoas que pensem como tu, Fernando, pensas. Em todo o caso, pessoas que ajam, como muitos, como tu Fernando, que importa que estejam para isso mas que, simplesmente, não estão.

publicado por Rui Correia às 23:15
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11 comentários:
De Lúcio a 25 de Janeiro de 2011 às 23:58
E porquê? Quase adivinho. Mas faz "mal" (termo que, por certo, também remeteu para o sotão...) Mas, já agora, leve a disciplina (?) até ao fim e suprima também "mérito" - que juntamente com a que reduziu a anátema permitem ao homem a maior dignidade.
De Rui a 26 de Janeiro de 2011 às 01:00
Caro Lúcio. Sem bem o entendo, e receio poder estar errado, "Mal" é um termo que vive de facto no meu sotão há décadas. No demais é excessivamente críptico para poder (re)comentar. Mas já vejo que pertence à nova maioria silenciosa. Em todo o caso perceba que não emito aqui qualquer juízo moralista. É apenas por cansaço de contornar a redondez dos argumentos. Ou, como disse noutro lugar, fogosidades de esplanada.
De Lúcio a 26 de Janeiro de 2011 às 11:39
Pois, caro Rui, já suspeitava... Admita, porém, que a presuntiva superioridade da postura "amoral" é, ela própria, uma atitude moral.
Cumprimentos da minoria (nada silenciosa; antes anti verborrosa)
De Rui a 26 de Janeiro de 2011 às 13:42
Tem toda a razão, Lúcio, toda. Que posso eu fazer, não obstante se não invocar essa minha sincera pretensão?
De Lúcio a 26 de Janeiro de 2011 às 13:14
Mas, caro Rui, concedo que, no primeiro comentário, enveredei pela irrelevância e me detive no acessório -falácia fácil, eficaz ratoeira; mea "culpa" (!). Vamos, pois, à substância. Desconte-se a ganga ideológica explícita (sim, que a implícita é, talvez, icontornável - a apoliticidade, como a amoralidade, é uma miragem dos desatentos) e subscreva-se o que diz dos pretéritos (?) desmandos da escola pública (que conhecerá muito melhor do que eu), e com os quais a seriedade, a justiça e a eficácia não poderiam/podem pactuar - mesmo sabendo que é bem mais fácil acertar no diagnóstico do que traçar a correcta prescrição que cura. Cumprimentos.
De Rui a 26 de Janeiro de 2011 às 13:45
Bem que gostaria, mas, como sabe, nada posso acrescentar.
De Fernando a 28 de Janeiro de 2011 às 01:20
Em primeiro lugar, podes substituir culpa por responsabilidade, mas não sei se a diferença conceptual, lá no fundo, é suficiente para se tornar importante escolher palavras. No entanto, nenhuma das palavras me faz confusão. O que interessa é o que se faz em consequência da culpa ou da responsabilidade.
Acerca da necessidade de mudar muita coisa nas escolas só posso concordar contigo e exactamente em muitas das áreas em que os governos de Sócrates resolveram mexer. Só que, como dizes, mexeram mal e estragaram. (Alegoria: uma pessoa tem uma apendicite e, portanto, precisava de ser operada. Vai o dr. Sócrates e tira-lhe o fígado e meio rim. Não só não resolve um problema, como cria mais dois) No que respeita às aulas de substituição, o que me parece absolutamente inaceitável não é a sua existência, mas o facto de serem postas em prática à custa da sobrecarga dos professores, por muito brio e zelo que seja exigível. Portanto, a escola não estava bem, não senhor, e agora também não. Concordamos, pois.
É verdade que também não faço ideia de como sair disto, mas há sempre alguma utilidade em dizer mal e, também, em ouvir dizer mal, porque há um fundo de verdade que se nota no excessivo predomínio dos partidos na vida política, dificultando a intervenção cívica a quem não a queira fazer por aí.
Quanto ao ir a jogo, vamos ver. Sei que não tens cartão de partido e sei que és mais socialista que muitos militantes e sei, até, que és muito mais militante que muitos socialistas. Também eu não “vejo num partido uma estrutura que só me interessa se fizer tudo o que eu diga e concretize tudo quanto pense.” Só não me vejo num partido. Será comodismo? Não te sei responder: mesmo não me sentindo acomodado, há atitudes que não me apetece tomar e entre a possibilidade (até certo ponto confortável – sim, sim, confortável, porquê? – e tentadora) de me inserir num grupo e um cepticismo metódico que é uma espécie de minha segunda natureza (uma defesa, uma incapacidade patológica, mas não “estarrecimento virginal”) vou procurando intervir num círculo restrito, mas não deixa de ser intervir. E o exemplo pode ser dado por conversão íntima, mas também pode fazer-se por pública evangelização, ora essa.
Não vamos juntos quando dizes que todos os partidos se afastaram de si próprios. Descontando os tiques já apontados pelo Eça acerca do comportamento ser diferente na oposição e no poder, a verdade é que os partidos de centro-direita e de direita nunca se afastaram das suas matrizes, quando chegaram ao poder. Já o PSP nunca conseguiu resistir ao apelo reaccionário do poder (não houve alguém que disse que o poder é de direita?), com o Soares a meter o socialismo na gaveta ou o Guterres a aprovar orçamentos limianos ou estes seis anos de FMI. Pessoalmente, o meu contributo para que o PS volte a si próprio foi, por exemplo, o de nunca mais ter votado neles e de aplaudir ou criticar. Será pouco, mas não tenho estado sozinho.
A propósito dos teus três modos de fazer, e juro-te que não estou a pensar em mim, não concordo que soltar umas postas de pescada em cafés e esplanadas se possa equiparar, necessariamente, a blogs, jornais, conferências e entrevistas. Podem ser planos diferentes e sabes bem que a blogosfera, por exemplo, tem tido um papel cívico extraordinário.
Penso que, no fundo, não desvalorizas assim tanto aqueles que se limitam a usar a palavra, mesmo sem se apearem, até porque tu és um homem também de palavra(s), mesmo que apeado. Sei também que sempre foste militante e, para te contrariar, nunca precisaste de um partido para exercer essa militância. Até te digo uma bem gira: foi um partido que precisou de ti, o que é um bom sinal. Entretanto, parece-me que a tua opinião (não tu, nota) corre um bocado o risco de ficar presa pela partidocracia, numa espécie de argumento que deixa de fora do activismo qualquer acção que não esteja, pelo menos, próxima dos partidos. Logo tu, repito, que sempre foste um activista, mesmo quando não estavas tão próximo da política.
Registo o incentivo que me diriges em forma de crítica e, eventualmente, de chantagem (assim, uma espécie de “não és homem, não és nada, se não te apeares”). Sabes bem que sinto isso como um privilégio.
De Rui a 28 de Janeiro de 2011 às 09:56
Fernando, tu és tudo menos comodista.
Fernando, não me digas a mim a importância dos blogs, que nenhum dos meus amigos tinha blogs até eu os invectivar a começarem, a não ser o Tito de Morais.
Fernando, ninguém aprecia mais do que eu conversas de café.
Fernando, ninguém aprecia menos do que eu conversas de café.
Fernando, por pública evangelização quero eu dizer, apenas por pública evangelização.
Fernando, desde os meus quinze anos nunca vivi dia nenhum sem estar envolvido em qualquer associação ou projecto cívico, para o qual contribuí sempre de forma gratuita e entusiasmada. O que dizes, se fosse verdade acerca da partidocracite esborrachava a minha vida toda.
Fernando, sou completamente contra a ideia pela qual os partidos são o mal de todo o mal.
Fernando, o partido socialista convidou-me mas precisa tanto de mim como de sarna.
Fernando, o que me pergunto sempre é por que raio é preciso que haja revoluções para que as pessoas como tu se apeiem?
Fernando, obrigado pela tua paciência.
Fernando, por favor diz qualquer coisa que eu tenho horror a ter a última palavra.
De Fernando a 28 de Janeiro de 2011 às 18:44
Rui, eu sou comodista, mas não tanto como eu próprio julgo. Sou, no entanto, muito mais comodista do que deveria ser, confesso, e são exemplos como o teu que me incomodam, no melhor dos sentidos.
Rui, pensamos o mesmo de blogs e conversas de café, mas olha que até parecia que não.
Rui, eu sei que a tua vida está muito para além dos partidos e isso foi o que eu disse. Só me pareceu que a tua opinião (a opinião e não tu) estava partidocratizável ou parapartidocratizável (iacumcatano!).
Rui, os partidos não são o mal de todo o mal. Limitaram-se a ocupar e a usurpar o vazio onde deveria estar outro tipo de intervenção cívica. De resto, estão tão cheios de defeitos como eu ou menos.
Rui, qualquer partido precisa de ti. O partido socialista precisa de ti, por muitas razões e uma delas é porque também precisa de sarna.
Rui, bom seria que não fosse preciso fazer tanta revolução, mas também é preciso ver que nem todos temos a mesma capacidade para andar a pé ou que uns andam mais depressa do que outros. Tu, ainda por cima, és um bom bocado mais comprido do que eu e é por isso que andas mais depressa. Vai andando que eu já lá vou.
Rui, não conheço ninguém mais paciente do que tu, portanto, não me agradeças a minha paciência ou ainda a perco.
Rui, por favor, não me obrigues a dizer a última palavra, que ainda tenho tanto para te dizer. Não digas tu a última palavra e continua a escrever e a falar, porque ler-te e ouvir-te é uma das minhas melhores maneiras de pensar.
De Jorge a 30 de Janeiro de 2011 às 13:05
Interessante leitura. Já agora, o dito PSO não existe, como provam as sucessivas demonstrações de apoio ao líder nos congressos. Mais do que não ir a jogo, é a vida, como dizia o outro. Ou a vidinha, mais apropriadamente.
De Redes a 31 de Janeiro de 2011 às 22:41
Bem dito! Sobretudo, a vidinha! Cabe ao PS eleger líderes capazes e acima de toda a suspeita. O facto é que os militantes parecem preferir quem lhes vá tratando da vidinha. Por isso, o meu voto, alegre, por agora, fugirá nas legislativas para o Bloco, apenas por acreditar positiva a sua influência nos negócios públicos.

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