Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2011

paradoxais regalos

E pronto. Está consumada a vingança. Melhor: estão consumadas muitas vinganças. Estão reparados, regalados, os que acreditaram que, com esta derrota de Alegre, também o PS de Sócrates perde hoje, por ser esse o seu candidato oficial. São esses os maiores vencedores. Vencedores, contudo, de coisa alguma, vai-se a ver.

 

No entender de muitos, o tal PS de Sócrates terá mesmo vencido esta volta, uma vez que Alegre trar-lhe-ia uma convivência bem mais impertinente. Cavaco manter-se-á certamente um vizinho bem menos barulhento, mesmo tendo em conta não precisar de provar nada num segundo mandato. Sócrates não desconhece esta regalia paradoxal. Além do mais, não me parece que Cavaco tenha assim tanta pressa em misturar-se com Passos Coelho e Paulo Portas e rodopiar com eles num improvável trio.

 

Hoje, lado a lado com todos quantos execram Sócrates e que neste momento esfregam as mãos regaladas por um quixotesco contentamento, estão os mais estrénuos defensores de Sócrates que vêem nesta derrota indisfarçável a reparação imprescindível do atrevimento de Alegre em ter disputado eleições o PS de Soares. De Sócrates. Um absurdo.

 

É inédito que, cada um em sua casa, se sintam ambos felizardos por razões tão diametralmente opostas.

 

Agora já só resta, pois, a eleição da direita parlamentar. A esquerda – a que hoje rejeitou o projecto de Alegre - contribui para a agenda da direita. Eleições contra Sócrates é o que se impõe agora. Para cavalgar a onda. Mas, então, o que restará da esquerda? Um bloco louçã em alta e uns socialistas de louça. Aprendeu-se a lição: Bloco + PS = vexame. Quem votou em Alegre e se ressente hoje da falta de apoio do PS de Sócrates não perderá a vontade de colaborar na reparação do resultado humilhante destas eleições presidenciais. As vinganças não terminaram no seio da esquerda. Aguarda-se o capítulo seguinte.

 

Será que, ao ver que Portugal se preparará para consagrar a trindade Cavaco Coelho Portas, a esquerda vai votar em Sócrates – que anuncia a sua reeleição para a direcção do PS?

 

Ou como hoje aconteceu, sucumbirá a novas vinganças e voltará a servir de bandeja o poder à direita? E o povo? Esse elemento sempre tão importuno. Quererá ele mais do mesmo Sócrates ou quererá ele Passos Coelho/Portas/Ângelo Correia/Luís Filipe Meneses?

 

Finalmente, quem perde com isto?

 

A esquerda séria. Está derrotada a derradeira réstia de uma esquerda firmada nos valores do liberalismo republicano. Creio não estar a ser desmedido quando penso que o 25 de Abril morre definitivamente hoje. Abre-se a porta para uma revisão constitucional que expurgará o que fez de Portugal um Estado Social e um Estado socialista. E tudo porque a esquerda moderada amua por todos os cantos. E amuada por duas sanhas: o anti-socratismo e o anti-alegrismo. Tudo contra alguém e nada a favor de alguém. Nada de jeito resulta de ódios.

 

A esquerda sempre soube fazer isto bem, dividir-se para ajustar contas internas. Ficaram em casa. Votaram em branco. E, enquanto isso, do lado de fora disto tudo, a direita apenas aguarda, assiste e ri, regaladinha. Ouve-se daqui o riso. Daqui a uns meses, não mais.

publicado por Rui Correia às 01:25
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2 comentários:
De Fernando a 25 de Janeiro de 2011 às 11:54
Ainda pensei mandar-te isto em off, mas fica aqui mesmo em show-off, que isto de andar à porrada tem muito mais piada em público e adoro que me batas.
Penso que é muito importante olhar para o futuro da esquerda, mas, para isso, não é menos importante virarmo-nos para o passado, porque a História, como sabes muito bem, é a mestra da vida. A grande questão é: quem é que tem vindo a matar a esquerda? Há culpas a dividir por todos, à esquerda? Pois há, mas isso não implica que haja alguns mais culpados do que outros.
Eu sei que tu sabes que eu sei que o PCP vive agarrado aos restos do muro de Berlim, o que torna difícil (mas não impossível) encontrar alguns pontos de contacto. Eu sei que tu sabes que eu sei que o Bloco é, muitas vezes, mais giro do que consequente e que tem um certo hábito de se dedicar a coreografias modernaças um bocado irritantes.
Mas o que dizer do PS? De modo simplista, temos um PSO (Partido Socialista na Oposição) e um PSP (Partido Socialista no Poder). O primeiro é de esquerda e encontra, mesmo que incomodado, convergências à esquerda; o segundo é de direita, digo eu. Podemos discordar neste segundo ponto. Mas vamos imaginar que não discordamos. A pergunta a fazer é: se o PS governa à direita, o que deverá fazer a oposição de esquerda? Olhar para o ideário ou para a prática? Se um governo, por exemplo, destrói sistematicamente (ia a dizer metodicamente, mas não sei se), e com o contributo do PSD e o apoio do capitalismo, o Estado Social, como poderá responder a isto a esquerda, por muito folclórica ou urbanoqueque que seja? Se um governo ataca até à ruína as paredes-mestras da Escola Pública, tornando-o ainda mais injusta e mais reprodutora das igualdades do que já era, como terá de reagir a esquerda?
Quer isto dizer que o PS tinha a obrigação de desligar o cérebro e anuir a qualquer disparate que venha da esquerda? É claro que não, mas não será estranho que um partido que se grita de esquerda se sinta mais à vontade a negociar à direita, como reconheceu, implicitamente, o Sócrates com a história do tango? O PS vendeu todos os seus ideais em nome do poder e entregou-se a uma figura medíocre que parece um homem decidido, mas é apenas obstinado e, sobretudo, muito pragmático no que respeita ao necessário para manter o poder.
Nada nestas eleições me fez feliz, por muito que possa significar o desejado fim de Sócrates (e, mesmo assim, duvido).
Não fico feliz quando vejo que a maioria dos votantes se identifica com outra figura absolutamente medíocre, independentemente de ser de direita, porque o problema de Cavaco é que não é, por exemplo, nenhum Laborinho Lúcio, só para referir um homem tão desconhecido das massas.
Não fico feliz, quando vejo um homem como Alegre que, quanto a mim, se perdeu num projecto que se transformou em algo mais ligado a uma ambição pessoal do que à generosidade de tentar unir a esquerda, como há cinco anos. Mas, por muito pessoal que seja uma candidatura presidencial, não havemos nós de reparar nas companhias? Como foi possível o Bloco apoiar um candidato que chegou a criticar o governo, para depois se calar? Não estou a dizer que o Alegre devia passar o tempo a opor-se ao governo, estou só a dizer que, por uma questão de consciência, isso deveria ter acontecido, na maior parte dos casos, tendo em conta, lá está, que os ideais de Alegre estão no PSO e não no PSP. Fico com a impressão de que o Bloco quis apoiar um candidato, mas quando lá chegou, já era outro. Resultado: houve gente do Bloco que se recusou a votar Alegre.
O apoio do PS a Alegre foi, por outro lado, um beijo de Judas, que o poeta aceitou. Ora, quem recebe beijos de Judas, como sabes, arrisca-se a acabar crucificado. Não sei se Sócrates se vai enforcar, arrependido, mas cheira-me que não. Acho que vai gastar como lhe der mais jeito os trinta dinheiros. Pondo de lado tanta alegoria bíblica, não seria de esperar que muita esquerda, eventualmente séria, se visse obrigada a fugir da companhia de Sócrates? O prejuízo foi de Alegre, claro.
Também é claro que não há comparação entre a elegância de Alegre na hora da derrota e deselegância que se esperaria desse Cavaco chamado Sócrates e a verdade é que o senhor primeiro-ministro não deve ter ficado especialmente incomodado e voltou a correr para o gabinete.
De Fernando a 25 de Janeiro de 2011 às 11:54
Continua aqui


Neste preciso momento, o governo está a “negociar” com os parceiros sociais novas formas baratas de despedir, sempre do lado dos patrões e nunca do lado dos trabalhadores, com o argumento de que é preciso pormo-nos a par do que se faz lá fora, mesmo sabendo que os ordenados e o resto da legislação laboral continuarão a ser diferentes. Quero eu dizer que, só por ser de esquerda, devemos agir com um reflexo condicionado e começar a rosnar à simples audição de palavras como “patrões” ou “capitalismo” ou “bancos” ou “lucros”? Não numa esquerda séria, evidentemente, mas ser de esquerda não será tentar equilibrar a sociedade em favor dos desfavorecidos? Sendo assim, Helena André e Valter Lemos são de esquerda?
Já escrevi esta tralha toda e nem chego a perceber se discordei de ti ou não. Sei que, com atitudes diferentes, andamos basicamente ao mesmo, um mais comodista e cínico e o outro muito mais activo e generoso (tu és o outro, claro). Quem tramou a esquerda? Foi a esquerda, claro, mas se fizermos um gráfico, não será que a culpa está sobretudo naquele partido que se afastou de si próprio? Isto das culpas serve para quê? Para ajustar contas? É o que menos me interessa e volto ao princípio: aprender com a História e emendar.
As sondagens para as legislativas (que valem o que valem, lá diz a frase maravilhosa) indicam que o PS, o BE e o PCP têm maioria absoluta. É claro que também indicam que o PS, o PSD e o CDS têm maioria absoluta. E agora?

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