Sábado, 18 de Dezembro de 2010

empilhamento

 

A recente eleição do Conselho Geral do Agrupamento de Escolas de Sto Onofre marca um novo ciclo na vida deste estabelecimento de ensino. Existe, ao que parece, uma predisposição abertamente voluntarista em criar condições para devolver ao agrupamento o prestígio que em tempos foi acumulando. Trata-se, porém, de um Conselho Geral com os seus dias contados. A previsível intenção de megaempilhar as escolas da cidade – se é que alguma intenção é previsível em educação em Portugal - parece ir fazendo o seu caminho e, em breve, tornará obsoletas todas as escaramuças guerrilheiras que este e aquele parecem querer manter vivas para que pareça que há “boicotes” e “resistências” e outros álibis que venham mais tarde a desculpar o deplorável estado em que esta escola caiu. Torna-se verosímil que, cedo ou tarde, o agrupamento venha a incluir a Escola Secundária de Raul Proença. Na lógica entretanto criada, uma integração educativa que não totalize os doze anos de escolaridade entretanto obrigatórios tornar-se-ia, na verdade, uma aberração.

 

No meu entender, que é o de alguém que não conhece argumento sustentável para este empilhamento de escolas, percebo as alegações economicistas do governo PS. Eu nada tenho contra o economicismo. Até em minha casa sou economicista. "Especialmente por razões financeiras", como diria o Woody Allen. Mas, se em matéria de empilhamento, nuns lados o governo foi longe de mais, noutros ficou aquém do que poderia ir. Creio, por exemplo, que toda a gestão administrativa dos agrupamentos deveria ter desaparecido de vez da vida das escolas para ser integralmente resolvida a outro nível. Um modelo de administração, com sede numa agência municipal de educação, imporia uma centralidade regional, obrigaria a um profissionalismo, imporia uma outra integração informacional, permitiria criar instrumentos fidedignos para um planeamento e prospecção educativa competentes e economicistas. Passaríamos, estou seguro, de um funcionalismo público para uma efectiva funcionalidade pública.

 

No que diz respeito à presente centralização do quadro de chefias escolares creio que o que hoje se prepara para acontecer será, pelo contrário, um fenómeno infeliz, gerador de carestias maiores do que a que se pretende evitar. É uma questão de tempo. Até da Presidência da República nos chegam estes apelos à diligência em educação, para que consigamos ultrapassar o nosso endurecido atraso nacional. Não se pode perder tempo. Já perdemos tempo de mais. Em nenhum sector de actividade como na educação se aplica o ditame pelo qual “tempo é dinheiro”. Poupar tempo é, pois, indispensável para que este sistema de centralização e de controle remoto de escolas possa vir a ser eficiente.

 

Não custa reconhecer a ninguém que um agrupamento de escolas pode e deve ser mais poupado; mas custa-me que não se perceba que só o pode ser se for educacionalmente congruente. E isso significa tempo. Conhecendo como conheço a intimidade dos orçamentos escolares, duvido muitíssimo que um empilhamento aleatório de escolas permita poupar algum dinheiro, (dinheiro que se veja, quero eu dizer), considerando o esforço financeiro que este modelo microcentralizado de gestão irá reclamar. Repito: é uma questão de tempo.

 

Este sistema é propenso a criar uma distância pateta entre encarregados de educação e a direcção da escola dos seus filhos. O intervalo que separa os professores dos directores já cresceu. Só os docentes que trabalham em escolas sede demoram em perceber isso. Ora, para andar de um lado para o outro é preciso tempo. Todas as distâncias impõem tempo para poderem ser superadas. O tempo é, como o dinheiro, um bem escasso e corruptível. Para superar estas distâncias é inevitável a proliferação de perifenómenos profissionalmente erosivos e didacticamente supérfluos: as reuniões.

 

Sem uma estrutura comunicacional inteligente, que é coisa que dá trabalho, exige mais cabeça do que tronco e membros, e impõe uma orçamentação capaz, será fatal para os medíocres que se ponham a tentar resolver problemas novos com soluções velhas (as únicas que conhecem): convocando reuniões.

 

Entendamo-nos. Nada tenho contra reuniões. Tenho tudo contra reuniões que sirvam apenas para a transmissão de instruções. O estabelecimento de uma hierarquia de reuniões que nada produz e que se ocupa ininterruptamente a reproduzir missivas de outrem, é um factor de dissolução pedagógica. Trata-se de um fenómeno de corrupção dentro da função pública do professor. Ocupar tempo a um professor com reuniões de repetição de instruções hierárquicas é sequestrá-lo da sua utilidade e deturpar a missão que a comunidade lhes confiou: fazer aprender e saber avaliar.

 

Toda a formação contínua de professores deve orientar-se no caminho das didácticas aplicadas. E muito se vai já fazendo nesse sentido. Mas há ainda muita formação de professores que a única coisa que produz é uma multimilionária perda de tempo e de dinheiro. Isto, numa altura em que nem temos uma coisa nem outra.

 

Nas melhores iniciativas de formação de professores, vemos que se repete a mensagem pela qual um professor deve ser um inovador. E, de facto, o vector inovação constitui um elemento basilar de brio pelo estudo que se revela essencial para o sucesso dos alunos. Como pode um modelo de gestão estrangular todo o esforço de inovação dos seus professores? Nada mais simples. Sem uma estrutura diligente de comunicação de proximidade, toda a inovação se converte num estorvo dispendioso de tempo e de dinheiro.

 

Nem todas as pessoas estão dispostas a lutar contra a resignação impermeável dos seus colegas. Acredito que a inovação, firme na vulnerabilidade essencial de um qualquer pensamento criador, pode derrotar a mais esclerótica e demorada das burocracias. Mas conheço na pele qual a resistência que se opõe a um professor que queira trazer novos modos de pensar as coisas e de as procurar fazer numa escola.

 

Gerir uma realidade humana tão complexa como uma escola é algo que só pode ser cometido a um professor com larga experiência de sala de aula. Isto só não é claro para quem não tenha uma larga experiência de sala de aula. Porque das duas uma: ou aceitamos que uma escola é uma realidade complexa, ou não aceitamos. E, caso o aceitemos, é preciso conhecer-lhe as complexidades. E isso só se faz de dentro. Quem venha de fora, não lhe conhece as manhas. Nem as manhãs.

 

Mas há coisas em que todos parecem estar de acordo:

  • Todos concordam que os professores não podem perder a sua autoridade.
  • Todos concordam que eles a perderam, algures no caminho.
  • Todos concordam que o respeito pela autoridade do professor perde-se em casa dos alunos antes de se perder na escola.
  • Todos concordam que a incivilidade nas escolas cresce a olhos vistos.
  • Todos concordam que é indispensável fazer alguma coisa para repor nas escolas níveis fundamentais de segurança e de estabilidade disciplinar.

 

O interessante disto é que, quando estes problemas acontecem nas ruas da cidade, exige-se "mais polícias na rua e longe das mesas das esquadras"; fala-se até de “esquadras de proximidade”. Numa escola, faz-se exactamente o oposto: atira-se a autoridade para longe dali. Transfere-se a autoridade para uma “escola-sede” longínqua. Para longe dos problemas. Para longe das pessoas. Para perto dos papéis, dos emails, dos telefones e dos faxes. Para longe do recreio e da sala de professores. Para perto das mesas e, claro está, para dentro das reuniões.

 

Qualquer pessoa pressente o que isto vai provocar. Até parece que cheira a desastre. Mas não me atrevo a fazer estimativas. O que sei é que vai custar muito dinheiro. E eu tenho ouvido dizer que não andamos bem de dinheiro.

 

Na minha opinião, para que isto melhore, acho apenas que vai ser preciso tempo.

publicado por Rui Correia às 03:26
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