Terça-feira, 14 de Dezembro de 2010

PISA? Papéis.

 

Eu estou muito contente, mas Portugal não aprende. A euforia suscitada com os avanços de Portugal nos testes PISA reflecte exactamente tudo aquilo que não deve ser o acto de aprender. Aprender deriva do étimo ap prehendere que significa trazer para dentro. Os resultados do PISA deviam ser coisa para entendidos e não algo que se publicite para fora. A verdade é que nos sujeitamos a um embaraço. Estamos contentes por estarmos ligeiramente abaixo da média da OCDE? Se quiséssemos aprender alguma coisa com os resultados dos testes PISA perceberíamos que tudo isto se trata de algo tão volúvel que não é sério deduzir conclusões seguras ou criar expectativas por causa destas amostras.

 

A primeira reacção séria a tomar face a estes dados é a ficarmos preocupados com uma evolução de ruptura com o passado; são estas as que mais acendem luzes vermelhas, como o sabe todo o estatístico. Seja como for, em nenhuma circunstância podemos deduzir que os alunos portugueses, de um ano para o outro, são melhores na leitura, na matemática e nas ciências.

 

Um professor é por natureza um conservador. É, aliás, essa a finalidade derradeira da sua função social. Mesmo o mais ousado professor compreende que a sua empreitada é a de instilar no quotidiano dos seus alunos o apreço pela cultura, pelo livro, pelo raciocínio, pelo espírito crítico, pela criatividade, tudo valores imutáveis. Todas as efervescências mediáticas são-lhe indiferentes porque ele está preocupado é com o Manuel que tarda em integrar-se na turma, a Joana que tem uma caligrafia péssima com 15 anos, o Pedro que não consegue ter um lapso de concentração superior a 20 minutos. As médias europeias servem-lhes, aos professores como aos seus alunos, para quase nada. Elogios ou vitupérios, para um como para o outro, PISA é só papéis.

 

Elogiar os professores pelos resultados de um ano não é cinismo, como muitos arengam por ressentimento partidário; é, isso sim, uma informação sem qualquer serventia. Primeiro, porque isso significaria que os professores dos anos anteriores não foram heróis nenhuns, o que é estranho porque são mais ou menos os mesmos deste ano. Em segundo, porque se dentro de três ou quatro anos as coisas nos voltarem a correr mal, para onde terão ido os heróis do PISA anterior? Para que Portugal subisse alguns lugares no ranking da OCDE, é porque alguns desceram. Se assim foi, nesses países, os heróis de ontem são os incompetentes de hoje. Fará isto algum sentido?

 

Um apuramento de qualquer realidade pedagógica envolve uma análise de décadas e não de uma amostra de 40 escolas num ano. É isso, aliás, que a OCDE faz. E faz muitíssimo bem, que eu tenho amigos na OCDE. Portugal precisa muito de estatística, sistematização de dados reais e de planeamento. Ora, é exactamente isso que não somos bons a fazer. Por isso contamos com os outros, os de fora, que façam por nós aquilo que nós devíamos estar, plácida, discreta, cientifica e profissionalmente a fazer. Mas não. As melhores experiências, como os relatórios de avaliação das provas de aferição dos anos noventa foram interrompidas sem qualquer razão de monta. Como não fazemos os trabalhos de casa, copiamos pelos outros.

 

Não aprendemos com os erros. Mas o pior é que também não aprendemos com as vitórias.

 

Todos temos facilidade em compreender que, numa Bolsa de Valores, quando uma carteira de acções sobe, isso não significa que é altura de vender ou que a empresa está a ter um desempenho estável e sólido. Isso apenas representa que há acções a mudar de mãos. É preciso esperar. O que um investidor prefere é um portfolio consistente e sempre valorizável. A educação deve ser encarada da mesmíssima forma. O investimento na educação faz-se através de uma estabilização dos seus processos das suas regras. O que é que temos, ao invés? Reformas, fracturas e conflagrações: um processo de avaliação que está completamente desprestigiado e ferido de uma inadmissível infundamentação; um sistema de progressão que impõe anomalias como esta: aos professores que concluíram o seu mestrado num dado dia de Junho é-lhes dado um ano de progressão na carreira; se o terminaram no dia seguinte desse mesmo mês, já não têm direito a nada; mas se decidirem adiar a sua conclusão para daí a uns meses, já passam a ter a bonificação de um ano de progressão novamente. Temos um conselho nacional de directores de escola que decidiu reagir publicamente contra a absoluta incapacidade de previsão do que vai ser a rede escolar para o ano que vem, por causa da imposição inflexível de um processo de agrupamento de escolas, que nada deve a critérios pedagógicos. Temos o abandono da profissão por parte da esmagadora maioria dos professores que emprestavam às escolas uma competência que actualmente as escolas têm dificuldade em recrutar, até porque as escolas não podem recrutar nada.

 

Avaliar a qualidade do ensino de um país através dos testes PISA, ainda para mais com desassossego público, é algo de excêntrico que os professores encaram com a maior serenidade ou mesmo com indiferença. Há coisas mais importantes para fazer. Trabalho de casa. Quanto aos testes PISA existem inúmeros factores que podem demonstrar tudo: que as amostras são tingidas e que os valores são de fiar. Há de tudo em matéria de comentadores, e, como sempre, quanto mais prosélitos, mais bocejantes e previsíveis. Todo o turista o sabe: para ver a inclinação da torre de Pisa, temos de nos afastar dela uma boa centena de metros.

 

Preocupa-me saber o que estão os professores a fazer com o software educativo do computador Magalhães, para além de dizerem que é péssimo e que já não funciona; o que estão as escolas a fazer com o extraordinário investimento tecnológico que este governo fez nas escolas portuguesas. Quero conhecer o que está a fazer-se com todo este gigantesco apetrechamento de infraestruturas educativas? Preocupa-me é saber o que irá o sistema produzir com a mais potente e freática das reformas que hoje testemunhamos: a demolição da cultura de voluntarismo que caracterizou a classe docente durante décadas e que a faz ser olhada pela sociedade portuguesa como a classe profissional em quem os portugueses mais confiam. O que resultará desse incêndio administrativo que incita os professores a fazerem o estritamente indispensável e nada mais, porque é essa a lógica burocrática que o ministério implementa – criando condições objectivas para o desaparecimento de clubes, núcleos, impondo aos professores que leccionem 7 e 8 turmas, mais de 200 alunos por ano, aos bibliotecários que saiam da bibliotecas, obrigando a que haja turmas numa sala de aula com dois ou mais alunos com imparidades graves, etc.?

 

A frase do Lincoln segundo a qual “Não se pode enganar todos durante todo o tempo” aplica-se bem aos resultados do PISA. O alvoroço apologético do governo é perfeitamente compreensível, desmoralizado que está com a ineficácia clamorosa de algumas das mais relevantes decisões que decidiu tomar em matéria educativa. Lincoln recorda-nos. Só importa verdadeiramente aquilo que acontece ao fim de muitos anos. Olhando para os resultados de muitos anos de forma a diluir factores volúveis e flutuações conjunturais. Como na Bolsa. Como na vida. Um historiador conhece bem esse assalto epistemológico: a bolsa ou a vida.

 

Existe uma coisa que todos os treinadores de bancada da educação parecem gostar de dizer. As escolas precisam de estabilidade. No que não parecem estar de acordo é em relação àquilo que cada um deles acha que é “estabilidade governativa”.  A desejável estabilidade governativa em matéria de educação não se mede pelo número de anos que uma ministra ou um ministro está no poder. Algumas das melhores actuações ministeriais ocorreram em poucos meses de governação. A estabilidade educativa mede-se pelo grau de autoridade, disponibilidade orçamental, autonomia e emancipação que é dada às escolas para que elas sigam e construam o seu caminho. Segurar o leme da educação impõe seguir um rumo constante e previsível. Sair de um porto com uma orientação certa e não permitir sequestros e motins a meio da viagem. Em linguagem náutica, estabilizar é não mudar de rumo continuamente. Um rumo não pode depender das ondas.

 

Algo que o estudo PISA assinalou de forma eloquente: as escolas com maior autonomia em matéria orçamental, gestão de recursos humanos e autonomia curricular têm melhores resultados. Na maior parte dos casos são as escolas privadas as que melhor seguem estes rumos. Essencialmente alheias a ingerências e quotidianas ortopedias ministeriais. Devíamos aprender com elas. Mas não.

publicado por Rui Correia às 12:42
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6 comentários:
De Fernando a 14 de Dezembro de 2010 às 14:27
Só tenho duas palavras: pimba e mainada.
De Cláudia a 15 de Dezembro de 2010 às 10:23
Se me permite, Sr. Rui, está irretocável suas idéias e ideais, cuja brilhantismo parece uma expressão matemática!
Apenas que aumentamos a soma deste número racional se, os professores forem por natureza os conservadores e multiplicadores nesta função social.
De Lúcio a 16 de Dezembro de 2010 às 09:26
Lúcido!
De José Mota a 17 de Dezembro de 2010 às 09:31
Concordo muito e aplaudo entusiasticamente a qualidade da análise e a sempre admirável escrita :-). Um abraço
De pisa-papeis a 11 de Julho de 2012 às 09:11
very good
De brinde empresarial a 11 de Julho de 2012 às 09:15
i want to buy it

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